Economia

O passado assombra a Argentina

Pedido de socorro do presidente Mauricio Macri ao FMI escancara tormenta cambial, ameaça o crescimento do país e revive histórico de crises antigas. O cenário deixa o Brasil em estado de alerta

Crédito: Juan Mabromata (AFP Photo)

Escalada de tensão: disparada do dólar obrigou o governo Macri a aumentar juros três vezes em apenas uma semana (Crédito: Juan Mabromata (AFP Photo))

Um fantasma voltou a preocupar os argentinos, na terça-feira 8, quando o presidente Maurício Macri tomou uma decisão drástica para tentar aplacar a sangria cambial que atingiu os mercados locais desde o início do ano. Num discurso televisionado, anunciou negociações para garantir uma linha de financiamento junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição que simbolizou a derrocada econômica do País no início dos anos 2000. “Isso nos permitirá fortalecer o programa de crescimento e desenvolvimento, dando-nos maior apoio para enfrentar esse novo cenário global e crises como as que tivemos em nossa história”, afirmou.
A condição global a que se refere é a pressão sobre as moedas de países emergentes com a saída de investidores em busca de juros mais altos nos Estados Unidos. A menção à história tem relação com o calote de 2001, que deixou o país isolado do mercado financeiro internacional até 2016.

O ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, foi a Washington nos dias seguintes para negociar um repasse estimado em US$ 30 bilhões. O discurso oficial é de que a quantia ajudará a dar continuidade ao rito gradual das reformas iniciadas em 2015, para corrigir os desequilíbrios macroeconômicos de anos anteriores. Ao se eleger, Macri traçou um cronograma de revisões brandas para reduzir o déficit fiscal, com medidas como a reforma da Previdência e o corte de subsídios nas contas de luz. Ele acabou com travas de importações e negociou o pagamento de pendências com fundos abutres para voltar a acessar o mercado de dívidas. Com a emissão de títulos no exterior com vencimentos de até 100 anos, a Argentina buscava um fôlego extra para atravessar a fase mais aguda da crise. O processo, porém, aumentou a exposição do País.

A fragilidade é ressaltada pelos analistas ao se observar os chamados déficits gêmeos, a combinação de um rombo fiscal, em 3,5% do PIB, e a conta negativa nas transações com o exterior, em 5% do PIB. Elas indicam que o País pode ter problemas em honrar os seus compromissos numa situação de estresse. E as condições não são favoráveis nos mercados mundiais, já que o movimento de investidores rumo aos juros mais altos nos Estados Unidos retira recursos de emergentes e provoca uma desvalorização de moedas em países como México, Brasil e Rússia. A tendência foi particularmente forte sobre o peso. O dólar ficou 22% mais caro desde janeiro na Argentina – no mesmo período, a moeda americana subiu 7,5% no Brasil.

Para tentar estancar a desvalorização, o governo lançou mão de reservas cambiais – o estoque caiu de US$ 62 bilhões para US$ 55,6 bilhões – e de uma alta explosiva dos juros, de 27,25% para 40%, o maior patamar do mundo, mais de seis vezes o nível do Brasil. O movimento monetário busca atrair investidores num cenário de maior risco, mas inibe o crescimento. As expectativas para o PIB estão em tendência de queda e já há previsões de retração. Num relatório divulgado na quinta-feira 10, a consultoria inglesa Capital Economics afirmou que os riscos indicam uma contração de 0,5% neste ano, uma revisão drástica em relação ao número anterior, de crescimento de 2,5%. “Se as medidas de ajuste tivessem sido mais fortes, o governo estaria colhendo os frutos agora”, afirma Edward Glossop, economista para América Latina na consultoria. “Mas os cortes seriam extremamente impopulares e atrapalhariam os planos eleitorais de Macri.”

O anúncio das negociações com o FMI pode ser visto como parte da estratégia de Macri rumo à reeleição em 2019, seja para manter os ajustes graduais ou para culpar um agente externo por medidas mais duras, uma vez que os empréstimos do fundo costumam ser acompanhados de exigências austeras. “A dúvida agora é se ele vai manter o gradualismo ou impor mudanças mais drásticas”, questiona Dante Sica, diretor da consultoria argentina ABECEB, que prevê um crescimento de 2% para a economia em 2018, ante previsão anterior de 2,3%.

Nas alturas: o dólar alcançou seu maior preço na história da Argentina, ficando 20% mais caro diante do peso argentino (Crédito:Uan Mabromata / AFP Photo)

A abrupta desvalorização cambial está trazendo consequências indesejadas para a economia, pois aumenta o preço de produtos importados. Isso é particularmente dramático para uma população que sofre com uma inflação superior a 20% ao ano. Esses impactos estão sendo observados com cautela por empresários dentro e fora da Argentina. A Havana, tradicional marca de alfajores, prevê um aumento nos custos de produção. Como é muito buscada por estrangeiros, a marca, porém, vê benefícios com uma entrada maior de turistas atraídos pelo câmbio mais favorável.

“Acompanhamos tudo de perto, mas também acabamos aproveitando o que o peso mais barato pode oferecer”, afirma Alan Aurich, CEO da Havana. “É como se uma coisa balanceasse a outra.” O clima de tensão alcança um grupo grande de empresas brasileiras, pois a Argentina é o terceiro maior destino das nossas exportações. “O clima é de apreensão”, afirma Hugo Zattera, presidente da Agrale, produtora gaúcha de tratores, caminhões e ônibus. “Os empresários e investidores não sabem o que fazer e vão aguardar.” Assim como a Havana, a marca prevê aumento de custos da produção na fábrica em Mercedes, região metropolitana de Buenos Aires.

O setor automotivo brasileiro é um dos que mais têm de se preocupar com a crise nos vizinhos. As exportações avançam 7,5% neste ano e ajudam a aquecer a produção nas fábricas do Brasil. A Argentina é o destino de 75% das vendas externas de veículos (leia reportagem aqui). Para a montadora de caminhões MAN, a preocupação vai além do câmbio. “A maioria dos consumidores faz a compra com financiamento e, com juros a 40%, ficarão inibidos a comprar”, afirma Roberto Cortês, presidente da MAN na América Latina. Negócios internacionais representam um quarto do volume comercializado pelo grupo, sendo 30% desde valor de vendas para a Argentina. A ordem, por enquanto, é aguardar para saber se a crise é mais profunda ou apenas um “soluço”.

Oposição: membros de organizações de esquerda protestaram em frente ao Congresso Nacional argentino contra qualquer negociação com o FMI, na terça-feira 8 (Crédito:Eitan Abramovich / AFP Photo)

Há cerca de 20 anos, problemas por lá significavam situação ruim também no Brasil, no que ficou conhecido como “efeito Orloff.” No entanto, hoje em dia, especialistas deixam claro que a situação econômica é bem diferente. “O mercado internacional exerga os dois países de forma distinta”, afirma Mark Jones, economista da Univerisdade Rice, nos EUA. “O sistema economico brasileiro é visto até favoravelmente. A maior preocupação mesmo é com a política.” Ao contrário do vizinho, o Brasil tem a situação externa sob controle – o déficit com o exterior é de menos de 1% do PIB – e possui cerca de US$ 380 bilhões em reservas cambiais. “A nossa situação é completamente diferente da Argentina”, afirmou Eduardo Guardia, ministro brasileiro da Fazenda, na terça-feira 8.

Os dramas do passado seguem vivos na memória dos argentinos. Durante os anos 1990, o País enfrentava dificuldades que o obrigaram a recorrer ao FMI em busca de um socorro. O fundo exigiu contrapartidas duras, como cortes em salários de servidores, pensões e gastos públicos. Em dezembro de 2001, a instituição recusou fazer novos repasses, diante do que interpretou como dificuldade persistente de o país honrar pagamentos, levando à situação de calote que agravou os problemas na economia. Com a falta de itens essenciais importados nas lojas e a desvalorização do peso, as manifestações tomaram as ruas, nos famosos panelaços, que acabaram se tornando violentos e resultaram em dezenas de mortes. Entre 21 de dezembro de 2001 e 2 de janeiro de 2002, o país teve cinco presidentes. As consequências econômicas são sentidas até hoje na economia e no nível social da população.

Desta vez, ainda não se sabe como o FMI irá socorrer a Argentina, com exigências duras ou mais flexíveis do que as feitas anos atrás e se há risco de o “soluço” se transformar numa crise mais profunda. O Congresso, que aprovou anteriormente a reforma da Previdência sem problemas, estará dividido e a oposição dos peronistas promete ser dura. “Nossa gestão atravessou a crise de 2008 e 2009, e muitas outras crises, e nunca tivemos de tomar uma atitude como essa”, afirmou Axel Kicillof, deputado e ex-ministro da Economia do governo Cristina Kirchner. O tempo fechou para os hermanos.