Economia

O paradoxo da desigualdade

Aprofundamento do abismo social provocado pela pandemia fez com que os super-ricos parassem para pensar o futuro do capitalismo e seus desdobramentos em um mundo sensivelmente mais pobre.

Crédito: ADITYA AJI / AFP

O CORONA E A MISÉRIA Disparidade das ações implementadas no controle e combate à pandemia por países ricos e pobres sinaliza que dívida social só crescerá nos próximos anos. (Crédito: ADITYA AJI / AFP)

Em uma de suas 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman levantou a questão do paradoxo da desigualdade social que o mundo atravessa. Na avaliação do pensador contemporâneo, a escalada da “indiferença moral” e o “letárgico senso ético” em todos os contextos sociais e composições políticas levarão a economia mundial a um colapso, já que o abismo social que separa os pobres dos ricos tornará impossível a manutenção das riquezas da ponta da pirâmide no médio e longo prazo. Esse pensamento, que já era difundido antes da pandemia, ganhou mais relevância com a chegada da Covid-19. Para se ter uma ideia, desde o início da crise, as 1 mil pessoas mais ricas do mundo acumularam bens na ordem de US$ 500 bilhões, cifra mais que o suficiente para vacinar toda a população global, mas que dificilmente será usada para amenizar as diferenças sociais. Para pensar em plano estratégico de médio e longo prazo e evitar que o paradoxo ocorra em um futuro próximo, o Fórum Econômico Mundial deste ano levou a discussão a sério. Dividido em painéis por área de trabalho, empresários, super-ricos e ativistas dialogaram sobre como entregar ao mundo uma justiça social dentro da nova economia.

Sem a presença do presidente Jair Bolsonaro, o brasileiro que se destacou durante o encontro virtual foi o governador de São Paulo, João Doria, que usou seu tempo para se reafirmar o papel decisivo que exerceu na batalha pela vacina no Brasil. “Lamento que o presidente não tenha seguido as orientações da OMS”, afirmou Doria. O governador reforçou que há forte pressão por parte de empresários incentivados pela visão do governo federal sobre a abertura da economia. “Sem vidas não há economia”, disse. “Não é fácil fazer o enfrentamento a negacionistas, a empresários muito vezes gananciosos ou iludidos com a possibilidade de que tudo possa ser liberado e que não fará diferença no controle da doença”, afirmou o governador paulista.

Na avaliação de José Niemeyer, doutor em ciência política e coordenador de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), a ausência de Bolsonaro foi estratégica. “O Brasil perdeu muito nos últimos anos pela diplomacia”, disse. Para ele, caso Bolsonaro resolva voltar a Davos futuramente, deverá mudar o tom. “No primeiro Fórum Econômico pós-pandemia, teremos um presidente mais moderado no discurso e isolado mundialmente.” Ausente e sem uma agenda capaz de integrar o Brasil à pauta de discussões do futuro após a crise sanitária, o governo parece negar que o desafio de recuperar a economia é global — e será mais difícil para as nações que ignoram seus problemas.

DESEMPREGO A secretária de economia do México, Tatiana Clouthier, foi clara ao apontar o desemprego como preocupação adicional para garantir a recuperação da atividade economia e a redução das desigualdades. Segundo ela, 657 mil mexicanos ficaram desempregados desde a chegada do coronavírus ao país. “A pandemia nos ajudou a colocar luz em coisas que não colocávamos antes”, disse Tatiana. O recado deveria ser ouvido pela equipe econômica do governo brasileiro. Para Eduardo Felipe Matias, doutor em Direito Internacional pela USP e autor do livro A Humanidade e suas Fronteiras: Do Estado Soberano à Sociedade Global, não é por acaso que o tema da desigualdade teve tanto peso no Fórum de 2021. “A pandemia da Covid-19 e suas consequências serão notadas por muitos anos e deixou clara a desigualdade extrema existente entre as diversas nações”, disse. Na avaliação do especialista, ter ou não acesso a vacinas nos próximos meses será essencial não apenas para salvar vidas, “mas também para a retomada da economia, e alguns países saíram na frente nessa corrida.”



QUEM SABE ANO QUE VEM O presidente Jair Bolsonaro não participa do evento de 2021 e a expectativa é que, caso apareça em 2022, tenha um discurso ameno em função de seu isolamento do resto do mundo. (Crédito:AFP)

Para Adriano Rondeli, economista e especialista em mercados internacionais da Valor Investimentos ficou evidente com o andamento da pandemia que em uma crise econômica global a população de baixa renda é a que mais sofre. “O desemprego alto e a inflação, gerada pelos estímulos econômicos, afetam os mais pobres. Esse é o cenário que vai pautar muitos debates internacionais”, afirmou.

Inevitavelmente, o tema vacinação em massa se impôs, por ser considerada a única saída de retomada econômica global. De acordo com o portal Our World in Data, das 68,4 milhões de doses já aplicadas no mundo, só 18.353 foram para a África. Em seu discurso, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, condenou o “nacionalismo das vacinas” e acusou os países ricos de reservarem mais doses do que o necessário. Até o momento, a União Europeia (UE) fechou contratos que garantem quase 2,3 bilhões de doses de seis vacinas, o que seria suficiente para imunizar a população inteira do bloco mais de duas vezes. Além disso, África do Sul e Brasil pagaram US$ 5,25 por dose da vacina da Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca produzida na Índia, enquanto uma ministra belga revelou no ano passado que membros da UE arcariam com o valor de US$ 2,16 por unidade do imunizante. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, reconheceu em seu discurso no Fórum de Davos a necessidade de uma distribuição mais equilibrada: “Em tempos de escassez, é importante que as vacinas sejam distribuídas de forma equânime”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cobrou fabricantes pelos atrasos na entrega dos imunizantes — em especial a Pfizer e AstraZeneca. “A União Europeia investiu bilhões de euros para contribuir com o desenvolvimento das primeiras vacinas contra a Covid-19. Agora as empresas devem fazer sua parte e honrar seus compromissos”, disse. Ano passado, a Organização Mundial da Saúde já sinalizava que manipulação dos preços e abastecimento seriam problemas reais.

“Sem vidas não há economia” Governador do Estado de São Paulo, João Doria usou seu espaço no Fórum Mundial para reafirmar a defesa da vida e da ciência. (Crédito:Antonio Molina )

SUSTENTABILIDADE Entre os infinitos rituais que circundam o Fórum Econômico Mundial, a divulgação do Relatório de Riscos Globais é um deles. Pudera. O documento serve como base para toda e qualquer discussão realizada durante os dias do evento. Neste ano, o texto evidencia que a direção dos diversos atores mundiais rumo às boas práticas ESG (ambiental, social e de governança) é caminho sem volta. “O relatório do ano passado trouxe ainda mais aspectos ambientais do que o deste, mas eles se mantêm muito relevantes ocupando o topo da lista de riscos de probabilidade de acontecerem, e ganham a companhia do crescimento dos riscos sociais”, disse Ricardo Zibas, sócio da londrina ERM Environmental Resources Management. De acordo com o relatório, entre as sete maiores ameaças por probabilidade de acontecerem estão: clima extremo; fracasso na ação climática; danos ambientais causados pela humanidade; doenças infecciosas; perda da biodiversidade; concentração do poder digital; e desigualdade digital.

Em um aceno por uma economia mais sustentável, o presidente da China, Xi Jinping afirmou que o país — um dos maiores poluidores do planeta — fará mais um “front ecológico”, com a redução da emissão de carbono. Para Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, o empenho do líder chinês está ligado ao plano do país de ser a grande potência global. “Não existe outro modelo de desenvolvimento que não passe por uma economia de baixo carbono com redução de emissões”, afirmou.

AMAZÔNIA EM CHAMAS Com queimadas e desmatamentos no Brasil chamando a atenção do mundo, o vice-presidente Hamilton Mourão pede ajuda de empresas. (Crédito:Rafael Nilton Pelizzeri)

Distante de uma promessa similar, o Brasil nos últimos dois anos foi reconhecido internacionalmente por não conseguir fiscalizar o desmatamento na Amazônia e controlar os incêndios que se espalhavam por todo o País. Para tentar reverter tal impressão, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que será muito difícil preservar a Amazônia sem ajuda da iniciativa privada, e fez um aceno para países como Noruega e Alemanha para que voltem a investir em um fundo de preservação da região. Os países, que eram os principais fiadores internacionais de ações de controle do desmatamento cancelaram os aportes por entender que não havia comprometimento do governo com tais questões. A forma desigual como o mundo lida com suas riquezas, suas vacinas e seu meio ambiente comprovam que o alerta de colapso em função do paradoxo citado por Bauman está mais perto do que nunca.

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