Edição nº 1058 23.02 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Aline Tristão Bernardes, diretora executiva da Forest Stewards hip Council

O País precisa de uma estratégia para a Amazônia

Rafael Stedile

O País precisa de uma estratégia para a Amazônia

Rodrigo Caetano
Edição 11.08.2017 - nº 1031

Cerca de 80% da madeira comercializada no Brasil é ilegal. A construção civil é a grande compradora desses produtos, que têm origem no desmatamento. O problema, no entanto, é maior do que perda florestal – como se não bastasse. O Brasil tem compromissos assumidos internacionalmente contra a devastação de suas florestas, em especial a Amazônica. O mais recente é o Acordo de Paris. Para Aline Tristão Bernardes, diretora geral da Forest Stewardship Council (FSC), principal certificadora mundial de produtos de origem florestal, essa é uma realidade triste, que faz o País perder não só credibilidade, mas também recursos. “Floresta em pé é dinheiro”, afirma Bernardes. Com a criação de um mercado global de carbono, um dos pontos estabelecidos em Paris, o país tem grandes chances de lucrar com suas matas, desde que elas sejam preservadas. Mas o governo parece ir na contramão das tendências e acena com a redução das áreas de proteção ambiental, como no caso do Parque do Jamanxim, no Pará. “Não há justificativa plausível para o desmatamento, a não ser o financiamento do próximo ciclo de desmatamento”, diz a executiva. Confira a entrevista:

DINHEIRO – O governo, para atender a bancada ruralista, acena com a redução de áreas de proteção ambiental, como no caso do Parque do Jamanxim, no Pará. Isso não vai contra compromissos feitos pelo Brasil, como no caso do Acordo de Paris?

ALINE TRISTÃO BERNARDES – Vai contra todo o comprometimento do Brasil. O desmatamento aumentou 60% em 2016. Eram 900 funcionários para fazer a fiscalização na Amazônia, hoje são 600. Agora tem a diminuição da área protegida. Se você pensa que o maior impacto em termos de emissões é o desmatamento, estamos indo contra o que foi estabelecido no Acordo de Paris. Isso fez a Noruega e a Alemanha retirarem apoio ao Fundo Amazônia. Ou seja, além de desmatar mais, perdemos dinheiro.

DINHEIRO – E também vai contra as demandas do mercado, em especial o de papel e celulose? As empresas do setor apoiam esse tipo de política?

BERNARDES – Não apoiam. As empresas de papel e celulose não estão na Amazônia – há apenas uma, que é certificada. Mas as que estão nas áreas de Mata Atlântica, por exemplo, precisam cumprir regulações rígidas. Mais do que o dobro da área plantada precisa ser preservada. Por isso a necessidade de certificação. O que ela traz, mais do que uma chancela em termos de legislação, é mostrar que a empresa tem uma reputação, promove e pratica boas práticas ambientais. No caso de madeira de floresta nativa, sem certificação nem é possível comercializar, isso é fato. O que se diz é que, além de agregar certos valores, o certificado atrai melhores clientes. Somos contra qualquer tipo de desmatamento porque acreditamos que floresta em pé é dinheiro.

DINHEIRO – Nessa questão de ganhar dinheiro, o Acordo de Paris também é relevante, já que ele prevê a criação de um mercado global de carbono…

BERNARDES – Exatamente. Isso será implementado.

DINHEIRO – Isso significa que reduzir o tamanho da Floresta Amazônica, por qualquer motivo, vai resultar no Brasil perdendo dinheiro?

BERNARDES – Claro que vai perder. Já está perdendo dinheiro. Por exemplo, da Noruega e da Alemanha. Por vários outros motivos também, como nas emissões de títulos verdes, que agregam projetos relacionados com boas práticas de uso das florestas. Isso está sendo discutindo globalmente e no Brasil duas empresas já fizeram emissões desse tipo. A gente vem trabalhando, junto com a Climate Bond Iniciative, em uma forma de utilizar os modelos da FSC como padrões de títulos verdes para a área florestal. Estamos negociando desde o ano passado. É mais uma possibilidade de ganhar dinheiro mantendo a floresta em pé.

DINHEIRO – A quem interessa o desmatamento?

BERNARDES – O desmatamento serve como um primeiro financiamento de outras cadeias, em relação ao uso daquele solo. A do boi é uma delas, mas existem outras. Na verdade, esse tipo de atividade financia outro negócio. Então, interessa a quem quer dinheiro rápido e imediato. O que é muito triste é o fato de que essas discussões estão presentes há muitos anos. Todo mundo sabe que o desmatamento abre espaço para a grilagem, para a invasão de terras em unidades de conservação, etc. E não é um negócio lucrativo, tanto que quem desmata está sempre tendo de buscar novas áreas. Já uma empresa certificada, como a Precious Wood (madeireira suíça que explora uma área de 500 mil hectares em Itacoatiara, no Amazonas), fica 20 anos manejando a floresta, ganhando dinheiro no mesmo local.

Bois pastam em área localizda no Parque Nacional do Jamanxim, no Pará (Crédito:AFP Photo / Antonio Scorza)

DINHEIRO – O raciocínio de que o desmatamento abre caminho para o desenvolvimento da agricultura, por exemplo, não é correto, então?

BERNARDES – O desmatamento justifica-se a si próprio. Ele é o negócio. E não tem necessidade. Já existem áreas degradadas o suficiente que podem comportar projetos tecnologicamente sofisticados. E elas não estão sendo utilizadas. A Embrapa, por exemplo, tem uma técnica chamada de IPFL – integração de pasto, floresta e lavoura – que integra tudo ao mesmo tempo e serve muito para a Amazônia, inclusive. Ou seja, não há justificativa plausível para o desmatamento, a não ser o financiamento do próximo ciclo de desmatamento.

DINHEIRO – Ou seja, não só não é preciso desmatar, como já existem áreas suficientes para garantir o desenvolvimento do agronegócio no Brasil…

BERNARDES – Não precisa desmatar, e não estou falando só de pasto ou só de madeira. Estamos falando do que tem na floresta e pode gerar recursos, mas é muito pouco explorado. É o caso do açaí. O hemisfério Norte descobriu o açaí. Mas é preciso cuidado para que não aconteça o que aconteceu com a quinoa, nos Andes, onde os indígenas acabaram deixando de consumi-la por conta de uma produção extensiva. O açaí não pode virar uma monocultura. Acabamos de certificar uma série de famílias produtoras no Amapá.

DINHEIRO – A FSC também certifica empresas que não são de madeira ou papel e celulose?

BERNARDES – Sim. Temos muitas. Uma empresa no Sul de Minas, por exemplo, maneja candeia, cujo óleo produz o melhor fixador de perfume que existe. Eles exportam tudo. Temos até erva mate certificada. Há um povo indígena que certificou a produção de carvão de babaçu, em São Paulo. Estamos ajudando eles, agora, a atingir um mercado melhor.

DINHEIRO – Há um modelo de negócios sustentável que seja viável para as florestas brasileiras?

BERNARDES – Claro. A certificação é uma forma de agregar valor. Mas mesmo sem considerar a certificação. Veja o que a Natura fez em relação aos cosméticos, por exemplo. O Boticário também. Tem o setor farmacêutico. É burrice discutir desmatamento ainda. Temos informações suficientes para desenvolver projetos sustentáveis e a academia já vem estudando isso há muito tempo. Fora que existem pessoas morando nas áreas de proteção, como no Parque do Jamanxim, ou no Amapá, onde várias comunidades de ribeirinhos se juntaram e agora vão exportar açaí certificado. Há base para isso. O Brasil precisa de uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia. Sem ela, a oportunidade vai embora.

A Leroy Merlin, a partir de 2018, só vai comprar madeira se for certificada FSC (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – Tem a questão dos conflitos fundiários também. Como lidar com isso?

BERNARDES – Com um modelo de uso responsável. No caso da certificação FSC, ela envolve consentimento prévio, negociação e engajamento. Vou usar o exemplo da Precious Wood, de novo. Quando a empresa comprou a área, em Itacoatiara, há 20 anos, havia 35 famílias ocupando determinada parte da terra. Essas comunidades, agora, vão ganhar a titularidade e, inclusive, fornecem madeira para a própria empresa. Como as auditorias são anuais, tem um acompanhamento muito próximo dessas questões, por parte das certificadoras. As empresas são bem temerosas em perder o selo. Porque se não tiver, não vende.

DINHEIRO – A madeira ilegal brasileira, segundo o próprio FSC, hoje alimenta basicamente o mercado interno. O Brasil está atrasado nessa questão da certificação em relação aos países desenvolvidos?

BERNARDES – Obviamente ainda existe madeira ilegal na Europa e nos Estados Unidos. Mas a legislação é muito mais rígida. Então, exatamente pelo medo de criminalização, em se tratando de madeira amazônica, só há demanda por produtos certificados. O mercado é muito estabelecido. No Brasil, onde a compra de madeira de desmatamento não é ilegal, 80% do mercado é formado de produtos ilícitos, ou esquentados, como se fala. Existem várias maneiras de fraudar os documentos. Estamos bastante otimistas com o novo sistema que o Ibama deve implementar, totalmente eletrônico, que vai trazer mais transparência. Quando se olha os números, eles não batem. Manaus, por exemplo, consome mais madeira do que produz. De onde ela vem? Quando eu falo que o País não tem uma estratégia, penso no mercado de celulose. Somos líderes mundiais porque foi criada uma indústria de base florestal para isso. Mas, na Amazônia, estamos muito longe disso. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) chegou a começar um debate sobre isso. Só que ainda não temos essa estratégia de fato.

DINHEIRO – Há mercado e há interesse empresarial. O que falta, então, são políticas públicas por parte do governo?

BERNARDES – Está para sair um decreto do Governo Federal indicando que, para compras públicas e em obras públicas, terá de, no mínimo, mostrar a origem responsável da madeira. Isso seria fenomenal. Tem uma discussão sobre oferta e demanda e a questão fiscal. Não tem como competir com madeira ilegal. Ela é 70% mais barata. Sem políticas para isso, acaba não desenvolvendo o mercado. Temos menos de 1% da produção de madeira na Amazônia certificada.

DINHEIRO – Sem desenvolver o mercado legal de madeira, não há receita de impostos também…

BERNARDES – Exato. Não sei o que o governo tem a perder em relação a isso. Mas estamos fazendo alguns trabalhos bacanas. A MRV colocou na sua política de fornecedores que é preciso de certificado FSC. Em algumas regiões, especialmente no Norte, é difícil encontrar fornecedores. Aí, fica caro construir, porque levar do Sudeste é muito complicado. O Banco do Brasil está reanalisando as políticas de fornecimento de crédito para alguns setores chave. Um deles é a construção civil. Nós participamos da criação dos indicadores. Só vai ter crédito do BB para quem comprovar a origem responsável dos materiais. A Leroy Merlin, a partir de 2018, só vai comprar madeira se for certificada FSC. Ou seja, temos todos os instrumentos. A sociedade está mais do que ciente do que se perde e do que se ganha em relação a isso. Precisamos convencer os políticos.

DINHEIRO – Esses movimentos do setor privado podem inviabilizar a madeira ilegal?

BERNARDES – Chegará uma hora em que quem não for certificado estará fora do mercado. E é o consumidor que vai fazer isso. É custoso? É. Demanda de uma série de mudanças nos processos das empresas. Mas compensa. Papel, por exemplo, hoje você já não encontra quem não é certificado. Só que apenas 4% da madeira no mercado é certificada. Precisamos nos comunicar melhor também, mostrar ao consumidor a importância da certificação.


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