Negócios

O olho da Marfrig engorda a floresta

Companhia lança plano de R$ 500 milhões para rastrear 100% do rebanho, inclusive de fornecedores indiretos, e se blinda da má reputação da política ambiental do governo.

Crédito: Eduardo Anizelli

A meia-verdade mais falada no interior das porteiras das 2,6 milhões de propriedades rurais com rebanho de bovinos Brasil afora é “o olho do dono que engorda o gado.” Mas hoje é necessário muito mais do que o olho do dono para garantir a qualidade do animal e da carne produzida. Com o avanço global da pauta da sustentabilidade, em meio às críticas mundiais à devastação da Amazônia, mostrar que todos os bois criados em terras brasileiras são originários de regiões livres de desmatamento tornou-se questão de garantia de espaço mercado global.

Nesse contexto, a indústria resolveu agir. Duas semanas após o envio de carta assinada por 38 executivos de grandes companhias e associações ao vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho Nacional da Amazônia Legal, cobrando ações mais efetivas do governo contra o desmatamento e da ameaça de boicote de investidores estrangeiros, veio a contundente ação da iniciativa privada: a gigante brasileira da pecuária Marfrig, segundo maior produtor mundial de carne bovina, apresentou um plano para, em até uma década, garantir 100% do rastreamento de toda a cadeia da empresa. Isso incluindo fornecedores indiretos – o maior problema hoje para o setor. O projeto tem investimentos da ordem de R$ 500 milhões. “Apoiar os produtores para que adotem práticas mais sustentáveis é fundamental”, disse o fundador e presidente do Conselho de Administração da companhia, Marcos Molina, durante evento virtual realizado na quinta-feira (23). “A rastreabilidade total contribuirá para a preservação ambiental.” A preservação e o retorno aos acionistas. O dirigente foi um dos signatários do ofício enviado a Mourão.

O plano da Marfrig, realizado em parceria com a instituição público-privada Iniciativa para o Comércio Sustentável (IDH), que é financiada pelos governos de Dinamarca, França, Holanda, Noruega, Reino Unido e Suíça prevê assegurar, até 2025, todo o monitoramento da cadeia produtiva na Amazônia. E nos cinco anos seguintes, aumentar esse mapeamento para o Cerrado. Ainda em 2020, o frigorífico planeja concluir um plano de mitigação das áreas degradadas e levantar dados sobre os fornecedores indiretos, que são os produtores que fornecem o gado, ainda em fase de cria, para os produtores que vendem diretamente à empresa para o abate. Uma vez localizados, os mapas são sobrepostos com informações sobre presença de vegetação nativa e áreas de pastagens.

Um dos maiores entraves para o avanço da rastreabilidade está no fornecedor indireto, justamente pela indisponibilidade de dados sobre o animal desde o nascimento. Para o diretor de sustentabilidade da Marfrig, Paulo Pianez, é necessário mais transparência no processo. Um dos caminhos seria aprimorar as informações fornecidas no Guia de Trânsito Animal (GTA), que mostra a movimentação do gado em propriedades rurais. Mas o frigorífico só tem acesso ao documento da fazenda em que ele adquire, que é o fornecedor direto, e não de quem fez o processo anterior.

A questão se agrava porque, para cada fornecedor direto, há dez fornecedores indiretos que compõem a cadeia. “O GTA traz informações sobre a sanidade animal e somente de uma parte da cadeia. Seria necessário incluir a questão ambiental, se ele passou por alguma área de desmatamento, e que todos os dados fossem públicos”, disse o diretor da Marfrig.

Desde 2009, a Marfrig destinou R$ 260 milhões para a criação de sistema de monitoramento de 100% dos fornecedores diretos da Amazônia, hoje cerca de 16 mil fazendas em uma área de 26 milhões de hectares, equivalente ao tamanho da Nova Zelândia. Levando-se em conta os indiretos na região, seriam, então, 160 mil propriedades rurais que devem ser rastreadas nos próximos cinco anos.

POLÍTICA DE INCLUSÃO Para o fundador da Marfrig, Marcos Molina, é necessário apoiar produtores para que adotem práticas mais sustentáveis em
áreas livres de desmatamento. (Crédito:Silvia Costanti)

MAIS RESPOSTAS Mas não é só a Marfrig que está se mexendo. As concorrentes Minerva Foods e JBS também têm projetos, ainda que em fases diferentes ou com outras abordagens, para se blindar de possíveis boicotes. O diretor de sustentabilidade da Minerva, Taciano Custódio, disse que a empresa iniciou em julho a utilização de uma ferramenta chamada Visipec, desenvolvida pela Universidade de Wisconsin, em parceria com a ONG National Wildlife Federation (NWF), para realizar um melhor mapeamento de risco e melhorar a rastreabilidade dos fornecedores. “Vamos cruzar dados para avaliar riscos da cadeia de indiretos. Com isso teremos ideia de quais áreas há maior potencial de desmatamento”, afirmou. Os primeiros resultados devem sair ainda neste ano. Do volume de abate da Minerva, 60% vem de fornecedores do Cerrado, e 40% da Amazônia.

Estudo da ONG Amigos da Terra-Amazônia Brasileira mostra os resultados dos compromissos assumidos por pecuaristas e frigoríficos em garantir desmatamento zero na Amazônia, por meio de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal, em 2009. Pelo levantamento, dos 2,1 milhões de cabeças de gados auditadas em 2018, 4,7% foram considerados irregulares, oriundos de propriedades que não atendem aos requisitos. No ano anterior, eram 9,3%. No ranking, a Minerva apresentou, em 2018, inconformidade em apenas 0,3% do rebanho auditado.

A JBS investiu globalmente no ano passado R$ 1,9 bilhão em ações de sustentabilidade, dos quais a metade foi destinada ao Brasil, principalmente para manutenção de sistemas de monitoramento da Amazônia e projetos relacionados à compra de matéria-prima. “A JBS também não compra de agricultores envolvidos em violência rural ou conflitos de terra, ou aqueles que usam trabalho escravo ou infantil”, afirmou Márcio Nappo, diretor de sustentabilidade da companhia. Uma ação importante destacada pela empresa é o programa Boi na Linha, desenvolvido em parceria com o Ministério Público Federal e a ONG brasileira Imaflora e visa definir critérios e regras técnicas para o monitoramento de fornecedores de gado da área da Amazônia. Nappo também reconheceu a dificuldade em monitorar toda a cadeia. “Um dos principais desafios é a indisponibilidade das informações”, afirmou.

REBANHO MONITORADO A companhia investiu R$ 260 milhões em 10 anos para rastrear os fornecedores diretos. (Crédito:Daniel Wainstein)

PRESSÃO EXTERNA Paulo Pianez, da Marfrig, procura não relacionar a pressão internacional ao lançamento do projeto de rastreabilidade da Marfrig, mas reconhece que a ação da empresa mostra que o setor não se acomodou com as críticas vindas do exterior. “Nosso plano antecede a toda essa pressão, mas é evidente que uma má reputação das políticas ambientais atrapalha o setor”, disse. Para o head de consultoria de inteligência de mercado da StoneX, Caio Toledo, a movimentação pode ser lida como uma mensagem aos países que compram a carne brasileira. “A política ambiental está em voga no mundo e produtores já entenderam essa agenda”, afirmou.

Durante o evento on-line, o CEO da WWF Brasil, Mauricio Voivodic, elogiou a iniciativa, mas pediu agilidade para que a rastreabilidade do Cerrado ocorra antes de 2030. Ainda que com a burocracia e lentidão da administração federal, os principais players do segmento defendem aliança entre iniciativa privada e poder público para garantir que a carne brasileira seja livre de desmatamento, independentemente de onde o boi seja criado. Para o fundador da Marfrig, Marcos Molina, “esse caminho pode ser mais rápido se todos trabalharem junto”. Mas o setor já percebeu que não poderá esperar ajuda do governo federal. Será preciso agir sozinho. É uma corrida contra o tempo e antes que o barulho internacional fique ainda mais alto.

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