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O Ocidente não vai mudar a China. A China é que vai mudar o Ocidente

O que está em jogo é algo astronomicamente maior: o domínio de tecnologia e dos mercados globais

O Ocidente não vai mudar a China. A China é que vai mudar o Ocidente

Em 2011, quando me mudei pra China, fui taxado de louco por familiares e amigos. “O que você vai fazer naquele lugar em que o povo come cachorro e as crianças são escravizadas para trabalhar em fábricas?” Quanta transformação vi e vivi. E esta metamorfose está longe de acabar. Por décadas, empresas americanas e europeias beneficiaram-se da mão de obra barata chinesa e do gigantesco mercado consumidor do país. O Ocidente sempre acreditou que, à medida que se desenvolvesse e se abrisse ao mundo, a China se ocidentalizaria.

A prosperidade seria o combustível para a democratização e a liberdade política. Isso não aconteceu e o Partido Comunista segue cada vez mais forte. Talvez o PC chinês seja o partido que passou por reformas no mundo. Nenhuma delas, porém, no sentido da democratização. No entanto, ao conviver com os chineses ao longo de oito anos, sei que eles nunca se sentiram tão livres. No Brasil, temos o direito de ir às ruas e hostilizar políticos, mas enfrentamos uma série de restrições em outros aspectos da nossa vida quotidiana. A maior delas é o direito de ir e vir, devido à falta de segurança e à baixa qualidade da nossa infraestrutura. Na China, você pode fazer tudo isso – menos falar mal do governo.

O governo tem enorme capacidade para manter a repressão social, mas procura não sufocar o incentivo ao empreendedorismo e à inovação. A economia cresceu tão rápido – e por tanto tempo – que não há na história nada semelhante. O país de hoje seria irreconhecível pelos velhos comunistas dos tempos de Mao. Mais de 800 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza nos últimos 30 anos. O PIB per capita era de US$ 3,5 mil em 2008 e saltou para US$ 12 mil em 2018. A China forma atualmente mais engenheiros e cientistas do que os Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Taiwan juntos.

A compreensão dos grandes desafios globais esbarra na dificuldade do Ocidente em aceitar que exista outro modelo político, social e econômico que gera prosperidade que não é o capitalismo democrático ocidental. Aos olhos de historiadores, o que está acontecendo é bastante comum.

Um dos assuntos mais quentes da atualidade é a tão propalada Guerra Comercial entre os EUA e a China, vai muito além das disputas tarifárias. O que está em jogo é algo astronomicamente maior: o domínio de tecnologia e dos mercados globais. O Ocidente apostou que mudaria a China, mas é a China que está mudando o Ocidente.

O conflito entre Ocidente vs. Oriente será um dos grandes temas das próximas décadas. O ex-embaixador brasileiro em Pequim, Marcos Caramuru, disse “o mundo precisa de pessoas que façam a ponte entre Oriente e Ocidente, do contrário viveremos momentos muito conflituosos.”

O Brasil pode muito bem ser o país que fará essa ponte e lucrará com o processo todo. Para isso, no entanto, precisamos nos livrar do complexo de vira-lata, sermos altivos e nos inserirmos positivamente nesse novo mundo, em vez de continuarmos como os especialistas das oportunidades perdidas.

(*) Edival Jr. fez MBA na Universidade de Pequim e foi executivo
da multinacional chinesa CRRC (Subsidiária-TMT)