Finanças

O novo momento dos bancos digitais

Aquisição do Banco Modal pela XP mostra que perspectiva de redução da liquidez e de alta dos juros no mercado internacional vai tornar o ambiente mais adverso para os neobancos.

Crédito: Claudio Gatti

GUILHERME BENCHIMOL O fundador da XP acelerou o passo nas conversas com o banco Modal para crescer em negócios tradicionais. (Crédito: Claudio Gatti )

Se não puder vencê-los, junte-se a eles. Foi essa a estratégia da XP ao adquirir o controle acionário do Banco Modal por R$ 3 bilhões, um negócio anunciado no dia 7 de janeiro. A ideia é reforçar ainda mais a estratégia de crescer por meio da incorporação de novos negócios com alto potencial de sinergia. Pelo anúncio, a XP vai absorver 100% do capital do Modal e pagar a fatura com 19,5 milhões de ações, ou 3,5% da empresa. Os termos do acordo representam um prêmio de 35% sobre a média de preço das ações do Modal, que é listado na B3, nos últimos trinta dias. O banco adquirido está avaliado em torno de R$ 1,96 bilhão, bem abaixo dos R$ 4,7 bilhões registrados na abertura de capital, há oito meses.

O anúncio foi feito logo depois de a XP confirmar a aquisição de uma participação minoritária na casa de análise independente Suno. No mercado, a avaliação é que a pressa foi para evitar que o Modal continuasse a conversar com a companhia de conteúdo de investimentos TC, antigo TradersClub. A possível sociedade uniria o TC à corretora, que tem meio milhão de clientes de varejo. Com isso, a empresa fundada por Guilherme Benchimol, que vinha se concentrando em gestoras e escritórios de agentes autônomos e fintechs, acelerou o passo. Por sua vez, o Modal crescia como banco de atacado, mas vinha trabalhando nos últimos anos para expandir também sua plataforma de varejo, num mercado cada vez mais disputado.

Em comunicado conjunto, a XP e o Banco Modal dizem que, juntos, ainda representam uma fração do mercado em que atuam, mas que vão “acelerar o processo de disrupção que vem acontecendo na indústria financeira no Brasil, caracterizada por um alto potencial de crescimento e poucos players dominantes.” O mercado gostou do que viu. As ações da XP subiram 5% na Nasdaq. O papel do Modal também disparou mais de 40%. A transação agora depende de aprovações regulatórias. O Banco Central já tem em mãos o pedido do Itaú para exercer a compra de opções de parte da XP. Trá de considerar esse novo negócio. A expectativa da XP e do Modal é concluir a operação em até 15 meses.

R$ 3 bilhões foi o valor total pago pela XP por 100% de participação no banco Modal 

Em setembro de 2021, XP e Modal somavam 3,8 milhões de clientes ativos, enquanto os cinco maiores bancos brasileiros somavam 457 milhões clientes totais com relações bancárias e 175 milhões de clientes com operações de crédito (o que inclui contas de uma mesma pessoa em mais de uma instituição). Em termos de Receita Líquida, nos últimos 12 meses até setembro de 2021, a XP Inc. e o Banco Modal totalizaram R$ 11,8 bilhões versus R$ 427 bilhões gerados pelos cinco maiores bancos brasileiros.

A compra se dá em um momento delicado para plataformas de investimento, quando a taxa de juros alta desacelera a busca por investimento de maior risco para se obter mais ganhos. A competição é cada vez mais intensa não só entre bancos como também entre as digitais, como Nubank (que comprou a Easyinvest por US$ 425 milhões em 2020) e Inter. O negócio com o Modal reduz a concorrência — e foi facilitado pela mudança para pior nas perspectivas para os chamados neobancos. O melhor exemplo foi a valorização do Nubank em sua abertura de capital. A instituição financeira estreou em Wall Street valendo mais do que o Itaú Unibanco. Mesmo tendo 48 milhões de clientes anunciados, o banco roxinho mal chegava ao lucro, resultado muito diferente da tradicional casa bancária controlada pelas famílias Villela, Setubal e Moreira Salles.

O que justificava essa avaliação era a capacidade potencial de transformar 48 milhões de clientes em um ecossistema que fosse rentável por si próprio. A mesma dinâmica de uma rede social. Porém, para que isso ocorresse, era preciso que o porte do negócio crescesse sem parar, algo que demandava capital abundante e juros baixos. Esses dois elementos desapareceram do radar no início deste ano, com os reiterados anúncios do Fed (o banco central americano) de que os juros vão subir nos Estados Unidos e que haverá menos dinheiro na economia. O que torna o cenário mais adverso — e as conversas sobre consolidação passam a ficar mais sérias.