Finanças

O novo mapa global dos riscos

Tensão geopolítica. Envelhecimento da população e queda da fertilidade. Avanços da computação. Saiba com o que você (ou sua empresa) devem se preocupar.

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GLOBALIZAÇÃO EM RETROCESSO Bandeira ucraniana rasgada: o conflito mostra um aumento estrutural dos riscos geopolíticos. (Crédito: Istock)

Volte no tempo, para o último trimestre de 2019. Você estava fazendo planos pessoais, profissionais ou empresariais para 2020. Muito provavelmente uma pandemia não estava no cenário. Repita o exercício para 2021. A perspectiva de a Rússia invadir a Ucrânia também pareceria improvável. São dois exemplos extremos, mas que mostram como, atualmente, é preciso se preocupar com ameaças que não existiam até um passado recente. Um estudo da resseguradora Swiss Re, obtido com exclusividade por DINHEIRO, mostra os riscos que devem ser considerados na tomada de decisões. Alguns deles são óbvios. Outros nem tanto.

A maior das mudanças, ainda com consequências imprevisíveis, é a alteração na trajetória da globalização. Esse fenômeno já tinha sido percebido com a aprovação do Brexit, em 2016. O desligamento voluntário do Reino Unido dos demais países da União Europeia deixou claro que fatias relevantes do eleitorado eram favoráveis à volta de fronteiras e controles. O conflito na Ucrânia confirmou essa tendência. E, independente da duração das hostilidades, esse movimento antiglobalização veio para ficar. “Entre os diversos riscos, as tensões geopolíticas estão em primeiro lugar”, disse a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte. “Há outras questões, como o aquecimento global e o envelhecimento da população, mas já existe maneira de endereçar esses problemas; as tensões geopolíticas têm o maior peso neste momento”, afirmou.

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“As tensões geopolíticas podem prejudicar as perspectivas econômicas globais de várias maneiras, incluindo mercados de energia, fluxos comerciais e a confiança dos consumidores e empresários” Ângelo Colombo CEO da área corporativa da Swiss Re para a América Latina.

Segundo o principal executivo da área corporativa da Swiss Re para a América Latina, Ângelo Colombo, o mapa da globalização mudou. “As tensões geopolíticas podem prejudicar as perspectivas econômicas globais de várias maneiras, incluindo mercados de energia, fluxos comerciais e a confiança dos consumidores e empresários”, disse ele. Para o executivo, o cenário de maior instabilidade torna os empresários e investidores mais conservadores, o que se reflete no aumento de preços e na relutância em assumir novos riscos. No entanto, ele avalia que dessa crise podem surgir oportunidades, especialmente para o Brasil. “As empresas agora precisam identificar e repensar os pontos fracos de suas cadeias de abastecimento”, disse ele. Segundo o estudo da Swiss Re, uma das possíveis mudanças seria a redução de dependência global da China. E isso pode abrir espaço para outros fornecedores, colombianos e brasileiros, por exemplo. Brasil e Colômbia podem funcionar como pontos centrais de novas cadeias de distribuição.

Segundo o estudo da Swiss Re, os riscos já conhecidos do estresse climático e suas consequências – aquecimento global e eventos extremos de temperatura, seca ou inundação – permanecem existindo. O crescimento da população, a urbanização, uma maior intervenção humana na vida selvagem e na biodiversidade, as alterações climáticas e outros fatores são fatores propícios a grandes surtos de doenças infecciosas. A diferença é que os avanços na tecnologia fizeram com que eles fossem mais previsíveis. “A pandemia não deveria ter pegado o mundo desprevenido”, disse Colombo. “Já era possível prever um aumento desses riscos a partir dos próprios painéis da Organização Mundial de Saúde.”

A conclusão menos esperada da análise é que os avanços na computação, especialmente a computação quântica. Essa nova vertente da informática pretende tornar os computadores capazes de resolver problemas hoje além dos recursos conhecidos. vão tornar os negócios mais arriscados antes de começarem a melhorar efetivamente a vida das pessoas. Segundo o relatório, o interesse estratégico de empresas e governos nesse assunto é enorme. Assim como os investimentos. E da mesma forma que a atenção dos criminosos cibernéticos, que podem aproveitar-se de falhas na tecnologia para lançar ataque. Aqui não há “hackers” romanticamente enfrentando corporações poderosas, mas organizações criminosas realizando fraudes financeiras e sequestro de dados pessoais. Invisível, esse é o principal novo risco a ser considerado.