Economia

O New Deal de Biden

Com um pacote de mais de US$ 2 trilhões, o presidente americano dá um novo tiro de canhão na crise causada pela pandemia e injeta dinheiro em setores essenciais para a retomada. E o Brasil pode se beneficiar com tudo isso.

Crédito: Jim Watson

O que no começo da pandemia soava como exagero – a comparação da crise atual com a Grande Depressão dos anos de 1930 nos Estados Unidos – tem se mostrado cada vez mais real, tanto pela gravidade quanto pelas medidas de combate a ela. Nos últimos dias, a expressão “Biden’s New Deal” (o New Deal de Biden, em referência ao pacote de medidas econômicas e sociais adotadas pelo governo Franklin Roosevelt nos anos 1930) dominou o noticiário econômico americano. Com razão. Pelos próximos oito anos, Biden pretende impulsionar a economia e amenizar os efeitos provocados pela Covid-19 com uma injeção de US$ 2 trilhões – que podem chegar a US$ 2,3 trilhões. O Plano Biden inclui reforçar a campanha de vacinação contra a Covid-19, distribuir cheques de até US$ 1,4 mil para americanos prejudicados pelo fechamento do comércio e ajudar governos estaduais e locais com problemas de liquidez. Do total, US$ 1 trilhão seriam destinados somente a obras de infraestrutura

A dinheirama despejada na economia financiará a construção de pontes e rodovias e ajudará no desenvolvimento de novas tecnologias, voltadas principalmente ao setor de energias limpas, como carros elétricos e energia solar. Pela proposta enviada ao Congresso, o megapacote será dividido em duas partes. A primeira, com viés mais econômico, terá foco na geração de empregos e na requalificação de trabalhadores. A segunda, com olhar mais social, será detalhada no fim do mês, com a mira apontada para o combate à pobreza. “Sem dúvida, terá um impacto muito positivo para o crescimento dos Estados Unidos nos próximos anos”, disse Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group. “E como o foco será a infraestrutura, o Brasil vai se beneficiar com o aumento das exportações de minério de ferro, aço e tudo que está ligado à cadeia de suprimentos para grandes obras.”

Os trilhões de Biden se somam ao primeiro Cares Act (nome que o pacote recebeu), já no ano passado, sob Donald Trump. Juntos, os pacotes adotados desde março de 2020 superam a casa dos US$ 5 trilhões – coisa de 25% do PIB do país. Em comparação, o governo brasileiro destinou R$ 568 bilhões no combate à pandemia, de acordo com o portal Siga Brasil, do Congresso. Em dólar, equivale a 7,6% do PIB nacional. O montante do pacote Biden tende a piorar, num primeiro momento, as finanças do país. A dívida pública, superando 106% do PIB no final do ano, será a maior em um século. O déficit do governo, de quase US$ 4 trilhões previsto para o ano, será o maior desde a Segunda Guerra Mundial e equivale a três PIBs brasileiros (cerca de US$ 1,3 trilhão). Como os gestores públicos americanos, ao contrário dos brasileiros, sabem que não existe almoço grátis, um reajuste no Imposto de Renda para ajudar a bancar o pacote de estímulos já está colocado na mesa pelo presidente Biden.

Biden propõe aumentar de 21% para 28% o imposto sobre o lucro das empresas. Na segunda-feira (5), o presidente disse que não acredita que isso possa prejudicar as empresas e a economia. Já Neil Bradley, vice-presidente executivo Câmara de Comércio dos EUA, afirmou que o plano está “perigosamente equivocado” ao colocar sobre as empresas o custo do pacote. Entre os investidores, o receio é que o aumento do dinheiro em circulação resulte em alta dos juros nos próximos anos.

GASTO NECESSÁRIO Para o professor-doutor e diretor da Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP, Antonio Correa de Lacerda, é preciso romper paradigmas para amenizar os efeitos da crise. De acordo com ele, um economista keynesiano, que defende uma atuação mais afirmativa do Estado, a adoção pelo governo de um conjunto de políticas e medidas anticrise se mostra imprescindível neste momento. “Para o Brasil, dada a nossa extrema desigualdade regional e de renda, além da vulnerabilidade de milhões de cidadãos, essas medidas se tornam cruciais”, diz Lacerda, que também presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon). “Não há obviamente espaço para tal no orçamento público brasileiro, e será preciso ampliar a dívida pública para fazer frente aos gastos”, disse o economista.