Economia

O MOMENTO DE FOX



O homem que chega ao Brasil na terça-feira 2 tem tudo para ser objeto de inveja do presidente Fernando Henrique. Ele é 11 anos mais jovem, tem pela frente mais 4 anos de mandato e seu país, ao contrário do Brasil,
tem sólidos indicadores econômicos: exporta US$ 180 bilhões por ano, ostenta taxa de juro real de 2% ao ano e o chamado risco país, medido pelos papéis da sua dívida externa, é de apenas 324 pontos. Menos de um quinto do brasileiro, que está batendo em 1.600. Na verdade, quando Vicente Fox Quesada esticar seus quase dois metros em Brasília, pela segunda vez desde que assumiu, FHC vai se sentir um pouco diminuído. Entre outros motivos, porque o presidente do México, de 60 anos, pode estar pondo em risco a estabilidade da sua economia simplesmente por estar aqui. ?Há 10 anos que o México tenta se diferenciar do que ocorre ao sul do continente?, afirma o economista Luiz Rúbio, presidente do Centro de Investigação para o Desenvolvimento, da Cidade do México. ?Se nessa visita o mercado notar que os países são parecidos…? Na verdade, a contaminação já começou. Em conseqüência da crise argentina e da gangorra brasileira, o peso mexicano estava sendo cotado, na semana passada, ao valor mais baixo desde 1999. E o mercado cobrava mecanicamente uma redução do déficit público, que no México é de apenas 0,65% do PIB ? contra 5% do Brasil. ?Assim como outros países, o México enfrenta nesses dias uma forte turbulência internacional?, disse à DINHEIRO, em entrevista exclusiva, o presidente Fox. ?Mas eu não posso deixar de sublinhar a relativa vantagem do México, que já conseguiu o refinanciamento de toda a sua dívida pública externa.?

O que traz o presidente mexicano ao Brasil é a assinatura de um acordo comercial entre os dois países, que está sendo negociado
há 3 anos. Ele vai reduzir entre 20 e 100% as alíquotas de importação sobre 789 produtos (151 deles agrícolas) e cobre
um universo de US$ 400 milhões, equivalente a um sexto do comércio bilateral entre os dois países, que no ano passado foi
de US$ 2,6 bilhões. ?Cachaça e tequila passarão a circular com
tarifa zero?, diz a embaixadora mexicana no Brasil, Cecília Soto.
O fato é que com a derrocada argentina o México tornou-se este ano o maior parceiro comercial do Brasil na América Latina e o segundo no mundo, depois dos EUA. O superávit brasileiro com o México no ano passado foi de US$ 1,2 bilhão, enquanto o déficit
com a Argentina, apenas nos primeiros cinco meses de 2002, já soma US$ 1,3 bilhão. Na visita, Fox assinará com o Mercosul
um acordo de redução de tarifas automotivas que vai beneficiar
em cheio as montadoras brasileiras ? elas já representam
50% do comércio bilateral, e seu volume de vendas no México
tende a crescer.

?Os brasileiros deveriam se inspirar na capacidade exportadora do México?, afirma Gabriel Salomão, presidente da Sucos del Valle do Brasil. Sua empresa produz no Brasil desde 1999, exporta para o México e já detém 40% do mercado brasileiro. A Del Valle exemplifica um dos aspectos mais promissores da relação bilateral ? o do crescente investimento mexicano no Brasil. Já operam no País cerca de 30 empresas mexicanas, cujo investimento total foi da ordem de US$ 250 milhões. É um bom dinheiro, que deve crescer com a chegada iminente de mais 40 empresas. ?Elas estão fazendo estudos de implantação e devem estar operando nos próximos meses?, afirma Roberto Diaz Martinez, conselheiro comercial do México no Brasil. Instalados numa mansão dos Jardins, em São Paulo, ele e mais dois funcionários mexicanos já visitaram mais de 400 empresas brasileiras para vender os produtos do seu país. É um trabalho de formiguinha que já conseguiu, entre outras coisas, arregimentar 28 empresas brasileiras que irão ao México buscar parcerias locais.




?Os brasileiros ainda não conhecem as empresas mexicanas como investidoras?, constata Ronaldo Albertino, diretor de desenvolvimento para a América Latina do grupo Posadas, dono da rede de hotéis Caesar Park. Eles já têm cinco hotéis no País, estão construindo 13 e planejam chegar a 2005 com 30 unidades. Só pelo controle da marca Ceasar eles já pagaram US$ 130 milhões. Junto com Fox, está prevista a vinda ao Brasil de pelo menos três grandes empresários mexicanos: Daniel Serbitje, presidente do grupo alimentício Bimbo, que comprou a Pullmann; Gilberto Marin, principal executivo do grupo Mabe, de eletroeletrônicos, e Gastón Azcarga, o presidente do grupo Posadas. É uma comitiva de peso, que deve acompanhar o presidente mexicano também ao Uruguai e à Argentina, onde se realiza nos dias 4 e 5 a Cúpula do Mercosul. O México tem assinados 32 acordos de comércio bilateral mas, ainda assim, exporta 82% da sua produção para os Estados Unidos e Canadá. O acordo do Nafta assinado em 1994 fez bem ao país, mas o México procura diversificar.

Nessa visita, Fox tentará também dissipar a impressão de que México e Brasil são rivais na liderança do continente. Os mexicanos, segundo o economista Rubio, não vêem a si mesmos como grandes protagonistas políticos no cenário mundial, como o Brasil gosta de se imaginar. Sua ambição é crescer, modernizar sua economia e atingir uma estabilidade que o país ainda não conheceu. Logo, não há motivo para animosidade entre Fox e FHC ? além do inevitável conflito de vaidades. Do ponto de vista econômico, porém, as coisas são um pouco diferentes. Os dois parques industriais são mais concorrentes do que complementares, e isso pode atrapalhar a convivência comum no seio de uma futura Área de Livre Comércio das Américas. Mas isso é um problema para o futuro. Nos próximos dias, é tudo fiesta.

A ENTREVISTA DO PRESIDENTE MEXICANO
?O Brasil é um grande parceiro?
Ivan Martins e Leonardo Attuch


“O comércio bilateral vai aumentar e os investimentos se tornarão mais dinâmicos”
Quais são os objetivos centrais da sua viagem ao Brasil?
O principal objetivo é aprofundar as relações entre México e Brasil. Elas já são excelentes, mas podem melhorar muito mais. Para alcançar este objetivo, queremos trabalhar em duas vertentes: estreitar a relação bilateral, consolidando
os vínculos existentes e desenvolvendo novas vias para cooperação, e aproveitar pontos de convergência em foros multilaterais. Hoje, o Brasil é o principal parceiro do México na América Latina, mas o potencial
de nosso comércio é muito
grande. Em termos de convergências políticas, nosso objetivo é promover consensos regionais e avançar sobre temas como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a relação entre o México e o Mercosul.

Como as economias de Brasil e México podem se complementar?
As economias de Brasil e México representam cerca de 60% do
PIB latino-americano e em uma proporção similar as exportações
da região. Não obstante, o comércio bilateral entre as duas nações está muito abaixo de seu potencial. Estão faltando mecanismos
que potencializem nossa relação econômica bilateral. Nesta visita de Estado será assinado o Acordo de Complementação Econômica México-Brasil, com o qual se estabelece o acesso para pouco
mais de 800 produtos agropecuários e industriais e mais o
Acordo Automotivo, que incrementará o comércio de automóveis
e caminhões, principal ponto no intercâmbio comercial entre
México e Brasil.

Quais são os benefícios econômicos dos acordos e da integração das economias?
Em geral, os benefícios dos acordos se manifestam a médio e
longo prazos, como foi nossa experiência com o Nafta. Estou seguro de que, pouco a pouco, vamos ver um aumento do
comércio bilateral. Os investimentos também começarão a
adquirir uma dinâmica maior. Junto dos acordos que já mencionei, esperamos avançar nas negociações que permitam concluir,
num futuro próximo, um Acordo Marco com o Mercosul. O estabelecimento desses acordos induz à geração de mais e melhores empregos produtivos nas duas economias.

Como o sr. interpreta a crise de mercados financeiros na América do Sul?
O que vimos nos últimos dias é uma combinação, por um lado, de uma volatilidade gerada nos principais mercados financeiros internacionais e agravada pala revelação de práticas contábeis irregulares nos EUA. Por outro lado, há efeitos causados pela situação na Argentina, que teve reflexos nas expectativas dos investidores. Tudo isso originou pressões no câmbio e nas qualificações de risco dos países. Para evitar o agravamento da instabilidade dos mercados financeiros, nos cabe seguir aplicando em cada país uma política macroeconômica responsável. É preciso também reconhecer a necessidade de se dar uma solução à crise argentina. Seu prolongamento constitui uma fonte de instabilidade para toda a comunidade latino-americana, os mercados emergentes e o sistema financeiro internacional.

A queda recente do peso mexicano frente ao dólar é
um indicador de contágio por causa das situações da Argentina e do Brasil?
Como qualquer país, o México enfrenta uma turbulência financeira internacional cujos efeitos se refletem, principalmente, no câmbio e no risco país. Mas se perseverarmos na aplicação de uma política monetária e fiscal adequadas, poderemos passar com êxito por essa turbulência, como já ocorreu com a crise russa e a brasileira, em 1999. Ao mesmo tempo, não quero deixar de mencionar a relativa vantagem que o México possui hoje, por ter obtido todo o refinanciamento para a nossa dívida pública externa.

Como a recessão nos Estados Unidos afeta o México?
O México envia para os EUA quase 90% de suas exportações. Mas o dinamismo da economia de nosso principal sócio comercial foi reduzida, impactando a economia mexicana. Temos uma economia com menor ritmo de crescimento, mas com os aspectos econômicos fundamentais em perfeita ordem. Ao mesmo tempo, a pior fase do ciclo já passou. A economia americana retomará a sua força até o final do ano .

Qual a avaliação que o sr. faz da situação econômica brasileira?
A economia brasileira, como a mexicana, enfrenta os efeitos causados pela volatilidade dos mercados financeiros internacionais, mas se diferencia da mexicana por sua proximidade geográfica, econômica e comercial com a Argentina, o que a torna mais vulnerável que o México. Assim como o México, Brasil teve um menor ritmo de atividade econômica durante o ano passado, mas creio que as perspectivas a médio e longo prazo são positivas, desde que sigamos implementando políticas econômicas adequadas. Sem dúvida, existe relação entre a evolução econômica e o processo político, mas a maturidade que a vida democrática brasileira alcançou nos últimos anos e a solidez de seus fundamentos econômicos são uma garantia de que essa grande nação sairá fortalecida desse período de relativa turbulência.

Por que o México tem risco país de 300 pontos e
o Brasil de 1.600 pontos?
As qualificações de risco tanto do México como do Brasil estiveram sujeitas a flutuações nos últimos dias, aumentando com a recente volatilidade dos mercados financeiros. Certamente, apesar da alta do risco ter sido relativamente maior no caso do Brasil, desde antes já existia um diferencial entre as economias. Por outro lado, o México, como o Brasil, teve que enfrentar conjunturas pelas quais as condições internas chamam atenção dos investidores, refletindo na percepção de risco. Mas a longo prazo os esforços político-econômicos são sempre bem reconhecidos. Estou seguro de que o que hoje preocupa os investidores será somente uma lembrança no futuro, como foi o caso do México. A solidez fundamental de ambas economias será plenamente reconhecida pelos mercados.