Economia

O México na contramão do mundo

O candidato populista Andrés Manuel Obrador lidera a corrida presidencial mexicana, com um discurso nacionalista e antimercado

O México na contramão do mundo

Em maio do ano passado, o candidato centrista pró-europa, Emmanuel Macron, foi eleito presidente da França. Dois meses antes, na Holanda, o conservador Mark Rutte evitou que o candidato radical, Geert Wilders, saísse vencedor. Um movimento semelhante a esses aconteceu na Argentina em 2015, com a eleição do liberal Mauricio Macri. Os governos populistas entraram em xeque nos últimos anos, mas o México parece caminhar na contramão do mundo.

O nacionalista Andrés Manuel Obrador, do partido de esquerda Movimento Regeneração Nacional (Morena), aparece na primeira posição nas pesquisas, com 34% das intenções de voto. Ele lidera com um forte discurso anticorrupção, que tem atingido o atual governo de Henrique Peña Neto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI). “Nestas eleições, o voto vai ser contra a corrupção e o atual sistema político do México”, diz o consultor político mexicano, Efraín Martínez Figueroa. “A população está cansada, por isso Obrador segue na liderança.”

Disputa: a revelação de casos de corrupção tem beneficiado Obrador e prejudicado Anaya (foto) (Crédito:AFP Photo / Victor Cruz)

Obrador é ex-prefeito da Cidade do México e essa é a terceira vez que disputa a presidência. Ele tem um discurso nacionalista, protecionista e antimercado e já se posicionou contra os investimentos privados em setores administrados pelo Estado, como o de óleo e gás. Além disso, Obrador foi um crítico da reforma no setor de energia, ocorrida no fim de 2013, que privatizou boa parte das empresas elétricas. O candidado do Morena promete ainda conter a corrupção, restaurar a segurança (2017 foi o ano mais violento do México) e impulsionar os gastos com o bem-estar social.

Até agora, Obrador não se posicionou sobre as principais questões da política externa. Especialistas são unânimes em dizer que haverá enorme tensão diplomática entre México e Estados Unidos em caso de sua vitória. Um relatório da agência de classificação de risco S&P estima que a moeda mexicana pode ter uma depreciação anual de 9% em relação ao dólar entre 2018 e 2020 se as negociações do Nafta falharem. Isso levaria ao aumento da inflação e da taxas de juros e a uma perda de 0,6% do PIB de US$ 1 trilhão. “Trump e Obrador têm personalidades fortes e antagônicas”, diz Fernando Schüler, cientista político do Insper. “Uma tensão entre eles pode transbordar para um conflito comercial.”

Até as eleições em 1º de julho, José Antonio Meade, candidato do PRI, pode avançar na disputa, segundo estimativa da seguradora de crédito Coface. Meade é considerado o “candidato do investidor”. Ele deve ultrapassar Ricardo Anaya, do Partido Ação Nacional (Pan), que apare em segundo lugar na corrida eleitoral e está sendo acusado de corrupção em negócios imobiliários. Mas ainda faltam cinco meses para a população mexicana ir às urnas e decidir se o país se manterá na mesma direção ou se ficará na contramão do mundo.