Economia

O mercado comprou Bolsonaro

Euforia nos índices financeiros sugere risco menor de vitória de pauta não reformista e prevalência da “agenda Guedes” nas urnas. Falta detalhar o projeto econômico que será implementado a partir de janeiro

O mercado comprou Bolsonaro

O comportamento dos indicadores financeiros após o primeiro turno das eleições indica que o mercado acredita numa vitória do candidato Jair Bolsonaro (PSL), considerado mais reformista do que o adversário petista Fernando Haddad (PT). No dia seguinte à votação, o Ibovespa reagiu forte e subiu 4,57%, enquanto o dólar caiu 2,40%. A percepção de que a vantagem do capitão deve se confirmar no segundo turno também apareceu nas primeiras pesquisas de intenção de voto. No Datafolha divulgado na quarta-feira 10, Bolsonaro aparece com 58% dos votos válidos, contra 42% do petista. Para os investidores, o resultado das urnas sugere que o risco de vitória de projetos não reformistas foi amplamente minimizado e há espaço para que o País realize as mudanças necessárias para reverter o descontrole das contas públicas e entre numa rota de crescimento mais sustentado.

Com 46,03% dos votos no primeiro turno, o candidato do PSL larga na frente para a próxima etapa – ele só perdeu na região Nordeste e no Pará. Sua candidatura empolga o mercado porque tem por trás dela uma agenda liberal traçada pelo guru econômico Paulo Guedes, com um plano de privatizações amplo e medidas para reduzir o peso do Estado (leia mais na página 24). “O mercado entende que uma vitória de Bolsonaro representa a agenda de reformas”, afirma o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani. “A agenda dele tem a capacidade de manter a trajetória de recuperação econômica.” Padovani também destaca a mensagem das urnas sobre o Congresso, em que a renovação sugere um desejo de mudança da população, o que poderia ser canalizado pelo novo presidente num esforço conjunto para resolver o problema fiscal.

Posto Ipiranga: plano liberal traçado por Paulo Guedes, guru econômico de Bolsonaro, explica a preferência do mercado pela candidatura do PSL e justifica previsões mais otimistas para a Bolsa e o dólar

Se os investidores respaldam a vitória de Bolsonaro, em contraposição ao modelo intervencionista do PT, cobram a eliminação de dúvidas em relação às convicções pessoais do candidato. Para a maior parte dos analistas, falta deixar mais clara a agenda econômica, explicando detalhes das medidas, com um endosso mais enfático por parte do deputado. “Ele vai ter de vir a público dizer o que quer. A gente sabe muito pouco dele”, afirma André Perfeito, economista-chefe da Spinelli. “Ele é visto com bons olhos e cabe a ele se posicionar. O mercado vai ter uns seis meses de condescendência com o Bolsonaro.” A principal dúvida é avaliar como evoluíram as posições do passado em que o deputado defendeu intervenções estatais e pautas corporativistas. Essas convicções geram ruídos em temas como as privatizações e a reforma da Previdência. Ao expor suas restrições sobre a venda de ativos de geração de energia elétrica, Bolsonaro gerou mal estar no mercado. Em resposta às suas declarações, os papéis da Eletrobras caíram 9% na quarta-feira 10 e o Ibovespa fechou com queda de 2,8%.

Falta de clareza também é a máxima repetida por analistas quando o tema é a revisão das aposentadorias, considerada a principal das reformas para resolver o desafio fiscal. Enquanto o seu plano de governo apresenta uma proposta genérica de contas individuais pelo sistema de capitalização, somado a um fundo transitório, o candidato e seus assessores falam em cautela sobre o tema e rejeitam o texto proposto pelo atual governo. Na terça-feira 9, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), cotado para assumir a Casa Civil do governo Bolsonaro, afirmou que a reforma da Previdência não será tratada neste ano, como havia sugerido a equipe do presidente Michel Temer. “A maioria das pessoas que apoiam o Bolsonaro não é a favor da reforma que o Temer propôs, porque ela é uma porcaria.”

Ruído na mensagem: o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), cotado para a Casa Civil do governo Bolsonaro, descartou a hipótese de aprovação do texto da reforma da Previdência ainda neste ano

Uma agenda de reformas é considerada urgente pelos economistas diante da trajetória de crescimento da dívida pública. Sem revisões em gastos como a Previdência, a previsão é de manutenção do déficit e a persistência de um risco de calote. Nesse quadro, investidores enxergam uma possibilidade de que o País possa mergulhar em descontrole inflacionário e baixo crescimento, o que trava as decisões sobre novos projetos hoje. As mudanças no sistema de aposentadoria e a diminuição do gasto público são necessárias para elevar o nível de confiança de consumidores e empresários. O desafio esbarra na resistência política de enfrentar temas impopulares. Mesmo com uma base ampla de apoio no Congresso e um trabalho de quase dois anos, o governo Temer falhou em passar uma reforma previdenciária. “Há um desafio político muito grande. Os novos deputados entraram defendendo pautas corporativistas”, afirma Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos. “Temo uma dificuldade maior do que o mercado está enxergando.”

A renovação do Parlamento revela um alinhamento com a preferência do eleitorado pelas ideias de Bolsonaro. Seu partido, até então uma sigla discreta da cena política, conquistou a segunda maior bancada da Câmara. A onda conservadora que lhe rendeu a vantagem no primeiro turno explica também a expressiva votação de nomes como o da estreante Joice Hasselmann (PSL-SP), a segunda deputada mais votada do País, e de Major Olímpio (PSL-SP), que desbancou nomes tradicionais da política, como o de Eduardo Suplicy (PT-SP), na disputa pelo Senado. Os dois filhos do Bolsonaro também se elegeram com número elevado de votos, Eduardo, como deputado federal e Flávio, como senador. A nova configuração do Congresso deve dar ao capitão uma base de apoio com 255 deputados na Câmara, segundo estimativas feitas pela Arko Advice em estudo distribuído a clientes. No Senado, o ex-capitão teria o apoio de 37 nomes.

Onda conservadora: candidatos alinhados ao capitão tiveram votação expressiva. Da esquerda para a direita, Major Olímpio, Joice Hasselmann, do PSL, e os filhos de Bolsonaro, Eduardo e Flávio

Presidentes eleitos têm a vantagem inicial de levar o respaldo das urnas na negociação com o Congresso. Isso não significa desafio menor. Para aprovar emendas constitucionais como a do texto da Previdência apresentado por Temer, são necessários 49 votos no Senado e 308 na Câmara, em duas votações. “Ainda que o mercado esteja com algum otimismo, é preciso cautela”, afirma Bruno Lavieri, da 4E Consultoria. “Ele conseguiu uma bancada boa do partido, mas só isso, isoladamente, não resolve.” As previsões da consultoria expressam a ressalva em relação ao candidato. A expectativa é de que o PIB cresça cerca de 2% em 2019, número abaixo do cenário mais otimista traçado anteriormente, com a hipótese de uma eventual eleição de Geraldo Alckmin (PSDB-SP), em que o PIB poderia superar o patamar de 3% no próximo ano.

No mercado financeiro, as projeções majoritárias apontam para indicadores mais favoráveis com a candidatura de Bolsonaro, na comparação com o cenário de eleição de Haddad – o Ibovespa poderia superar a barreira dos 90 mil pontos (atualmente está próximo de 83 mil pontos) e o dólar ficaria cotado próximo de R$ 3,70 (leia mais aqui). “O mercado avalia que, para o desenvolvimento do País no longo prazo, o Bolsonaro, com um projeto liberal, é melhor”, afirma Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). “Eu entendo a posição do mercado, mas talvez haja um certo exagero” (leia entrevista abaixo). Em tempos tão voláteis como o período eleitoral, é difícil saber o quanto há de exagero especulativo e o quanto há de fundamento. Ajudaria se o próprio candidato considerado favorito ajudasse a esclarecer suas ideias.


“Não sabemos nada a respeito da candidatura do Bolsonaro”

Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), conversou com a DINHEIRO:

O senhor traz uma visão mais pessimista sobre a renovação do Congresso. Por quê?
O atual Congresso tinha passado por um processo de aprendizado e de entendimento da nossa situação. Estava mais pronto para tocar a pauta de reformas. A renovação me preocupa porque é o Congresso da Lava-Jato, com vários policiais militares, operadores da Justiça, militares, pastores da igreja evangélica… Tem uma pauta mais associada a costumes e violência. É muito refratário aos nossos problemas econômicos. Se nós, como sociedade, não conseguirmos resolver o problema fiscal, todo o resto não vai.

A eleição aconteceu em meio ao descontrole fiscal, ao contrário de 2014. O tema já não era para estar maduro?
Sim, mas esse tema não apareceu na campanha. Os candidatos foram muito gerais e não apresentaram sentido de urgência.

Quais riscos o senhor vê numa possível eleição do Bolsonaro?
Não está claro em que medida a equipe econômica e o candidato sentem o problema. O que a equipe falou até agora foi de privatizar um monte de coisas. Privatizar não resolve o problema fiscal nem de longe. Não sabemos nada a respeito da candidatura do Bolsonaro.

É um exagero do mercado essa resposta positiva pós primeiro turno?
O mercado avalia que, para o desenvolvimento do País no longo prazo, o Bolsonaro, com um projeto mais liberal, é melhor. Eu tendo a concordar que do ponto de vista econômico o PT é uma coisa muito velha. Não elaborou bem os desequilíbrios da nossa sociedade e deixou uma casa muito desarrumada. Eu entendo a posição do mercado, mas talvez haja um certo exagero porque a outra candidatura tem sido muito pouco específica sobre o que pensa em fazer para resolver o nosso dilema.