O mar está para peixe

Depois de uma série de reviravoltas, a plataforma de e-commerce Peixe Urbano ajusta a sua operação no País e enxerga um cenário favorável para uma nova etapa de crescimento

O mar está para peixe

Ilson Bressan, ceo do Peixe Urbano: “Fizemos a lição de casa e estamos em um momento muito favorável para levar a empresa a um novo patamar”

Não foram poucas as mudanças de rumo do Peixe Urbano desde a sua fundação, em 2010. Na época, o ecossistema de startups ainda engatinhava no Brasil. E a novata nadava de braçada como a única expoente local dos sites de compras coletivas. Essa calmaria, no entanto, foi abalada com criação de centenas de rivais e a chegada ao País do americano Groupon, pioneiro desse segmento. A onda trouxe diversos problemas junto aos consumidores, o que colocou o modelo em xeque. Um dos poucos sobreviventes desse turbilhão, o Peixe Urbano foi comprado pelo chinês Baidu, em 2014, por modestos R$ 10 milhões. No fim de 2017, a empresa foi novamente vendida, desta vez para o fundo Mountain Nazca, que havia adquirido os negócios do Groupon na América Latina, meses antes. Agora, ao que tudo indica, os tempos de reviravolta são águas passadas. “Fizemos a nossa lição de casa e estamos em um momento muito favorável para levar a empresa a um novo patamar”, diz Ilson Bressan, novo CEO da companhia. “Hoje, o mar está muito mais pra peixe”, brinca. Ele substitui Alex Tabor, um dos fundadores do Peixe Urbano, que seguirá como um conselheiro informal na operação.

Na companhia desde 2011, Bressan é o primeiro CEO do Peixe Urbano que não é cofundador da startup. Em sua última posição, o executivo atuava como vice-presidente comercial para a América Latina. Seu otimismo com a nova fase se explica. Depois das reviravoltas, a empresa cumpriu no ano passado boa parte do que ele chama de lição de casa. Os ajustes no modelo se consolidaram no período. Além de descontos menos agressivos nos cupons utilizados em restaurantes, bares, shows e afins, a estratégia deixou de atrelar as ofertas a um número mínimo de compradores. Ao mesmo tempo, novas categorias ganharam força, entre elas, viagens, estética e produtos. Essa última vertente engloba, por exemplo, itens como eletrônicos, moda e eletrodomésticos.

Por perto: o ex-CEO e Alex Tabor segue como conselheiro informal da empresa

A integração com o Groupon no Brasil e na América Latina foi outra iniciativa importante nesse intervalo. No processo, a empresa conseguiu reduzir custos em diversas frentes. Um dos exemplos foi a área de suporte ao cliente, que passou a ser internalizada em todos os países (Argentina, Chile, Peru, México e Colômbia), assim como já acontecia no País. Com a medida, o grupo obteve uma economia de 30% no departamento. O próximo passo é a unificação dos negócios sob a marca Peixe Urbano. Hoje, ela coexiste com o Groupon no mercado local. Nos demais países da região, a “sócia” ainda é a bandeira para os consumidores. A expectativa é de que essa estratégia seja concluída num prazo de dois anos.

ENGAJAMENTO Com a operação ajustada e sob novo comando, o Peixe Urbano já elegeu suas prioridades. Um dos focos é ampliar a base de consumidores cadastrados e o engajamento dessas pessoas na plataforma. Atualmente, são 31,5 milhões de usuários no Brasil e outros 20,5 milhões na América Latina. Além das categorias de gastronomia e entretenimento, que respondem por cerca de 55% das vendas, o aumento das ofertas disponíveis no segmento de viagens é um dos planos para crescer esse bolo. O desenvolvimento de funções que aprimorem a experiência dos clientes é mais uma frente. Um exemplo simples no radar é a possibilidade de o consumidor não apenas usar o cupom de descontos em um restaurante, mas também, pagar a conta no estabelecimento por meio do aplicativo da empresa. A participação elevada das vendas via dispositivos móveis no Brasil, de 75% das vendas totais, é, por sua vez, um dos pontos que será exportado para as demais operações, nas quais esse índice ainda é de apenas 25%.

Em outra ponta, o Peixe Urbano quer ampliar sua presença na sua base de parceiros, cujo número total não é revelado. Em 2017, o número de ofertas cresceu 38% no Brasil e 17% na América Latina. “Precisamos nos conectar com os sistemas de retaguarda dos nossos parceiros”, diz Bressan. “Em viagens, por exemplo, isso nos daria condições de saber, em tempo real, as promoções disponíveis para um determinado tipo de acomodação, em um determinado período do ano.” Para Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), passada a “tempestade”, o Peixe Urbano tem perspectivas positivas para encontrar uma nova rota de crescimento. O ponto de partida são seus bons ativos, como uma marca forte e uma base considerável de usuários. Ele entende que o modelo de marketplaces, a mais forte tendência do comércio eletrônico, é uma via bastante favorável. “Enquanto em produtos, isso já é uma tônica, ainda não há nenhum nome dominante em serviços”, afirma Terra. “Há muitos marketplaces de nicho em gastronomia, por exemplo. Mas nenhum com uma oferta mais ampla em termos de categorias como o Peixe Urbano está construindo.”