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Entrevista

John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas

O maior problema do Brasil é o custo alto. A prioridade do governo deveria ser reduzi-lo

Marcos Alves / Agencia O Globo

O maior problema do Brasil é o custo alto. A prioridade do governo deveria ser reduzi-lo

Com 10 anos de operação e voando para 105 cidades, a Azul atinge faturamento de R$ 7 bilhões, é eleita a melhor aérea da América Latina e faz um acordo para comprar a Avianca. Otimista com o País, o CEO John Rodgerson diz que seu foco é crescer no mercado doméstico

Valéria Bretas
Edição 15/03/2019 - nº 1112

Desde que a Azul foi fundada, em 2008, a companhia não tem economizado esforços para diversificar a frota de aeronaves e ampliar sua presença pelo país. Hoje, a empresa está em mais de 105 cidades e pretende abrir operações em até 10 novos municípios por ano a partir de agora. Nesta entrevista à DINHEIRO, o CEO, John Rodgerson, fala sobre a proposta de adquirir parte da Avianca, se diz otimista com a agenda econômica do governo mas critica a falta de medidas para reduzir os custos de combustíveis e incentivar o crescimento do mercado interno. Ele também faz críticas à medida que libera 100% do capital estrangeiro para as aéreas nacionais.

DINHEIRO – O CEO global da Azul, David Neeleman, afirmou que seu objetivo é construir a maior companhia área do Brasil. O que vocês estão planejando para atingir nesse patamar?

RODGERSON – O nosso foco é ser a melhor. O David sempre falou que nós só poderemos ser a maior se formos a melhor. Se você olhar alguns indicadores é possível dizer que nós já somos a maior. Nós temos mais aeronaves do que qualquer outra companhia aérea, mais trechos e mais voos diários. Os nossos concorrentes focam muito no triângulo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, mas se esquecem que o Brasil é um muito grande e com muitas oportunidades, como são os casos das regiões Centro-Oeste e Nordeste.

DINHEIRO – Vocês anunciaram interesse em comprar a Avianca. Como está essa negociação?

RODGERSON – Assinamos um acordo de US$ 105 milhões para comprar uma nova empresa que incluirá alguns recursos da Avianca Brasil. Nossa expectativa é poder adquirir cerca de 30 Airbus A320, 70 pares de slots e o Certificado de Operador Aéreo da empresa. Estou animado com este potencial de investimento, que poderá fortalecer ainda mais nossa malha e presença no Brasil. No entanto, isso não altera nossos planos orgânicos de crescimento.

“Azul e os Correios têm, juntas, uma solução que pode ser muito importante para o Brasil”A companhia aérea e a estatal fecharam uma joint venture que vai criar uma nova marca para transportar encomendas pelo País (Crédito:Lucas Lacaz Ruiz/Pagos)

DINHEIRO — No ano passado a companhia investiu cerca de R$ 2 bilhões só em aeronaves. Qual foi o impacto dessa compra para os resultados de 2018?

RODGERSON – Esse tipo de investimento é de longo prazo. Quando a gente compra a aeronave, o resultado vem ao longo de 12 a 15 anos. Tem a saída de caixa no inicio, mas logo depois o investimento torna o avião mais rentável porque ele queima menos combustível e tem mais acentos. Nós trabalhamos com uma visão de longo prazo e acho que isso mostra que somos superotimistas em relação ao Brasil.

DINHEIRO – Quais os planos de investimento para 2019?

RODGERSON – A gente quer abrir mais ou menos cinco cidades neste ano. Vamos receber uma série de aeronaves em 2019 e nos preparar para lançar o primeiro Embraer E2 em julho, que vai ser um momento muito marcante para Azul.

DINHEIRO – Em 10 anos, a Azul conquistou o título de melhor companhia aérea da América Latina. O que vocês fizeram para superar a concorrência?

RODGERSON – O segredo do sucesso da Azul está nas nossas pessoas. Quando abrimos uma vaga, recebemos mais de 200 mil currículos e podemos escolher o melhor dos melhores. Mas é evidente que, desde o início, enfrentamos grandes desafios, como variação do dólar, preço do combustível, eleições, greves e a chegada de novas aeronaves. Há sempre muita coisa acontecendo, mas a visão é clara: vamos cuidar bem uns dos outros e bem dos nossos clientes. E é por esse motivo que estamos hoje em 105 cidades brasileiras e o nosso principal concorrente está em apenas 53. Estamos abrindo rotas em cidades que nunca tiveram aviação antes e isso ajuda o mercado a crescer.

DINHEIRO – A Azul está ampliando as rotas para fora do Brasil. Houve uma mudança de estratégia?

RODGERSON – Nada mudou. Os primeiros dez anos foram focados em construir a fundação, a malha viária e os tipos de aeronaves. O foco agora é abrir operação em até dez novas cidades por ano. Vou te dar um exemplo: muitos brasileiros já viajaram para os Estados Unidos, mas não conhecem outros estados do próprio País. Se nós estamos com rotas em outros lugares é porque estamos onde o nosso cliente quer chegar. O nosso foco ainda é no mercado doméstico.

DINHEIRO – Então ainda há espaço para crescer no mercado doméstico?

RODGERSON – Há muito espaço para crescimento e nós vamos dobrar de tamanho já nos próximos cinco anos. Estamos muito animados com o futuro.

DINHEIRO — E qual seria o principal desafio hoje para continuar crescendo e abrir novos trechos aéreos?

RODGERSON – Nosso maior desafio é a situação macro. Eu confio muito no que nós já estamos fazendo, mas sofremos muito com a variação do dólar. Para melhorar, o governo precisa aprovar a Reforma da Previdência, que será de suma importância para trazer confiança e fazer as pessoas investirem. Eu estou muito otimista. Nós passamos por muitos dias de chuva na última década e estamos prontos para ter um algum sol por um bom período agora.

DINHEIRO – Pensando na agenda econômica de Paulo Guedes, de que forma você acha que ela pode impactar nos negócios?

RODGERSON – Estou gostando muito de tudo o que eu estou ouvindo. Acredito que o Estado tem que ter uma participação menor e deixar o setor privado crescer. Muitas coisas já foram faladas e eu estou esperando que elas aconteçam de verdade. O brasileiro ainda viaja menos do que o mexicano ou o chileno, por exemplo, e isso precisa ser corrigido. O Brasil é um país muito grande e com muito potencial.

DINHEIRO – Como a abertura do mercado para investidores estrangeiros pode influenciar o mercado e a Azul?

RODGERSON – Nós temos sido contra essa medida porque isso não corrige os problemas que o Brasil tem. O maior problema por aqui é o custo alto e essa deveria ser a prioridade do governo. Abrir o mercado e trazer uma nova companhia aérea para o País não muda o fato de que essa empresa vai ter que pagar os mesmos impostos. Acredito que essa nova gestão deveria focar em baixar os custos e deixar o mercado interno crescer por si.

DINHEIRO — Qual é o seu maior custo operacional hoje?

RODGERSON – Em primeiro lugar, combustível. Em segundo, a aquisição de aeronaves e, depois, a equipe. Para driblar esses custos, nós renovamos a frota com aeronaves que queimam 15% a menos de combustível. Vai ser muito mais fácil ter eficiência a partir de agora.

“Ainda há muito espaço para crescer e nós vamos dobrar de tamanho em 5 anos”Mesmo com a ampliação das rotas para fora do Brasil, o foco da operação da companhia ainda é no mercado doméstico (Crédito:Helvio Romero)

DINHEIRO — As dificuldades financeiras do aeroporto de Viracopos, principal hub da Azul, ameaçam as operações da empresa?

RODGERSON – Não. É importante lembrar que Viracopos foi eleito pelos clientes o melhor aeroporto do Brasil no ano passado. Espero que esse processo de recuperação judicial se resolva logo para que seja possível ter uma visão mais clara de futuro. Viracopos é um aeroporto internacional e não acredito que o governo vá deixá-lo cair.

DINHEIRO — A Azul tem interesse em participar da administração de terminais aéreos?

RODGERSON – Temos interesse em estudar essa possibilidade. Por ora, o nosso capital está focado em crescer, comprar aeronaves e investir.

DINHEIRO — Como vai funcionar a parceria entre a Azul e os Correios?

RODGERSON – Nós vamos fazer um joint venture que vai funcionar por meio de uma marca nova que levará todas as cargas aéreas deles. Um grande problema que o Brasil tem é de logística. Eu acho que a Azul e os Correios têm, juntas, uma solução que pode ser muito importante para o Brasil, para o e-commerce e o futuro.

DINHEIRO – Como começaram as negociações?

RODGERSON – Há mais ou menos dois anos, os Correios nos procuraram porque queriam reduzir custos. Acho que eles olharam para nós com certa inveja da nossa malha área, já que estamos em mais de 100 cidades. Naquele momento, oferecemos uma solução logística que pudesse reduzir o custo deles de 20% a 30% e eles se apaixonaram por essa possibilidade. Mais do que uma redução nos custos, eles resolveram dividir o lucro dessa nova empresa. A Azul vai ter 51% da companhia e os Correios, 49%.

DINHEIRO – Como você avalia o pedido das concorrentes de tentar barrar essa joint venture no Cade?

RODGERSON – Eles tentam travar porque têm medo, mas faz parte do jogo. Assim como aconteceu com os Correios, que construíram uma rede ao longo dos últimos 100 anos, nós também crescemos muito nessa última década e, por esse motivo, acho que podemos aproveitar o que eles construíram com o que nós temos.

DINHEIRO – Como está a adesão do programa de milhagem Tudo Azul? Qual a importância dele nas receitas?

RODGERSON – O programa Tudo Azul foi avaliado como o melhor do mercado. Nós temos cerca de 12 milhões de pessoas nele. São pessoas que viajam muito conosco, que são membros do nosso clube, que tem nosso cartão de crédito e que, de fato, representam uma receita super importante. Nós não divulgamos o valor do faturamento, pois ele vem de muitas formas: na transferência de pontos, nas viagens e na compra e venda de pontos. A grande vantagem que temos é que nós temos tudo isso dentro de casa.

DINHEIRO – Quais foram as mudanças necessárias ao longo dos anos para fazer o programa decolar?

RODGERSON – No início, tentamos contato com grandes empresas parceiras, como Walmart e Petrobras, e elas achavam que éramos pequenos. Mas a cada ano registramos crescimento de 15% a 20%. Agora eles entendem o poder da marca Azul.

DINHEIRO – A venda ou a abertura de capital do programa é uma possibilidade no radar?

RODGERSON – Não, nunca. O mercado está indo em outra direção, como é o caso da Gol, que se arrependeu de fazer isso e tenta voltar atrás.


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