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O maior IPO do Brasil?

Com bons resultados financeiros e foco em sustentabilidade, a Raízen, joint venture de Cosan e Shell, desperta o interesse dos investidores e pode movimentar R$ 13 bilhões em sua abertura de capital.

Crédito: Christian Tragni

A Raízen protocolou um pedido de oferta pública inicial de ações na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que vai testar o apetite dos investidores por empresas ligadas ao agronegócio. De quebra, pode se tornar o maior IPO do Brasil. Analistas apontam que a captação de recursos deve ficar entre R$ 10 bilhões e R$ 13 bilhões, números suficientes para colocar a abertura entre as quatro maiores da história da B3. O maior IPO, até agora, foi o do Santander, que movimentou R$ 13,1 bilhões em 2009. BB Seguridade, em 2013, e Rede D’Or, no ano passado, captaram R$ 11,4 bilhões cada.

A operação envolve a venda de ações preferenciais da companhia e será coordenada por um consórcio de 12 bancos, liderado pelo BTG Pactual, Citi Group, Bank of America e o Credit Suisse. Bradesco BBI, XP, Safra e JPMorgan são algumas das outras instituições que participam.

A empolgação do mercado é explicada em parte pelos resultados da companhia. A Raízen, joint venture formada pela Cosan, empresa de energia de Rubens Ometto, e a rede de postos de abastecimento anglo-holandesa Shell, é uma das maiores empresas do Brasil. Em 2020, excluindo os bancos, ficou atrás apenas de Petrobras, JBS e Vale. No ano fiscal encerrado em 31 de março, a Raízen reportou uma receita líquida de R$ 114,6 bilhões (queda de 5% em relação ao ano anterior). O lucro líquido, de R$ 1,5 bilhão, teve um recuo maior, de 35,4%, causado principalmente pela queda nas vendas de combustíveis para aviação.

Para o analista da Inversa Flávio Conde, “o fato de ser um dos maiores IPOs atualmente mostra que o mercado continua receptivo a empresas grandes e boas”. Para ele, é importante para o Brasil ter mais uma empresa no setor de distribuição e produção de combustíveis. “Hoje, a única alternativa é a BR Distribuidora”.

ESTRAT ÉGIA Sucesso da abertura de capital da Raíz pode levar Rubens Ometto a listar as outras empresas que controla, como a Compass, dona da Comgás. (Crédito:Divulgação)

A Raízen é a maior produtora de etanol do Brasil e a maior fornecedora de açúcar do planeta. Suas 26 usinas podem moer até 73 milhões de toneladas de cana por ano. Com os recursos captados no IPO, a empresa quer construir novas plantas e investir em eficiência. Dependendo do sucesso, a estratégia de Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração do Grupo Cosan, é listar na B3 as outras empresas que controla, como a Compass (dona da Comgás) e a Movee, de lubrificantes.

Para o mercado, pesa também o posicionamento da Raízen em relação à sustentabilidade. “A pegada de ESG é muito clara na Raízen. Isso será visto pelos investidores, principalmente os estrangeiros, que não têm tantas opções no Brasil de empresas realmente fortes no ESG (ambiental, social e governança)”, afirmou Conde. Em sua visão, o diferencial da empresa é justamente o foco em energia renovável. “Muitas empresas estão conseguindo virar a chave em governança e questões sociais. O ambiental é mais difícil”, disse o analista. Por isso, o papel dos investidores estrangeiros será maior que o visto até agora em outros IPOs. “Os bancos estão apresentando a empresa para investidores dos Estados Unidos, Japão e Oriente Médio.”

REFLEXOS Dependendo do resultado da operação da Raízen, o agro brasileiro, pouco representado na bolsa, pode ganhar força no mercado de capitais. Em fevereiro, a Jalles Machado, que também atua no setor sucroenergético, fez o primeiro IPO do agro na B3 desde 2013. Movimentou R$ 741,5 milhões. Embora mais modesta, a oferta foi considerada um sucesso. “A ação está trilhando bem. É um indicativo do desenvolvimento do próprio setor de capitais brasileiro”, disse Pedro Freitas, head de consumo, varejo e agronegócios do banco de investimentos da XP. Além da Jalles Machado, a Boa Safra Sementes também abriu o capital em no início do ano (abril), com movimento de R$ 460 milhões. Ambas mantiveram os planos mesmo com uma precificação abaixo da expectativa inicial. Outras empresas, como a plataforma de varejo de insumos AgroGalaxy e a Vittia Fertilizantes, adiaram os planos de IPO.

Apesar dos recuos, essa movimentação tem ajudado investidores a se familiarizar com o agro. Segundo Freitas, além de ser complexo e com certa volatilidade, o setor tem poucas opções na B3 e fica “muito distante da Faria Lima”. Por isso, é preciso trabalhar os IPOs do agro de forma diferente, levando os investidores ao campo. A Raízen poderá mudar essa história.