Edição nº 1075 22.06 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Antonio Delfim Netto, economista

“O Lula tem de ser vencido na urna para deixar claro que ele representa a minoria”

Gabriel Reis

“O Lula tem de ser vencido na urna para deixar claro que ele representa a minoria”

Luís Artur Nogueira
Edição 01/09/2017 - nº 1034

Sempre que está em São Paulo, o presidente Michel Temer tenta abrir um espaço na agenda para trocar ideias com um dos seus conselheiros preferidos, o economista Antonio Delfim Netto. Aos 89 anos, o ex-ministro da Fazenda continua cumprindo uma agenda atribulada, que inclui palestras, consultorias e reuniões em seu escritório, num casarão ao lado do estádio do Pacaembu, em São Paulo. “Se o presidente me chama para filar boia, eu não recuso”, brinca Delfim Netto, após conceder entrevista à DINHEIRO, na segunda-feira 28. O ex-ministro aprova o programa de privatizações do governo Temer, incluindo a Eletrobras. Ele discorda de quem considera que o plano fiscal do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, falhou e avalia que os eleitores terão de decidir, em 2018, qual rumo o País tomará. “O Brasil quer ser medíocre? Então tem de ser medíocre até aprender a votar direito”, afirma Delfim Netto. Para ele, o Brasil ficará ingovernável se o ex-presidente Lula for impedido pela Justiça de disputar as eleições. “O Lula tem de ser vencido nas urnas”, diz ele.

DINHEIRO – O que o sr. achou do anúncio da privatização da Eletrobras?

ANTONIO DELFIM NETTO – Não há outra alternativa. É um erro imaginar que qualquer empresa estatal tem de ser necessariamente inferior a uma empresa privada. O problema é que uma empresa estatal sempre tem interferência política, o que reduz a sua eficiência. Para funcionar bem, a empresa estatal exige uma burocracia ascética, honesta, competente, o que é impossível num presidencialismo de coalização. A Eletrobras estava mal das pernas e a MP 579, que mudou as regras do mercado elétrico, no governo Dilma Rousseff, acabou destruindo tudo.

DINHEIRO – A propósito, a ex-presidente Dilma Rousseff criticou o anúncio da privatização…

DELFIM NETTO – Pior é que ela ainda está falando. De qualquer forma, eu acho que foi uma medida correta. É preciso enxugar o Estado para que o Estado se dedique aos temas fundamentais, como saúde, educação, segurança. Tudo isso não cabe mais dentro do Estado.

DINHEIRO – O plano contém 57 ativos. Não é um exagero?

DELFIM NETTO – É preciso tomar muito cuidado. Eu achei muito grande o plano, mas é uma boa indicação. O que não pode é usar os recursos das privatizações para pagar salário do funcionalismo. É preciso rapidamente dar eficiência para as agências reguladoras e apresentar projetos factíveis. Não dá para ter regras mais ou menos estabelecidas. Tem de apresentar o projeto completo. Não sabemos direito como será a modelagem da Eletrobras. Há dúvidas muito sérias sobre se não é preciso uma lei para permitir que o Estado fique com menos de 50% da empresa. Mas tudo isso será resolvido. Só um governo com muito pouca aprovação teria a coragem de fazer o que o Temer fez. O Temer, na verdade, mexeu num ninho de cobras. A quem pertencem, na prática, as estatais? Aos políticos desonestos.

DINHEIRO – A nova lei das estatais vai melhorar a gestão?

DELFIM NETTO – Deve melhorar, mas, até agora, a lei não foi seguida. O Temer foi muito corajoso, pois vai enfrentar os políticos, o funcionalismo das estatais e os seus sindicatos, que estão acostumados a beber o leitinho morno das estatais. A sociedade será obrigada a discutir se quer ou não quer. Isso é muito bom. Na eleição de 2018, o Brasil vai ter de decidir o que quer ser: um país vagabundo ou um país com condições de crescer.

DINHEIRO – O sr. acha que haverá espaço para debater outras privatizações como Petrobras e Banco do Brasil?

DELFIM NETTO – Não. A Petrobras está sob uma intervenção muito boa. O que mostra que quando há um administrador asceta e honesto, a estatal pode até competir com o setor privado. Só que isso é uma grande raridade. Pedro Parente [presidente da Petrobras] é uma espécie raríssima.

DINHEIRO – E o Banco do Brasil?

DELFIM NETTO – O Banco do Brasil é uma instituição que se preza. O banco tem um espírito próprio. É, na minha opinião, um dos mais poderosos instrumentos da administração federal. Seria um equívoco mortal entregar o Banco do Brasil ao setor privado. O Banco do Brasil tem um filtro interno. As pessoas se formam lá dentro.

DINHEIRO – Mas o ex-presidente Aldemir Bendini está enrolado com a Lava Jato…

DELFIM NETTO – Talvez seja a exceção que confirma a regra. Se o presidente Temer conseguir privatizar a Eletrobras, já será uma grande conquista. Mesmo que não consiga tocar o pacote inteiro, já deixará os projetos em marcha. Quem vai julgar tudo isso é o próximo presidente da República. Uma coisa é bem clara. Repetir a política econômica anterior não vai funcionar.

DINHEIRO – O sr. sempre diz que a urna corrige os erros. Há algum risco de a urna, em 2018, voltar ao passado?

DELFIM NETTO – Sim, mas por que a democracia é o melhor regime? Porque é por tentativa e erro. Nós erramos brutalmente, mas nada garante que não voltaremos a errar, até que as pessoas aprendam que estão erradas. Daí conserta de novo. Não sabemos como será a eleição.

DINHEIRO – O PT, com ou sem Lula, deve defender uma agenda contra a privatização, certo?

DELFIM NETTO – Verdade. Mas o Lula não pode ser impedido no tapetão. O Lula, na minha opinião, tem de ser vencido nas urnas. Ou ganhar nas urnas. Não cabe um truque jurídico. Se ele fosse condenado de verdade, em última instância, no STF, tudo bem. Queira ou não queira, o Lula tem 30% do Brasil. Se o Lula não puder perder na eleição, disputando, nenhum governo vai administrar o Brasil. Eles (a esquerda) são 15% do Congresso e o Congresso não anda.

Wilson Ferreira Jr., presidente da Eletrobras, e o ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, anunciam a privatização (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress )

DINHEIRO – Qual Lula será candidato? O Lula radical de esquerda ou o Lula pragmático de 2002?

DELFIM NETTO – O Lula tem uma inteligência privilegiada. Ninguém sabe qual Lula será candidato, mas isso é irrelevante. Se ele for contra as privatizações e ganhar, acabou. O Brasil quer ser medíocre? Então tem de ser medíocre até aprender a votar direito.

DINHEIRO – E quem será o anti-Lula? É o Geraldo Alckmin? O João Doria? O Henrique Meirelles?

DELFIM NETTO – É muito pouco provável que alguém saiba alguma coisa agora. A única coisa que eu digo é que se o Lula for condenado em segunda instância e virar ficha suja, é tapetão. Ganhar do Lula no tapetão significa perder mais quatro anos. O Lula tem de ser vencido na urna para deixar claro que ele representa a minoria. Não tem saída para voltar a administrar o País.

DINHEIRO – Os adversários do Lula terão coragem de defender uma reforma da Previdência Social?

DELFIM NETTO – Se não defenderem também, não vão se eleger. Não vão ter nem os nossos votos. Chega de uma bobagem como essa. No fundo, um dos maiores erros do PSDB foi esconder o que o Fernando Henrique tinha feito. O PSDB é de um oportunismo assustador. Perdeu a eleição porque escondeu tudo o que o Fernando Henrique tinha feito. É muito difícil imaginar que a privatização possa causar algum prejuízo. A privatização só melhora para o consumidor. A privatização é um risco para o político, o funcionalismo e os sindicatos poderosos. Foi construída uma casta, uma elite, que não sofre nenhum controle social. Essa elite se apropriou do Brasil. Essa é a verdade.

DINHEIRO – Essa elite é contra a reforma da Previdência…

DELFIM NETTO – Sim, essa elite impediu a reforma da Previdência. Uma boa parte dessa confusão foi produto dessa casta que se apropriou do poder. E ninguém consegue convencer o sujeito que ganha até três salários mínimos de que não muda nada para ele.

DINHEIRO – Não consegue convencer ou o governo se comunica mal?

DELFIM NETTO – Bom, se não consegue convencer é porque está se comunicando mal. Eu acredito que o governo é o portador da verdade nesse assunto, mas os sindicatos manipulam as redes de comunicação. O trabalhador do setor privado financia tudo isso e não percebe. Quem sustenta essa casta, essa elite que se apropriou do poder, é o trabalhador privado. Ele que é explorado. Ou seja, será preciso um candidato que tenha a coragem de ir à televisão e dizer “não vote em mim”. “Se você votar em mim, eu vou fazer tudo isso que é bom para o Brasil.”

DINHEIRO – É uma ação ousada de marketing, não?

DELFIM NETTO – Na Alemanha, funcionou. Mas lá tem alemão.

DINHEIRO – O prefeito João Doria é esse nome?

DELFIM NETTO – Não sei.

Agência do BB, considerado por Delfim “um dos mais poderosos instrumentos da administração federal” (Crédito:Masao Goto Filho / Ag. IstoÉ)

DINHEIRO – Ele é político ou empresário?

DELFIM NETTO – Ele é esperto, trabalhador e tem ideias muito razoáveis. Mas é preciso ter uma estrutura partidária para viabilizar um governo e formar uma maioria com 12 partidos. Nenhum sistema que precise de mais do que três partidos para formar uma maioria sólida funciona.

DINHEIRO – Vai sair a reforma política?

DELFIM NETTO – Essa é a pior coisa que está acontecendo. No fundo, de onde não se espera nada é que não sai nada mesmo. Gastou-se um ano de conversa, mentindo que estavam fazendo estudos profundos. Que nada! E já tinham na cabeça o que queriam fazer, com medidas infantis para se vingar do Supremo Tribunal Federal. O Brasil se infantilizou. Eu fico preocupado com isso. Os três Poderes, que deveriam ser harmônicos e independentes, não são nem uma coisa nem outra.

DINHEIRO – Na campanha eleitoral, é melhor o financiamento público ou o privado?

DELFIM NETTO – Na minha opinião, não há nenhuma razão para impedir o financiamento privado. Essa ideia de que a empresa não é uma pessoa e, portanto, não vota é uma tolice enorme. Se eu sou o dono de uma empresa e quero manifestar o meu apoio político, eu vou contribuir. Tem de haver um controle rígido, só pode ser um percentual do lucro ou do faturamento declarado no Imposto de Renda. E só pode fazer doação para um partido. É claro que é preciso proibir a doação de empresas que têm contrato com o governo. No Brasil, o que aconteceu foi um incesto, com o poder econômico se apropriando do Congresso.

DINHEIRO – O sr. é contra a criação de um fundo eleitoral com recursos públicos?

DELFIM NETTO – Eu criaria o fundo eleitoral com as verbas das emendas parlamentares. Eles têm um orçamento de R$ 10 bilhões. É só tirar o dinheiro desse montante.

DINHEIRO – O governo Temer aprovou a PEC dos gastos públicos e a reforma trabalhista. Há força política no Congresso para aprovar a reforma da Previdência Social sem desidratar o projeto?

DELFIM NETTO – Vai desidratar, sim. O mínimo que ele (presidente Temer) conseguir aprovar não será para ele. Será para o próximo governo. Não tenhamos ilusão. Se ele não conseguir, o próximo presidente, seja ele quem for, vai ter de fazer a reforma. É uma questão de aritmética. Não é uma questão ideológica.

DINHEIRO – Podemos afirmar que o ajuste fiscal do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deu errado?

DELFIM NETTO – De jeito nenhum.

DINHEIRO – Mas a arrecadação não cresce e a despesa não cai…

DELFIM NETTO – Houve uma barbeiragem na estimativa da receita. As despesas obrigatórias também cresceram, mas o efeito nas receitas é muito importante. O plano do Meirelles não falhou. A coisa é complicada mesmo. Tudo o que eles têm dito está na linha correta. Vamos ter de enfrentar esse problema. Não vai resolver com conversa mole.

DINHEIRO – É inevitável aumentar impostos?

DELFIM NETTO – Eu não diria que é inevitável porque, na minha opinião, é muito ruim usar aumento de imposto para pagar salário do funcionalismo. É muito simples. O dinheiro na minha mão, na mão do setor privado, será usado melhor que na mão do governo. O aumento de imposto é deletério para o crescimento, pois derruba o investimento privado.

DINHEIRO – Neste momento, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o maior risco internacional?

DELFIM NETTO – Depois de muitos anos, é a primeira vez em que há uma sincronização de todas as economias do mundo. É inacreditável, mas o Brasil é a única exceção. Todas as economias estão em expansão. O presidente Trump é um caso de junta médica.


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