Entrevista

Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES

O Lula não ganha a eleição

Gabriel Reis

O Lula não ganha a eleição

Luís Artur Nogueira
Edição 21/12/2017 - nº 1050

Visão otimista e língua afiada são duas características do economista e engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros, um tucano de carteirinha. Foi um dos primeiros analistas a projetar a retomada do crescimento econômico em 2017, enquanto a maioria ainda desconfiava do governo Temer. Aos 75 anos, ele investe no setor de veículos pesados e preside o Conselho da Foton Brasil, uma marca chinesa de caminhões. Após anos de sucesso no mercado financeiro, Mendonção, como é conhecido no meio político e empresarial, ficou assustado com a forte retração do setor automotivo.

“Sofri muito. Foi um período muito difícil”, diz à DINHEIRO. “O setor de caminhões desabou e os juros subiram.” Agora, diante de um cenário de recuperação econômica, o ex-presidente do BNDES (1995 a 1998) e ex-ministro das Comunicações (1998) no governo FHC aposta em dias melhores para o Brasil, embora coloque uma enorme interrogação na eleição de 2018. Na entrevista concedida em seu escritório, em São Paulo, Mendonça de Barros não poupou críticas a Lula, Bolsonaro e Meirelles, os principais adversários do pré-candidato pelo PSDB, Geraldo Alckmin, à Presidência da República.

DINHEIRO – Como o sr. avalia o desempenho do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que assumiu há poucas semanas o comando do PSDB?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS – Ele está surpreendendo positivamente. Conseguiu rapidamente unificar o partido e fechar questão a favor da Reforma da Previdência. O apito do comandante está com ele.

DINHEIRO – Os partidos de centro vão se unir em torno de uma candidatura?

MENDONÇA DE BARROS – O que move essa união é a perspectiva de assumir o poder. Os deputados ficam pensando em cargos, ministérios etc.. O risco para o Alckmin é se ele não melhorar nas pesquisas no começo de 2018. Ele tem de atingir 18% das intenções de votos até março. Agora, uma coisa é inegável. O Alckmin é um candidato com história e experiência. Do jeito que nós estamos, é o melhor possível.

DINHEIRO – E o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles?

MENDONÇA DE BARROS – Ele não tem condições pela personalidade dele.

DINHEIRO – Mas a recuperação econômica não joga a favor dele?

MENDONÇA DE BARROS – O Fernando Henrique [Cardoso] colheu esse fruto [no governo Itamar Franco] porque a hiperinflação era a prioridade dos brasileiros. A criação do real derrubou a inflação e gerou sensação de bem estar nas pessoas. Agora, embora a inflação esteja mais baixa do que à do início do real, não está gerando o mesmo efeito. O crescimento está melhorando, mas não será suficiente para eleger um poste como o Meirelles. Fora o Alckmin, quem mais pode ser? Ninguém.

DINHEIRO – E o Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados?

MENDONÇA DE BARROS – Não. Se o PSDB tem pouca penetração, o DEM tem muito menos. Ninguém sabe quem é o DEM. O PMDB, que é o fiel da balança pelo tempo de TV e pelas prefeituras, vai vender caro o apoio. Já o Lula impede o surgimento de outros candidatos de esquerda.

DINHEIRO – É possível prever se o ex-presidente Lula estará na disputa eleitoral?

MENDONÇA DE BARROS – Ele vai manter a candidatura o máximo que puder. O Lula quer criar um mito de que foi roubado, tirado do jogo. Um mártir. Um Getúlio Vargas. Mas uma coisa que todo mundo sabe é que o Lula não ganha a eleição. A condenação em 2ª instância, que vai acontecer, aumentará a rejeição.

DINHEIRO – Não há espaço para o surgimento de um candidato novo?

MENDONÇA DE BARROS – Não acredito. Exageraram nessa história do “novo” na política. Os partidos tradicionais vão prevalecer numa eleição curta e sem dinheiro.

DINHEIRO – Preocupa o adiamento da votação da reforma da Previdência para 2018?

MENDONÇA DE BARROS – Não. Se não sair em 2018, terá de sair no próximo governo.

DINHEIRO – A minirreforma é suficiente?

MENDONÇA DE BARROS – É razoável. Depois faz outra daqui cinco anos. Precisamos reconhecer que o governo Temer tem surpreendido pela quantidade de matérias aprovadas no Congresso. Se não tivesse ocorrido a denúncia do dia 17 de maio [divulgação das gravações do presidente Michel Temer feitas por Joesley Batista], já teria sido aprovada a reforma da Previdência. O que assusta mesmo o mercado é a possibilidade de o Lula ser presidente.

DINHEIRO – Qual Lula? O Lula radical de 1989 ou o Lula “paz e amor” de 2002?

MENDONÇA DE BARROS – É um Lula radical. Ele tem de radicalizar.

DINHEIRO – E o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ)?

MENDONÇA DE BARROS – Ninguém leva muito a sério o Bolsonaro. Ele elogiou até o [ex-presidente da Venezuela] Hugo Chávez. Na hora que tiver de queimar o cara, será fácil.

DINHEIRO – Mas ele anunciou o economista liberal Paulo Guedes como possível ministro da Fazenda…

MENDONÇA DE BARROS – O Paulo Guedes com o Bolsonaro é a mesma coisa que o [ex-ministro da Fazenda] Joaquim Levy com a Dilma Rousseff. Não dá liga. Ninguém leva a sério.

O deputado federal Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República (Crédito:Sergio Lima)

DINHEIRO – Por que o sr. está otimista em relação à economia em 2018?

MENDONÇA DE BARROS – A economia já está acelerando. Primeiro o consumo e depois o investimento, pois ainda há uma capacidade ociosa muito grande. No trimestre das eleições, a economia estará crescendo num ritmo de 4% [anualizado].

DINHEIRO –Os juros ficarão baixos?

MENDONÇA DE BARROS – A inflação baixa é fruto da recessão, que quebrou a espinha da indexação. E ainda teve a queda dos preços dos alimentos. Com isso, o Banco Central tem condições de manter os juros baixos.

DINHEIRO – Qual é o PIB potencial do Brasil?

MENDONÇA DE BARROS – A economia pode crescer entre 3% e 3,5% ao ano. Não mais do que isso, pois o Brasil é um país que não tem poupança. Não podemos ignorar, também, os problemas fiscais. A recuperação cíclica só será mais longa se resolvermos a questão fiscal. Nesse ponto, o setor de infraestrutura é estratégico, pois o governo também arrecada com as privatizações.

DINHEIRO – Acabou o preconceito ideológico contra as privatizações?

MENDONÇA DE BARROS – Acabou. A esquerda pode até criticar, mas hoje ninguém tem mais dúvidas de que esse é o caminho. A Eletrobras já está aí pronta para ser privatizada. Não vejo problemas em privatizar a Petrobras. Lembrando que até o governo do PT fez privatizações.

DINHEIRO – O sr. defende a privatização da Petrobras?

MENDONÇA DE BARROS – É um projeto antigo que eu tinha preparado para o [ex-presidente] Fernando Henrique, que propõe a divisão da Petrobras em duas empresas praticamente iguais. Privatiza uma e mantém a outra estatal, e deixa as duas rodarem durante um certo tempo. O resultado da empresa privada vai ser tão superior ao da estatal que permitirá que seja vendida a outra parte. Esse projeto foi feito em 2000, mas não deu tempo de tocá-lo.

Edifício-sede do BNDES, no Rio de Janeiro (Crédito:Vanderlei Almeida)

DINHEIRO – O que o sr. prevê para o mercado financeiro em 2018?

MENDONÇA DE BARROS – Estará tudo relacionado com as eleições. Se o cenário das eleições caminhar para um cenário de centro-direita, não tenha dúvidas de que a bolsa vai subir muito e o investimento, também. Mas tem risco, pois é “bola” ou “bule”. Ou será um governo pró-mercado ou será um governo estatizante. Até agora o mercado tem resistido bem, pois a leitura que se tem é a de que a probabilidade de um governo pró-mercado vencer é maior. Se isso mudar no meio do caminho, o mercado pode se estressar.

DINHEIRO – Antes da crise, o sr. investiu no setor de caminhões através da marca chinesa Foton. O sr. mantém a aposta?

MENDONÇA DE BARROS – Sofri muito. Foi um período muito difícil. O setor de caminhões desabou e os juros subiram. Nós tivemos de fazer várias mudanças no planejamento, mas o projeto chegou aonde deveria chegar, que é a produção local dos caminhões. Em vez de ir para uma fábrica própria, nós alugamos a fábrica da Agrale para produzir. Isso tudo exigiu um investimento muito maior do que o previsto inicialmente. A vantagem é que os chineses, após o susto, agora estão confiantes. Eles criaram uma subsidiária brasileira que vai trabalhar junto com a nossa até que haja uma fusão lá na frente.

DINHEIRO – O setor de caminhões vai se recuperar junto com o PIB?

MENDONÇA DE BARROS – Sim. O mercado chegou a vender 200 mil caminhões em 2013. Em 2017, são 60 mil unidades com tendência de alta. As empresas do setor estimam que o mercado real, daqui cinco anos, será de 150 mil caminhões por ano. Ainda é um dos maiores mercados do mundo.

DINHEIRO – A economia brasileira precisa, atualmente, de menos ou de mais BNDES?

MENDONÇA DE BARROS – Os governos Lula e Dilma exageraram na atividade do BNDES. Portanto, o BNDES do PT é parte importante da crise que nós tivemos. Injetaram R$ 500 bilhões em dívidas do Tesouro, com um custo fiscal enorme. Hoje temos um BNDES mais realista. O tamanho do BNDES vai diminuir na medida em que a economia for crescendo. O BNDES da minha época, há 20 anos, tinha uma importância no sistema bancário muito maior do que terá daqui 20 anos. O mercado de capitais tende a crescer e há muito investimento estrangeiro direto. Mas é importante que o BNDES escolha corretamente os setores que receberão seus financiamentos.

DINHEIRO – Quais devem ser os setores prioritários?

MENDONÇA DE BARROS – Economia digital e infraestrutura. O BNDES tem de abandonar o sonho de ser o transformador do capitalismo brasileiro. Isso vem de uma leitura que o PT fez há muito tempo atrás de que o Brasil teria um capitalismo tardio e que, por isso, o Estado teria de ser o grande indutor do desenvolvimento econômico. Isso não é mais verdade. O Brasil pode ter um capitalismo com problemas, mas não é um capitalismo tardio.

DINHEIRO – O investidor estrangeiro confia no Brasil?

MENDONÇA DE BARROS – Sim. Basta comparar o Brasil com os demais emergentes e ver o nosso tamanho relativo. O mercado de consumo brasileiro, por exemplo, está sempre entre o quarto ou quinto maior do mundo. Isso faz com que o investimento privado tenha como prioridade vir para o Brasil. Por exemplo, o Burger King. Por quê? O mercado de fast food aqui é muito grande. Olhe as empresas de automóveis. O Brasil saiu um pouco daquela faixa de país emergente pobre e hoje estamos numa faixa de país emergente rico. O BNDES tem de aceitar que o setor privado, e não mais ele, é o grande indutor do crescimento econômico.

DINHEIRO – A troca da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que sempre foi subsidiada, pela Taxa de Longo Prazo (TLP), mais próxima da taxa Selic, foi uma boa medida?

MENDONÇA DE BARROS – Após a experiência do Lula e da Dilma, ficou claro que não dá mais para subsidiar os empréstimos do BNDES. O Estado brasileiro não tem mais condições de fazer isso. Se você olhar o investimento estatal, verá que ele caiu 20% neste ano. A estrutura fiscal do Estado ficou limitada a pagar salários e previdência.

DINHEIRO – Não é um erro o governo cortar investimentos para cumprir uma meta fiscal?

MENDONÇA DE BARROS – Não tem jeito. É o que sobra. O governo só consegue mexer em 10% da arrecadação. Os outros 90% estão engessados.

DINHEIRO – Se o PSDB voltar ao Palácio do Planalto, o sr. retornará a Brasília?

MENDONÇA DE BARROS – Não. De jeito nenhum. Estou velho, com 75 anos (risos). Há uma geração nova que precisa assumir a responsabilidade. Eu continuo dando os meus palpites, mas não faz sentido voltar
a Brasília.

 

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