Estilo

O jazz não pode morrer, tá ligado?

Blue note, a casa que ajudou a preservar a história do gênero nos EUA, ganha versão paulistana em um endereço icônico da cidade: o Conjunto Nacional

O jazz não pode morrer, tá ligado?

Em 2017, o filme La La Land, de Damien Chazelle, conquistou as plateias com suas belas melodias e o sonho do personagem Sebastian (Ryan Gosling) de não deixar o jazz morrer. No Brasil, a missão de manter vivo o estilo musical é do empresário Luiz Calainho, ex-vice presidente da Sony Music e fundador da L21 Participações, empresa que atua no mercado cultural. Calainho foi o responsável por trazer o Blue Note — uma das casas de jazz mais importantes do cenário americano — para a América do Sul.

Em agosto de 2017, no mesmo ano em que o musical La La Land estreava nos cinemas, Calainho abriu a Blue Note no Rio de Janeiro, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Leblon, ponto nobre da zona sul carioca. Agora o clube tem um endereço também em São Paulo, no Conjunto Nacional, esquina da avenida Paulista com a rua Augusta. A casa de 800 m² com 350 lugares ocupa o segundo andar do edifício, espaço igualmente icônico na cidade, já que ali funcionou o Salão do Fasano entre 1958 a 1968, onde se apresentaram Nat King Cole e Marlene Dietrich.

A escolha do lugar foi de Facundo Guerra, empresário convidado por Calainho para se juntar aos sócios Daniel Stain, Flavio Pinheiro e Marcelo Megale na empreitada paulista. Facundo foi dono de boates famosas em São Paulo como o Vegas, Lions e Yacht e ganhou notoriedade com a revitalização do Cine Joia , Riviera Bar e do Mirante 9 de Julho, na avenida de mesmo nome. Seus negócios mais recentes são o Arcos, restaurante no subsolo do Theatro Municipal e, agora, o Blue Note.

Só fera: o palco do Blue Note de Nova York (à esq.), que recebeu astros como Sarah Vaughan. Acima, o palco do Blue Note Rio, com a banda Brazil All Stars

CONTAS NO AZUL A aposta é que o empreendimento paulistano ajude a equilibrar as contas da casa carioca, que não vai muito bem das pernas. Os problemas vão de salários atrasados – inclusive de bilheteiros e auxiliares – a cachê de artistas que não foram pagos. Estima-se que o empreendimento acumule uma dívida de R$ 1,18 milhão. Os problemas de segurança na cidade não ajudaram o Blue Note, localizado num cartão postal carioca, que também tem problemas de acesso, pois só pode ser alcançado por carro.

O Conjunto Nacional, ao contrário, registra circulação média de 44 mil pessoas por dia, sem contar aquelas que trafegam pela avenida Paulista, o centro financeiro da cidade. Para Calainho, a filial paulistana deve dar novo fôlego ao negócio e a aposta dele parece acertada. Um mês antes de a casa abrir, 25% dos ingressos já estavam vendidos. Os empresários investiram R$ 3,2 milhões no negócio e tem patrocinadores de peso como a Porto Seguro Cartões, universidade Estácio e a companhia aérea Azul.

A casa segue o padrão original, de Nova York. As mesas estão configuradas de maneira a ficarem próximas umas das outras e também do palco, que tem só 50 centímetros de altura. A luz azulada e o letreiro com o nome da casa também compõe o cenário tradicional.

Luiz Calainho: empresário conhecido do cenário musical e cultural é detentor da marca Blue Note na América do Sul

A lista dos primeiros artistas a ocupar o palco já está confirmada até abril: Os Bossa Nova, Ed Motta, a banda cubana Batanga & Cia e João Donato, entre outros. Os ingressos para os shows variam de R$ 120 a R$ 480, mas algumas apresentações serão mais caras. Para assistir ao pianista Chick Corea no Blue Note do Rio, em outubro de 2017, foi preciso desembolsar R$ 1,2 mil.

A Blue Note de São Paulo vai ter dois shows por noite, de quinta a sábado, às 20h e às 22h30. Aos domingos, a banda residente faz shows gratuitos na marquise do prédio para quem frequenta a Paulista. A casa também oferece aposta na gastronomia. Com menu da chef Daniela França Pinto, o espaço serve almoço ao som de jazz de segunda a sexta-feira e também aos domingos.


Blue Note original começou fora do tom

O Blue Note foi aberto em 1981 no Greenwich Village, em Nova York, por Danny Bensusan, e serviu de palco para astros como Sarah Vaughn, Lionel Hampton e Dizzy Gillespie, entre outros. Localizado numa zona boêmia da cidade, a casa tinha tudo para bombar. Mas não foi bem assim. Na época, a boate operava abaixo da capacidade e perdia muito dinheiro. O cenário mudou quando o baixista Ray Brown foi tocar lá e recomendou a Bensusan contratar apenas músicos que não se apresentavam em outros clubes. Lendas vidas do jazz como o Modern Jazz Quartet e Oscar Peterson ocuparam o espaço e o Blue Note finalmente decolou.