Finanças

O guru vai à Índia

O megainvestidor Warren Buffett escolhe a Paytm, líder do setor de meios de pagamento, para cravar o primeiro investimento no país

O guru vai à Índia

Com um patrimônio de US$ 85 bilhões segundo a revista Forbes, o megainvestidor Warren Buffett, terceiro homem mais rico do mundo, é considerado um dos maiores gurus do mercado. Apesar disso, ele demorou 81 anos para visitar a Índia pela primeira vez. Agora, com recém-completados 88 anos, na quinta-feira 30, sua empresa, a Berkshire Hathaway, fez o primeiro investimento por lá. Buffett escolheu o promissor segmento de meios de pagamento e adquiriu 3% da empresa Paytm, líder desse mercado na Índia, por US$ 300 milhões.

Seu interesse pela terra dos gurus é recente. Em meados de 2011, Buffett foi um convidado oficial do governo da província de Karnataka. Bangalore, a capital provincial, é conhecida internacionalmente como o principal ponto de conexão de tecnologia e telecomunicações do país. Mesmo tendo vestido as roupas típicas locais, Buffett resistiu bravamente às propostas de participar do capital de diversas companhias. Sete anos depois, resolveu apostar em um segmento relativamente novo no portfólio de cerca de US$ 350 bilhões da Berkshire, a área de tecnologia. Só em 2016 a companhia fez o primeiro investimento na Apple. Buffett vem mordendo a maçã com gosto, e sua empresa já se tornou a terceira maior acionista da companhia fundada por Steve Jobs.

Sua aposta na Índia é muito menor, mas tem características parecidas. O guru de Omaha optou, também, por uma companhia capaz de alterar profundamente as características do mercado em que atua. Fundada em 2010 pelo engenheiro Vijay Shekhar Sharma, a Paytm oferece serviços de pagamento por meio de celular, sem que o usuário precise ter conta em banco, algo essencial tendo em vista a enorme massa de desbancarizados da Índia. Segundo estimativas do Bank of Índia, 40% do 1,3 bilhão de habitantes não possui relacionamentos bancários. “Esse é um dos setores mais promissores do País”, diz Rodrigo Dantas, presidente da Vindi, empresa brasileira de plataforma de pagamentos.

O engenheiro Vijay Shekhar Sharma fundou a Paytm em 2010 com foco na população desbancarizada da Índia (Crédito:Divulgação)

Dantas estudou o mercado indiano antes de começar o seu negócio por aqui. Ele destaca que, diferente do Brasil, o processo de inclusão financeira por lá se deu diretamente pelo celular. “Não houve o passo de emissão de boletos e de cartões”, diz. A Paytm tem hoje cerca de 250 milhões de usuários. “Considerando a população da Índia, são pelo menos mais 500 milhões de clientes em potencial”, diz.

Os países asiáticos vêm apresentando um desenvolvimento semelhante na área de pagamentos. Na China, há dois representantes importantes no setor: a Alipay, da gigante chinesa do comércio eletrônico Alibaba, e a WeChat Pay, da Tencent, um dos maiores portais de serviços de internet. De olho no potencial de mercado do concorrente, a Alibaba começou a investir na Paytm em 2015: pagou US$ 575 milhões por 30% do capital. Neste ano, a companhia fundada por Jack Ma fez mais duas rodadas de investimentos e elevou sua participação para 40%. O grupo japonês Softbank também fez duas rodadas de investimento na Paytm. O último aporte, de US$ 445 milhões, foi concluído em junho. Sua fatia atual no capital social é de 20%.

Com os investimentos, o valor de mercado da Paytm subiu de US$ 5 bilhões, em agosto de 2016, para US$ 10 bilhões no fim de 2017, o que a coloca na posição de uma das startups indianas de maior valor. Buffett, o guru visionário, sempre soube da potência do mercado indiano. Há sete anos, ele fez a primeira tentativa de participar dos negócios do país por meio de uma parceria com a seguradora Bajaj Allianz. Mas a relação durou menos de dois anos e foi encerrada pela Berkshire, devido à regulamentação excessiva no mercado. O guru de Wall Street não desistiu e continuou esperando pela oportunidade certa. Em uma palestra realizada durante sua viagem de 2011, ele resumiu a importância do lugar. “Você não pode ter um bilhão de pessoas e não ser importante para este mundo”, afirmou.