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O GP da discórdia

Rio de Janeiro e São Paulo travam disputa para sediar a etapa brasileira da Fórmula 1. Por que interessa tanto deter o direito de fazer a corrida? A resposta vale mais de R$ 300 milhões por ano

O GP da discórdia

Em 2018, pela primeira vez em sua história, o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 foi realizado sem a participação de pilotos brasileiros. Ficaram para trás os dias em que Ayrton Senna, Nelson Piquet ou mesmo Rubens Barrichello e Felipe Massa entravam no autódromo de Interlagos, em São Paulo, com chances de terminar na primeira posição. Isso poderia ser um grande motivo para diminuir o interesse na etapa brasileira. Mas não é o que vem acontecendo. Nas últimas semanas, o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, reafirmaram que a capital fluminense passará a sediar o GP Brasil no novo autódromo a ser construído na região de Deodoro. Em resposta, o governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito da capital paulista, Bruno Covas, garantiram que a prova não deixará a sua atual casa.

Mas por que um evento que parece ter deixado seus melhores dias no passado colocou lideranças políticas em choque? A explicação está no dinheiro que movimenta. E, de forma surpreendente, esse valor tem subido. Segundo a Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo, a prova do ano passado trouxe R$ 334 milhões em negócios, superando as expectativas de R$ 300 milhões, um crescimento de 19,3% em relação a 2017. Ele contabiliza quanto os turistas gastam em média durante os dias que permanecem na cidade. Isso inclui estadia, alimentação e compras.

Novo autódromo: a Rio Motorpark promete iniciar a construção em Deodoro ainda em 2019 (Crédito:Divulgação)

Essas estimativas não contemplam outros fatores, como criação significativa de empregos temporários. Cerca de 10 mil pessoas trabalham no evento. Um mês antes da prova, já são três mil pessoas dedicadas à preparação do circuito. “A Fórmula 1 é um negócio para todos: organização, patrocinadores e governos”, diz Orlando Faria, secretário de Turismo da cidade de São Paulo. “Mesmo que o Rio tivesse um circuito pronto para sediar a prova, não iríamos desistir de fazer o GP aqui”, afirma.

Em 2018, a etapa brasileira atraiu mais de 150 mil pessoas nos dias de evento, a maior participação desde 2010. O motivo para isso, defendem os organizadores, foi que a empresa americana Liberty Media, do empresário John Malone, passou a administrar a Fórmula 1 com uma estratégia mais agressiva de marketing. “Ao perceber que não haveria pilotos brasileiros, ela reforçou a publicidade, principalmente em redes sociais e voltada para estrangeiros”, diz o secretário. Com isso, o índice de turistas em Interlagos subiu de 67% para 77%, em 2018, e os de estrangeiros, de 11% para 18%.

Choque: o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Doria: divergência sobre qual cidade receberá o evento a partir de 2021 (Crédito:Marivaldo Oliveira/Código19/Agência O Globo)

A vencedora da licitação para construir o autódromo carioca é a Rio Motorpark, criada pelo mineiro José Antonio Soares Pereira Junior, conhecido como JR Pereira, e baseada em Delaware, nos EUA. Segundo ele, o estabelecimento da razão social em terras americanas dá mais segurança jurídica aos investidores internacionais que devem entrar no projeto. E ela tem planos agressivos. “A prova deve trazer 80 mil pessoas à cidade, com um gasto diário médio de R$ 500 só de estadia”, diz Pereira. “Queremos transformar a cidade num grande Superbowl e fazer uma semana de eventos por todo o Rio, atuando com os patrocinadores e movimentando R$ 450 milhões adicionais. São Paulo não faz isso, até porque a cada dois anos a corrida acontece no mesmo período que o Salão do Automóvel, que toma parte da verba de marketing das empresas.”

No entanto, algumas dúvidas pairam em relação ao investimento. A Comissão de Valores Imobiliários abriu investigação depois que a Rio Motorpark afirmou que o aporte necessário de R$ 697 milhões para a construção do autódromo viria de fundos de investimentos e que a empresa tem apenas uma parte pequena dos recursos. JR Pereira afirmou à DINHEIRO que o capital não será um problema e que só não foi captado antes porque sua empresa não havia vencido o edital. Ele também diz que não haverá dinheiro público para compensar a falta de investidores e rebate as críticas de que o autódromo não ficaria pronto até 2021 e nem receberia as certificações de uso para a Fórmula 1, que leva até três anos. “Vamos começar a construir ainda neste ano, e terminar em 17 meses. A Acciona, nossa parceira, fez um autódromo em Aragon, na Espanha, utilizado na Moto GP, em 52 semanas”, diz.

ZONA MILITAR O foco agora é conseguir as liberações ambientais e garantir que não há mais artefatos explosivos no terreno escolhido, que fica numa zona em que eram realizados testes militares. “Os investidores internacionais são muito preocupados com a sustentabilidade e só liberam o dinheiro depois que isso estiver resolvido. A prefeitura está trabalhando no projeto há dois anos”, diz Pereira. Ele também promete um autódromo de nova geração, com tratamento de resíduos e compensação de emissões de poluentes. O fato é que, mesmo que o projeto carioca não cale os seus muitos críticos ou que o Brasil continue sem formar grandes pilotos de Fórmula 1, o GP Brasil tem potencial para continuar sendo um bom negócio.