Entrevista

Patrick Mendes, CEO da Accor na América do Sul

O governo precisa socorrer o turismo enquanto há tempo. Dar remédio ao morto não adianta

Claudio Belli

O governo precisa socorrer o turismo enquanto há tempo. Dar remédio ao morto não adianta

Na avaliação do executivo, a Medida Provisória 948/2020, que prevê socorro ao setor, é o início de um diálogo certeiro, mas as empresas vão precisar de mais ajuda nos próximos meses.

Neila Carvalho
Edição 08/05/2020 - nº 1170

O francês Patrick Mendes, CEO da rede hoteleira Accor para América dos Sul, maior grupo hoteleiro do mundo, está no Brasil há oito anos – dos quais, segundo ele, gastou três para aprender como funciona o mercado hoteleiro local. No entanto, com a pandemia e a crise política, vai precisar voltar aos estudos. “O momento do Brasil é um MBA prático de crise extrema”, define o executivo. Com um faturamento global de € 4 bilhões em 2019 – alta de 16% ante 2018 –, o ano marcou o recorde em número de hotéis abertos pela companhia em todo o mundo e seguiu a mesma toada no Brasil e na América do Sul: foram 26 novas unidades na região, sendo 20 no País. Dono das marcas Ibis, Mercure, Pullman e Sofitel, o grupo francês contabiliza queda de até 90% nas receitas a partir da segunda quinzena de março até agora. Para o ano, Mendes estima um tombo de 40% a 50% no faturamento, quando comparado com 2019 – resultado preocupante em um setor que representa 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Confira, a seguir, sua entrevista.

DINHEIRO – Em várias partes do mundo, como na China, os hotéis começam a retomar as atividades. Isso também acontece no Brasil?
PATRICK MENDES – Ainda não. Vamos estudar os planos que o governo brasileiro vai apresentar para a retomada e como o setor consegue se encaixar neles. Em um primeiro momento, vejo que reabriremos unidades específicas, levando em conta fatores como fluxo, turismo regional e viagens a trabalho. Acreditamos que será um retorno também positivo, como na China, principalmente nos grandes pontos turísticos brasileiros. O confinamento imposto pela quarentena deve despertar o desejo de viagem e, com o dólar e o euro a preços menos acessíveis, o turismo interno será movimentado, com certeza.

O que o setor hoteleiro espera do governo?
Três atitudes são essenciais. A mais fundamental é a extensão da Medida Provisória 936/2020, aprovada no início de abril. O texto permite que o prestador formalize um acordo individual com o consumidor, como negociar o prazo para a validade de uma reserva ou a devolução do crédito em 90 dias. Assim, o consumidor fica isento de taxa ou multa. Precisamos, no entanto, de 120 dias no mínimo. Afinal, temos de ser reconhecidos como um dos setores mais prejudicados pela crise. Se não conseguirmos manter os hotéis funcionando e os serviços prestados, teremos baixas que vão impactar em demissões, cortes e atrasos de fornecedores, além de diversas outras consequências negativas. O governo precisa socorrer o turismo enquanto há tempo. Dar remédio ao morto não adianta.

Que medidas foram adotadas pela Accor para este período?
Começamos a trabalhar nisso no início de fevereiro, quando percebemos que precisaríamos implementar ações mais agressivas. Congelamos as contratações, reduzimos horários de trabalho e as licenças para 75% das equipes no segundo trimestre. Também revisamos o plano de investimento para 2020. Além disso, toda a companhia está reduzindo outros custos, como vendas, marketing e TI, acompanhando a queda nas receitas.

Por que o setor hoteleiro acredita que deve ser priorizado nesse cenário de pandemia?
Pela importância do segmento. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) já registrou perda de R$ 14 bilhões em receita no mês de março, uma queda de 84% no faturamento quando comparado com o mesmo mês do ano anterior. Somente com este dado, podemos expressar o quanto o setor hoteleiro significa na cadeia produtiva do Brasil.

Como será o comportamento no turismo após a crise do coronavírus?
Vai mudar muito. Assim como aconteceu na China, acredito que, como resquício da pandemia, as pessoas terão mais cuidado ao viajar e, por enquanto, não buscarão destinos distantes. O primeiro setor que deve aquecer é o turismo de negócios. Empresários e executivos que viajam a trabalho serão os primeiros a voltar a viajar. Na se-quência, famílias que desejam reencontrar entes que vivem em outras cidades ou Estados serão os clientes. Por fim, como exemplo na China, as pessoas passarão a escolher os hotéis e os resorts para as estadias prolongadas e férias. Com o dólar alto e as possíveis restrições de fronteiras ainda ativas, o brasileiro vai priorizar os destinos nacionais, lugares que ainda não conhece e pontos turísticos mais inusitados.

“O confinamento imposto pela quarentena deve despertar o desejo de viagem e, com o dólar e o euro a preços menos acessíveis, o turismo interno será movimentado, com certeza” (Crédito:Divulgação)

A Accor tem caixa para aguentar quanto tempo de economia paralisada?
Fizemos recentemente uma nova estratégia de transformação de preservação de caixa. A Accor possui hoje um forte balanço patrimonial, com mais de € 2,5 bilhões disponível em caixa, além de uma linha de crédito rotativo não utilizada de € 1,2 bilhão. Embora exista muita incerteza sobre a duração dessa crise, o grupo espera um forte impacto no desempenho de 2020, mas permanece otimista na perspectiva de longo prazo do setor.

Como a Accor está preparando os hotéis para a retomada?
A China iniciou a quarentena em fevereiro. Então, quando o problema se agravou no Brasil, nós já estávamos preparados para o que ia acontecer assim como vimos em outros países. Esse mesmo movimento nós estamos tentando fazer na América do Sul, dentro das possibilidades. Estamos em contato constante com os órgãos de governo para termos condições para oferecer um mínimo de segurança e higiene no retorno das atividades. As últimas três ou quatro semanas foram de ajustes e gestão desta crise, com fechamento de unidades e determinações para o funcionamento das que continuariam abertas. Temos 400 hotéis na América do Sul, com 300 deles fechados. Só no Brasil são 340, e 270 estão sem funcionar. Fechamos quase tudo no início de abril e imaginamos que teríamos as primeiras aberturas no final de maio, mas isso não vai acontecer. A reabertura será gradativa. Dependemos do afrouxamento do isolamento social de prefeituras e governos estaduais. Estudaremos caso a caso para que não haja desperdício de esforços.

Como saber que é a hora certa para reabrir e que haverá demanda?
Temos equipes para medir o comportamento das pessoas através de pesquisas pela internet, analisando quem está querendo viajar e para onde. Se acontecer como na China, onde fechamos os hotéis por sete semanas e voltamos com quase todas as unidades, temos expectativa de 60% de ocupação quanto tudo voltar. O exemplo da China, mais uma vez, está nos encorajando a passar por estes dias ruins.

Quais são as iniciativas da Accor no combate aos efeitos na pandemia?
São várias. Criamos, por exemplo, a chamada tarifa solidária nas unidades que estão em funcionamento para parcerias com hospitais e órgãos do governo. No Brasil, um dos focos desse apoio é voltado para hospitais que precisam hospedar os profissionais que estão na linha de frente no combate à Covid-19. Recebemos diversas solicitações de hospedagem para idosos e pessoas de grupo de risco, que vivem com familiares e crianças, e necessitam ficar isolados para se protegerem. Há demanda também de pessoas em trânsito ou que ficaram sem poder viajar, além daqueles que estão enfrentando alguma dificuldade de convívio em meio ao isolamento social. Conseguimos valores teto fixos para as tarifas solidárias, que são valores apenas para cobrir custos, de R$ 180 para a categoria econômica, e de R$ 250 para a categoria midscale (padrão intermediário).

“A reabertura será gradativa. Dependemos do afrouxamento do isolamento social de prefeituras e governos estaduais. Estudaremos caso a caso, para que não haja desperdício de esforços” (Crédito:Fabio Rossi )

Há mais alguma ação prevista?
Todo o projeto “Planet 21 – Acting Here” e da “Accor Solidarity”, fundo de doação que oferece a grupos menos favorecidos acesso ao emprego por meio de treinamento profissional, está voltados para a “hospitalidade positiva”. A “Accor Solidarity” empodera pessoas em situação vulnerável por meio de treinamentos profissionais e acesso ao emprego. Além disso, estamos lançando um selo projetado para certificar que os padrões de segurança e protocolos de limpeza sejam apropriados para permitir que as empresas possam reabrir. Com esse selo, hoje temos a capacidade de atender às expectativas da sociedade em termos de saúde e segurança, já que ele vai contribuir para a reabilitação e restauração da indústria de hospitalidade com confiança. O selo cobrirá tanto a acomodação quanto a restauração, e definirá os padrões sanitários aplicáveis a todos os hotéis do grupo, bem como a outras redes e hotéis independentes. O projeto foi realizado em parceria com médicos e epidemiologistas e será lançado na próxima semana.

O que esperar de 2021?
Em relação a 2021, nossa previsão é de que, no quarto trimestre, voltaremos a um patamar equivalente ao dos últimos três meses de 2019. Agora, vale destacar que o resultado do ano passado tinha um contexto de retomada após uma crise pesada, com diárias baixas e em um processo de recuperação da tarifa, além de 55% a 60% de ocupação, em média. Há duas variáveis importantes para o futuro: vacina e remédio. Se saírem logo, acelera esse processo de retomada do mercado. O segmento de grandes eventos deve demorar um pouco mais para retomar.

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