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“O governo está acabando com o negócio do vinho no Brasil”

10 perguntas para Adriano Miolo, superintendente do Grupo Miolo

“O governo está acabando com o negócio do vinho no Brasil”

Adriano Miolo, superintendente do Grupo Miolo

Adriano Miolo, enólogo e proprietário da vinícola Miolo, está celebrando a safra deste ano. Se confirmadas as primeiras impressões demonstradas na colheita das uvas, o Lote 43, seu produto ícone, voltará a ser produzido depois de seis anos. Um bom ano reforça a perspectiva de o faturamento chegar a R$ 150 milhões em 2018. Mas, paralelamente a esse momento, ele sente os efeitos perversos da tributação em seu negócio. A empresa reduziu os investimentos desde que o setor vitivinícola começou a recolher impostos por toda a cadeia, há sete anos. “Essa obrigação sufoca o caixa da companhia, principalmente neste momento em que aumentou a competição com produtos importados, principalmente os chilenos”, diz ele.

A safra de 2018 será a melhor dos últimos anos?
É o efeito La Niña que, para nós, é sempre bem-vindo. Fazia seis anos que não se via uma estiagem pausada. No ano passado, tentamos fazer um ensaio do Lote 43, mas não estava dentro do nível que consideramos para o vinho. O último Lote 43, que só é feito em anos como este, foi em 2012.

Por que o consumidor ainda prefere o vinho importado?
A oferta de vinho importado, nos últimos dois ou três anos, foi de baixo preço. Começamos a perceber quase um reinício daquele movimento de 1994 da garrafa azul, quando o Brasil foi inundado por vinho barato da Alemanha. Agora, é produto barato chileno. O Chile não faz parte do Mercosul, mas tem um acordo bilateral e por isso usufrui da mesma vantagem tributária que os demais países-membros do bloco tem.

A tributação maior do vinho nacional influencia a competição?
Os tributos da cadeia produtiva mais os tributos de comercialização deveriam ser iguais para nacionais e importados. Mas o que temos é um emaranhado de legislações estaduais perversas, sem uniformidade. Nós percebemos nitidamente, porque a carga tributária é de 60%, na média.

De onde vem esse efeito?
Da Substituição Tributária (ST), que foi o que de pior aconteceu para o negócio e para a comercialização. Temos de antecipar o imposto da cadeia toda. Isso tirou competitividade. A ST não é um imposto claro e transparente. Cada Estado tem uma forma de interpretá-la.

O governo tem se mostrado aberto a rediscutir o imposto?
O problema é estadual, então é difícil chegar a um acordo. A Bahia, por exemplo, retirou para vários setores. Mas a melhora é só nesse Estado, pois na venda para São Paulo temos a ST. Talvez seja algo a se trabalhar no Confaz, o órgão que reúne todos os Estados para essa questão tributária. O governo está acabando com o negócio do vinho no Brasil.

O grupo reduziu os investimentos?
Com certeza, porque desequilibrou o negócio do vinho. É algo que está fazendo o setor perder totalmente a competitividade. A tributação tirou a pouca competitividade que tínhamos.

O que mudou na Miolo desde a formação da holding, em 2011?
Consolidamos as marcas em um grupo só. Miolo, Terra Nova e Almadém estão bem consolidadas no mercado e lançamos a Seival, de vinhos exclusivos. Manter um portfólio com mais de 70 rótulos, em todos os canais e nichos de mercado, nos ajuda a ter força comercial.

A ideia de realizar um IPO até 2020 segue de pé?
A empresa ainda não está com porte para abrir capital. Quando estruturamos as empresas, fizemos uma capitalização com novos acionistas: as famílias Randon e Benedetti e o grupo Galvão Bueno (do narrador da TV Globo). São três acionistas que entraram no capital para consolidarmos os investimentos com as quatro vinícolas. São projetos consolidados.

Mas um IPO não ajudaria na consolidação dessa estrutura?
Com a capitalização, investimos, para ganhar corpo, estrutura, tecnologia e escala. O que precisamos, agora, é ampliar a participação no mercado doméstico. É o grande desafio para os próximos anos. Na nossa avaliação, a empresa precisaria ficar ainda maior para abrir o capital.

Michel Rolland, um dos principais enólogos do mundo, não tem mais vínculo com a Miolo?
Ele trabalhou dez anos conosco, até 2013. Um enólogo dele vinha três vezes por ano e ele, uma vez. Com isso, formamos nossa equipe. Hoje, não sentimos a necessidade ainda de buscar algum outro winemaker para substituí-lo. Nesse período, trouxemos tecnologias que talvez levássemos 30 anos para incorporar.

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