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O gestor que guia o mercado

Conheça Márcio Appel, da Adam Capital. Com R$ 26,3 bilhões sob administração e ganhos consistentes, ele se tornou uma referência no setor

Crédito: Leo Pinheiro/Valor

Marcio Appel, da Adam Capital: gestão com foco no longo prazo e opção por posições equilibradas vêm garantindo os bons resultados (Crédito: Leo Pinheiro/Valor )

Para subirem no ranking, tenistas e administradores de fundos têm de conseguir antecipar o que vai ocorrer, sejam os movimentos do adversário, sejam as tendências das cotações. Marcio Appel, sócio da gestora de recursos Adam Capital, admite não ser um campeão nas quadras. Na gestão, porém, o engenheiro carioca de 45 anos, 23 deles no mercado, vem brilhando. Lançada em dezembro de 2015, sua gestora de recursos, a Adam Capital, já acumula R$ 26,3 bilhões em patrimônio, tanto no Brasil quanto no Exterior. Se os recursos estivessem apenas no Brasil, a Adam seria a 18ª em ativos, segundo os dados de março da Anbima, associação que representa do setor. Uma captação notável em menos de 30 meses.

No entanto, a Adam vem atraindo a atenção por seu desempenho exponencial. Appel iniciou os trabalhos com dois fundos, lançados há exatos dois anos, em 29 de abril de 2016. Até o fim de março deste ano, o Adam Macro II, com patrimônio de R$ 12 bilhões, rendeu 41,3%. Foi quase o dobro dos 22% dos juros de mercado acumulados. Já o Adam Advanced II, que tinha R$ 2,3 bilhões no fim de março, havia rendido 79% nesse período, mais que o triplo do retorno do CDI. Como Appel consegue esse retorno? Usando uma competência desenvolvida no tênis. “A lição mais importante que aprendi foi antever o desconhecido”, diz ele. Appel concedeu uma de suas raras entrevistas à DINHEIRO.

Reticente em falar da vida pessoal – não respondeu nenhuma pergunta sobre sua família nem sobre seus gostos e sua rotina diária –, o gestor foi mais aberto ao tratar de sua estratégia de investimentos. Segundo ele, os melhores professores foram os erros que cometeu em mais de duas décadas de mercado. O principal deles, afirma, ocorreu em 1997, durante a Crise da Ásia, quando Tailândia, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul sofreram ataques especulativos contra suas moedas e tiveram de renegociar suas dívidas em dólares. Então operador de dívida externa, Appel conseguiu zerar suas posições antes da catástrofe, mas voltou a comprar cedo demais. “No nosso negócio, é preciso ter cicatriz. E um gestor com meu tempo de profissão tem a pele bastante marcada”, diz.

Appel se tornou tão relevante que sua estratégia passou a ser acompanhada de perto pela concorrência. Às vésperas do mais recente vencimento de contratos futuros de Índice Bovespa, em 18 de abril, os gestores especulavam se Appel iria ou não desmontar sua posição comprada (que aposta na alta) em Bolsa, estimada em R$ 3,5 bilhões. Se não renovasse a aposta, outros fariam o mesmo. O efeito cascata derrubaria as cotações, o que lhe rendeu o apelido de “homem-bomba do mercado”. O vencimento passou sem sobressaltos, mas o caso o incomoda. Appel respira fundo antes de comentar o assunto. “Não temos uma posição que seja tão grande em comparação com o tamanho do mercado, e muito menos tão relevante para o nosso portfólio. As pessoas não entendem direito”, afirma.

Ter seu comportamento esquadrinhado prova que ele se tornou uma referência no setor. Formado em engenharia eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), onde entrou pensando em ser astronauta, Appel começou a trabalhar no mercado em 1995. Seu primeiro emprego foi no banco Bozano, Simonsen, um dos mais agressivos bancos de investimento brasileiros dos anos 1980. Quem dividiu a mesa de operações com ele recorda a agilidade de raciocínio e uma inteligência acima da média. “Ele se destacava pela rapidez com que formulava as teses de investimento”, diz Wilson Barcellos, ex-colega de banco.

Ibovespa: na avaliação de Appel, o principal índice da Bolsa tem espaço para valorizar e pode chegar até a 160 mil pontos (Crédito:Edilson Dantas / Agencia O Globo)

O Bozano, Simonsen seria comprado pelo Santander na virada do milênio e, em 2001, Appel assumiu a área de investimentos. Em 2008, ele mudou-se para o Banco Safra. Sete anos depois, decidiu tentar carreira solo. Fez as malas e voltou para o Leblon, onde nasceu, e lá instalou sua gestora, batizada de Adam, em homenagem ao avô. Trouxe sete sócios, entre eles André Salgado, ex-colega de Santander e de Safra, e Fabio Landi, companheiro de trabalho no banco espanhol.

Recrutar conhecidos não foi um acaso. Quem já trabalhou com Appel diz que o raciocínio rápido e a defesa firme de suas ideias o tornam temível em qualquer discussão. Isso rendeu-lhe uma imagem de arrogância. Um executivo que trabalhou com ele no Safra disse que não falaria sobre “essa pessoa” à DINHEIRO. Já outro ex-colega do Santander avalia que Appel é mal-interpretado. “Ele é muito exigente consigo mesmo e acaba exigindo mais dos outros. Isso torna a rotina um desafio, mas enriquece o aprendizado”, diz. O próprio Appel não se preocupa muito com o que pensam dele. “Até onde entendo, as pessoas gostam da minha maneira de trabalhar”, diz.

Um dos pilares da estratégia é pensar no longo prazo e medir cuidadosamente os riscos. Outra premissa é que nenhuma posição pode ser grande o suficiente para influenciar, sozinha, o resultado dos fundos. Atualmente, a maior parte do dinheiro está fora do Brasil. “Equilibramos posições compradas e vendidas em diversos mercados, com expertise em países emergentes”, diz. Appel ganhou muito dinheiro ao apostar na queda do peso mexicano em 2016, logo após a eleição de Trump.

Outra aposta é Wall Street, embora o gestor reconheça que as ações “não estão mais baratas como antes”. Por isso, desde o início do ano, ele reduziu, até zerar, as posições no mercado futuro americano. Agora, ele concentra as apostas em grandes bancos, como o JP Morgan, e em empresas de tecnologia, como Facebook, posição que manteve mesmo após a queda de 15,6% na segunda quinzena de março provocada pelo uso ilegal de dados dos usuários. Ele destaca que os papéis seguem “performando melhor”. Neste mês, até a quinta-feira 26, as ações sobem 8,8 %. Appel afirma estar otimista com a economia brasileira no longo prazo. Avalia que a atividade deve continuar se recuperando com juros e inflação sob controle, e aposta que os juros reais deverão se acomodar em 3% ao ano “ou um pouco menos”, diz.

O gestor não se incomoda em ficar na contramão do mercado. Há cerca de um ano, ele era um dos poucos a cravar publicamente que a taxa Selic estaria ao redor de 6% neste ano. Ele também garante que o calendário eleitoral não lhe tira o sono. A incerteza em relação às eleições pode provocar algum ruído no curto prazo, mas não altera os fundamentos da economia no longo prazo. Por isso, ele diz estar otimista com as ações por aqui. No fim de março, Appel comentou que o preço justo para o Ibovespa seria 160 mil pontos, quase o dobro dos atuais 86 mil pontos. Pelo resultado de seus fundos e pelo acerto anterior com a Selic, é bom prestar atenção nessa opinião.