O fourth bottom line

O fourth bottom line

No início do século 19, Friedrich Engels e Conde de Saint-Simon publicaram artigos que causaram sensação na Europa. Os escritos denunciavam as péssimas condições de trabalho em fábricas, que, naquele alvorecer da Revolução Industrial, empregavam crianças, mulheres com bebês pendurados nos seios e homens doentes e desnutridos.

Ao serem cobrados, os industriais da época diziam que seus negócios seriam inviáveis se não fossem desenvolvidos dessa forma.

Uma conjunção de fatores, como o despertar de sensibilidades mais humanizadas, a mobilização dos trabalhadores e a constatação racional da inviabilidade econômica desse sistema, gerou o que ficaria conhecido como responsabilidade social.

Já na segunda metade do século 20, as atenções se voltaram aos estragos que o modelo de desenvolvimento industrial e empresarial causava ao planeta, repercutindo na sociedade humana. Tal situação fez emergir uma nova noção de responsabilidade: a ambiental (ou sustentabilidade). Como ocorrera 150 anos antes, a maioria dos empresários contestou. Porém, em consonância com a dinâmica acelerada da história, a incorporação não tardou tanto. Eles perceberam que uma postura sustentável não prejudicava seus negócios; ao contrário, abria oportunidades, ao mesmo tempo em que valorizava e humanizava suas marcas.

Nos tempos que correm, um novo “círculo dantesco” nos vem sendo revelado: trabalhadores com direitos respeitados, baseados em ambientes sustentáveis, mas padecendo de males tão ou mais complexos que os anteriores. Falo de males que se tornaram prevalentes nas últimas décadas e que se manifestam sintomaticamente como ansiedade, pânico, depressão e síndrome de burnout, por exemplo. A OMS entende que o mundo do trabalho é um dos principais causadores dessas novas patologias da modernidade.

Numa época em que as linhas de montagem são operadas quase que exclusivamente por robôs, as dinâmicas desumanizadoras passaram a ser vividas nas impessoais torres empresariais – e, mais recentemente, no isolamento do home office.

Estamos, pois, diante de um novo desafio, enfrentando uma forma de desumanização que afeta e compromete, também, a saúde das corporações. Sem descurar da responsabilidade social e da sustentabilidade, o mundo corporativo se vê chamado a olhar com cuidado para uma nova dimensão da vivência laboral: a da sustentabilidade da alma; da saúde não apenas mental, mas existencial das pessoas.

Eis o contexto em que se impõe o conceito de Responsabilidade Humanística, o fourth bottom line que, com lucratividade, responsabilidade social e sustentabilidade, deve compor a base de um capitalismo consciente e um mundo corporativo humanizado.

Uma empresa humanisticamente responsável é aquela que se torna consciente e investe no desenvolvimento humanístico de seus colaboradores, promovendo um ambiente saudável, criativo, humanizador e humanizado.

Mas como responder a esse desafio e assumir essa responsabilidade?

Atuo há mais de 20 anos como educador e pesquisador na área da saúde a partir de um background humanístico. Já coordenei uma série de experimentos que me levaram ao desenvolvimento de conceitos como o da Responsabilidade Humanística e de projetos como o do Laboratório de Leitura, que visa a humanização pela leitura e discussão de clássicos da literatura universal.

Os artigos desta coluna estarão, pois, baseados nesta experiência que, há quase uma década, proponho e desenvolvo em ambiente corporativo.

Espero que eles sejam o ponto de partida para o despertar de uma urgente reflexão e um frutífero diálogo com você, leitor. Muito prazer!

Dante Gallian, doutor em História pela USP, é professor da EPM-Unifesp, coordenador do Laboratório de Leitura e colaborador da Responsabilidade Humanística. Publicou o livro A Literatura como Remédio – Os Clássicos e a Saúde da Alma (Martin Claret)

 

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