Economia

O foco é se proteger. E só

A demissão do chanceler Ernesto Araújo foi só uma gripezinha comparada ao surto que se seguiu em Brasília com as mudanças em seis ministérios e a inédita queda dos três chefes das Forças Armadas. A guerra de Bolsonaro com os governadores e com o STF para manter sua base de apoio popular em meio ao descontrole da Covid-19 parece estar só começando.

Crédito: Marcos Corrêa

BATENDO CONTINÊNCIA Jair Bolsonaro com militares durante cerimônia do Dia do Exército. O presidente parece confundir Forças Armadas com uma milícia particular. (Crédito: Marcos Corrêa)

A última semana de março teve um início agitado nos corredores do Palácio do Planalto. Ainda que uma pequena cúpula de assessores mais ligados ao presidente Jair Bolsonaro soubesse o que esperar para os próximos dias, a tensão era clara e se espalhava entre os ministérios. A primeira baixa – já esperada, e muito além do prazo – foi a do chanceler Ernesto Araújo, diplomata de carreira e olavista de coração. O homem que deveria ser o cartão de visita do Brasil no exterior se tornou, nas palavras dele mesmo, um pária nas rodinhas da diplomacia mundial. A saída de Araújo parecia um alívio também para o Congresso, que havia se tornado mais um alvo de seus ataques infundados. Ao anunciar a substituição de Ernesto Araújo por Carlos Alberto Franco França no mais alto posto do Itamaraty, Bolsonaro insistiu na tática de trocar as cartas sem alterar o curso da partida. A percepção internacional quanto à política externa do Brasil não mudou um milímetro. Só que o jogo político ainda estava só no começo. E uma virada de mesa viria a partir da troca de comando na Defesa.

Até o fechamento desta edição, na manhã da quarta-feira (31), seis importantes mudanças na alta cúpula do governo haviam sido confirmadas (leia mais no infográfico à página 22). Outras três estariam por vir. Nenhuma delas, contudo, teve o impacto da troca de função do general da reserva Walter Braga Netto, que deixou a chefia da Casa Civil para assumir o Ministério da Defesa no lugar do também general Fernando Azevedo e Silva. A troca foi uma clara tentativa de demonstração de poder por parte de Bolsonaro, que insiste em desrespeitar a Constituição e sonha com uma obediência cega das Forças Armadas para dar suporte a seus devaneios. A rusga começou em novembro de 2020, quando Azevedo divulgou uma nota afirmando a separação entre as Forças e a política. O documento foi assinado em conjunto pelo general Edson Pujol (então comandante do Exército), pelo almirante Ilques Barbosa (Marinha) e pelo brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica). Na semana passada, os quatro foram destituídos de suas funções. Bolsonaro indicava, claramente, a intenção de converter as Forças Armadas em uma espécie de milícia particular.

A saída da tríade das Forças Armadas no meio de um governo era algo que não acontecia no Brasil desde 1985 e reflete o desejo do presidente de ter mais influência nos quartéis. Oficialmente, as Forças Armadas garantem que não se renderiam a “aventura” de qualquer presidente da República. Para Tarcísio Lembo, consultor do Senado, a investida de Bolsonaro em tentar dar às Forças Armadas um caráter de governo, não de Estado, fere a Constituição. “Não há espaço na democracia para que um governo transforme suas forças armadas em um panfleto político, em uma mensagem para seus opositores”, disse. No Congresso, a oposição se articula para pedir impeachment de Bolsonaro por “ameaça à democracia”.

A saída de Ernesto Araújo do comando do Itamaraty foi descrita como “o fim do capítulo mais calamitoso da história da diplomacia brasileira”

Para Augusto Calligari Reis, doutor em política aplicada e ex-secretário Especial de Governo da gestão Michel Temer, a série de demissões anunciadas pelo presidente causa surpresa. “Era aguardada a saída de Araújo, mas Bolsonaro quis passar uma mensagem maior”, disse. “Aos bolsonaristas, a mensagem é que a força continua intacta e, aos inimigos, que o Estado vai se render ao governo.” Se isso irá realmente ocorrer, é algo que agora depende de Braga Netto e dos militares convocados para comandar as Forças Armadas. No que depender de Bolsonaro, ele pretende seguir sua estratégia de intimidação de prefeitos, governadores e do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a adoção de medidas de restrição e isolamento social na tentativa de conter o avanço da pandemia de Covid-19. Na terça-feira (30), o Brasil teve novo recorde, com 3.688 mortes e 25 estados com ocupação de UITs acima de 80%. Ao culpar prefeitos e governadores pelas medidas de isolamento, Bolsonaro preserva parte do apoio popular a seu governo, que defende a retomada das atividades interrompidas como forma de evitar uma catástrofe econômica.

“ENGASGANDO” Para o economista Felipe Marchioni, que integrava a equipe de Salim Matar durante sua passagem pelo governo Bolsonaro, a reviravolta nos ministérios – não só da Defesa e das Relações Exteriores – terá efeitos ainda piores para a economia. “É impossível para um investidor olhar para tudo e não ter medo de tomar uma decisão”, disse. Ele afirma que a economia brasileira seguirá “engasgando” por mais alguns trimestres, mas isso não seria um problema tão grande se não houvesse tanta tensão política. “Paulo Guedes passa a mensagem do controle fiscal, Bolsonaro a de politização das Forças Armadas. É fácil supor em quem o investidor vai acreditar”, afirmou. Para Tarcísio Lembo, consultor da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, os investidores têm razão em estar apreensivos. “Bolsonaro, nesse momento, não se importa com a economia. O foco é se proteger.”

As mudanças que mais deixaram a economia em alerta, além da troca de Braga Netto da Casa Civil pela Defesa, foram três. Uma é a do Ministério da Justiça e Segurança pública, agora ocupado pelo delegado da Polícia Federal Anderson Torres, que foi secretário de Segurança Pública do Distrito Federal e é amigo da família Bolsonaro. Ele substitui André Mendonça, transferido para a Advocacia-Geral da União (AGU). A outra, claro, é a do Itamaraty. Com Ernesto Araújo fora do Ministério das Relações Exteriores, entra o embaixador Carlos Alberto Franco França, diplomata de carreira que estava na assessoria especial da Presidência da República e que segue a mesma linha de pensamento olavista de seu antecessor. E, por fim, a Secretaria de Governo da Presidência, com a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF) no lugar do general da reserva Luiz Eduardo Ramos, transferido para a Casa Civil. A deputada entrou na cota do Centrão, sinalizando que Bolsonaro entende sua dependência da ala mais fisiológica do Congresso — o oposto do que ele pregava durante a campanha de 2018.

Ainda que ofuscada pela tempestade militar, a saída de Ernesto Araújo do comando do Itamaraty reverberou no mundo todo. Para o jornal britânico The Guardian foi “o fim do que os críticos consideram o capítulo mais calamitoso da história da diplomacia brasileira”. Durante seus 27 meses como chanceler, Araújo colecionou mais vergonhas que carimbos no passaporte. Disse que o nazismo era um movimento de esquerda, chamou a Covid-19 de “comunavírus” e afirmou que o aquecimento climático é fruto de uma educação marxista. Para Rodrigo Lins, mestre em comunicação e pesquisador na área de imigração, os impropérios proferidos pelo agora ex-chanceler resultaram no completo isolamento do Brasil nas relações exteriores na era pós-Trump; abalou a relação com a China e colocou o País na rota de sanções econômicas. Tudo isso, entende o especialista, torna a gestão de Carlos Alberto Franco França uma incógnita. Assim como as intenções de Bolsonaro com tudo o que faz.