Negócios

O estilo soft da Loft

Plataforma de compra e venda de imóveis fundada em 2018 por Mate Pencz e Florian Hagenbuch torna-se um unicórnio e recebe a maior rodada de investimentos entre startups brasileiras, com mais de meio bilhão de dólares.

Crédito: Gabriel Reis

Amazon, US$ 1,6 trilhão de valor de mercado. Google/Alphabet, US$ 1,5 trilhão em valor de mercado. No mundo das duas gigantes de tecnologia baseadas em serviços, há um denominador comum. O tal do cliente. A obsessão de Jeff Bezos, Larry Page e Sergei Brin em dar a cada consumidor a melhor das experiências fez com que suas invenções se tornassem impérios. Esse mesmo princípio move Mate Pencz e Florian Hagenbuch, cofundadores e coCEOs da Loft, plataforma digital do mercado de imóveis. A companhia fundada há três anos acaba de receber a maior rodada de investimentos de qualquer startup brasileira de qualquer segmento: meio bilhão de dólares – US$ 425 milhões em março e outros US$ 100 milhões em abril. Uma dinheirama de captação numa companhia que ainda não opera em margem positiva? Bem, é esse o ponto central no jogo da construção de relevância. “Usaremos os recursos com um só foco: melhorar a experiência do usuário. O comprador, o vendedor e o corretor de nossa plataforma”, afirmou Mate à DINHEIRO. Seu amigo e sócio Florian disse que os dois enxergaram no mercado espaços de um setor que ainda não está plenamente imerso no universo digital. “A indústria imobiliária se situa atrás de outras indústrias”, disse Florian. Em comum, os dois têm a mesma idade (34), se conheceram nos tempos de universitários (nos Estados Unidos), nasceram fora do Brasil (Mate é húngaro, Florian é alemão) e já empreenderam antes, na área de impressão digital, ao fundarem a Printi. Criada em 2012, a companhia recebeu aportes milionários e teve a venda concluída em 2019. Nesta entrevista dupla, Florian e Mate mostram como e por que querem transformar o mundo dos imóveis em Antes e Depois da Loft.

DINHEIRO – Como vocês se tornaram empreendedores?
MATE PENCZ – Fazíamos faculdade nos Estados Unidos e no primeiro emprego formal, em um banco de investimentos, nos vimos pela primeira vez. Isso com 21, 22 anos. E passamos a discutir muito sobre o que e onde empreender.

FLORIAN HAGENBUCH – Eu havia passado parte da infância no Brasil e decidimos, em 2012, vir para cá empreender. Eu, para voltar. Ele, para vir de vez. Construímos nossa primeira empresa, que foi a Printi, uma história muito bem-sucedida, com começo, meio e fim. Começou, escalou e terminou com a venda da companhia para um grupo americano.

E o que motivou vocês a trocarem o sucesso de um primeiro empreendimento para outro num segmento totalmente distinto?
MATE – A gente começou a Loft muito motivado por ver a frustração e a falta de transparência que você encontra no mercado imobiliário. E isso é muito parecido com o mercado de impressão (segmento da Printi). São segmentos totalmente diferentes, mas ao mesmo tempo muito parecidos no sentido de serem fragmentados, difíceis de navegar e cheio de ineficiências.

Com a Printi havia a ideia de construir um universo inexistente, o de gráficas de qualidade descomplicadas numa jornada totalmente digital. E com a Loft?
FLORIAN – A gente vislumbra revolucionar, por assim dizer, a experiência que é comprar e vender um imóvel.

Vocês pensaram a Loft a partir dessa ineficiência do segmento ou vocês pensaram a partir de um volume financeiro que esse mercado poderia gerar?
MATE – Eu diria que são ambas as coisas. Honestamente eu acho que a gente enxergou um potencial muito grande de criar um processo 100% digital de ponta a ponta, muito parecido com o processo que a gente tinha criado na Printi. Quando a gente olhou o mercado imobiliário, a gente viu uma oportunidade parecida, de digitalizar de ponta a ponta a cadeia, trazer precificação e agilidade, mas ao mesmo tempo também um mercado várias vezes maior do que o de impressão on-line. Então a gente abriu um cruzamento, uma combinação, tanto de eficiência quanto de tamanho absoluto, o que deixou a gente muito animado.

Quais são as linhas de negócios?
FLORIAN – Inicialmente a gente tem três linhas. Compra e venda de apartamentos próprios, intermediação de apartamentos dos nossos clientes pelo marketplace e um serviço de acesso a crédito imobiliário.

FLORIAN – A gente começou com esse modelo, mas sempre enxergando isso como um meio, e não como um fim. Porque no final o potencial de escala disso é relativamente limitado, seja geograficamente, seja do ponto de vista de intensidade de capital.

E qual seria, então, esse modelo de negócio na ponta final?
FLORIAN – O fim, efetivamente, do que a gente está construindo é uma plataforma digital de venda de apartamento análoga ao e-commerce. A gente tem dois pilares: apartamentos que são nossos, os que a gente compra, reforma e vende, e imóveis de terceiros, que a gente disponibiliza na nossa vitrine. Não é diferente de um marketplace como o da Magazine Luíza.

Em dois meses, a Loft captou mais de meio bilhão de dóalres. Onde será usado esse dinheiro?
MATE – O mais importante para a gente é que esses recursos vão ser utilizados pra continuar melhorando a experiência dos usuários, dos compradores, vendedores e corretores da nossa plataforma. No final se trata disso, utilizar os recursos para a melhoria de todo o ecossistema da cadeia de valor no mercado imobiliário.

FLORIAN – A gente também vai usar muito capital e recursos para captar novos talentos, especialmente na área de tecnologia. Temos 500 vagas a serem preenchidas ainda este ano [no total são 800 pessoas atualmente] e só em tecnologia a gente prevê mais de 100. A gente também vislumbra comprar mais apartamentos em São Paulo e Rio de Janeiro e, em breve, por que não, em outras capitais.

Em relação ao funcionário, o perfil do contratado, como isso está na Loft?
FLORIAN – Há o compromisso de público nosso de equidade de gênero, na companhia como um todo, até o final deste ano. Hoje esse número está em 44% de mulheres. Nas nossas áreas técnicas, as vagas de entrada na engenharia, são 100% restritas para grupos minoritários. Claro que isso não vai nos levar para um cenário de equidade a curto prazo, ou num cenário de equidade de liderança, que é algo que a gente gostaria também, mas se você pega na perspectiva de longo prazo, como é na Loft, isso ocorrerá. O capital serve para conseguir pensar a longo prazo também.

Gabriel Reis

“Acreditamos que pode existir um case de sucesso em que todos os que participam do ecossistema ganhem” Mate Pencz CEO e cofundador da Loft.

Equidade é um tema que tem sido questionado pelos investidores?
FLORIAN – Isso é uma questão que a gente enfrenta não só como companhia, como a Loft, mas que a gente enfrenta como sociedade. É uma questão efetivamente geracional, uma sociedade que cada vez mais busca respostas para esse tipo de questão, de equidade de gêneros, de raça, de igualdade de acesso, abertura para pessoas de vários perfis, de vários contextos. E não é diferente para a gente como companhia. Na questão de investimentos não existia nada formal, mas foram checadas várias questões de políticas internas da Loft relacionadas a esses temas.

Isso faz parte da construção de marca da empresa?
FLORIAN – Principalmente agora, com a visibilidade que a gente tem. A gente se posiciona como uma empresa propositiva, nesse sentido, e não reativa. Então a gente quer propor soluções, trabalhar, trazer algumas visões.

Quando vocês falam da jornada da pessoa que vai comprar ou vender um imóvel eu penso que se trata ainda de uma experiência difícil de ser feita 100% digitalmente. Uma coisa é a escolha de uma camiseta, outra é a do imóvel, até pelo valor envolvido.
FLORIAN – Hoje existem cinco dores principais nessa jornada. Segurança e confiança, de saber que você está fazendo um bom negócio. Previsibilidade. A gente já mapeou isso várias vezes, são dezenas, se não centenas de passos até conseguir efetivamente completar a transação. Transparência é o terceiro ponto. Todas as informações dos processos, dos documentos, devem ser fáceis de entender. Depois vem o atendimento, que precisa ser humanizado, porque a compra de um imóvel é uma decisão emocional. Por fim, a gente acredita também num conceito de personalização ou match, não tão diferente do Tinder.
MATE – Para a gente existe o imóvel certo para toda pessoa e, mais que isso, para aquele exato momento de vida dela.

De certa maneira esse quinto ponto é exatamente o que ainda mais me parece distante em soluções digitais que envolvam bens como um carro ou, no caso, uma casa.
MATE – É isso que a gente visa em fazer como plataforma. A experiência do e-commerce, em que você pega todos esses atributos. Isso já aconteceu no varejo, já aconteceu com eletrônicos, já aconteceu com serviços e a gente vê isso agora acontecendo no mercado imobiliário, que é no final a maior compra e a mais importante para uma pessoa, e que só acontece umas duas, três vezes na vida. Então essas são as principais dores, e eu acho que a tecnologia nos ajuda a ter acesso a isso.
FLORIAN – Eu diria que o quinto e também o quarto ponto, o atendimento humanizado.

Em que estágio a Loft está quanto a isso, ou o próprio segmento imobiliário digital?
FLORIAN – Vou usar uma analogia do consumo de música. Eu tinha uma coleção de CDs. Pegava um álbum e colocava no CD Player. A primeira onda de digitalização quando aconteceu quando a gente começou a consumir música através da internet, mas simplesmente ela replicou aquele consumo do CD no digital. Então você ia lá no iTunes. Quanto tempo demorou para surgirem soluções como o Spotify? Agora você consome um catálogo infinito de opções por algoritmos da tecnologia. Eu acredito que o consumo de moradia de imóveis se encontra na fase da transição do análogo para o digital.

Gabriel Reis

“O que a gente está construindo é uma plataforma digital de imóveis análoga a um e-commerce. Não é diferente do marketplace do magazine luiza” Florian Hagenbuch, CEO e cofundador da Lof.

O próximo estágio será qual?
MATE – A personalização.

FLORIAN – Imagina você poder testar o apartamento antes de comprar. Tecnologicamente, isso é algo possível de fazer. A gente não tem as respostas para todos esses desejos de consumo, mas a gente tem algumas hipóteses, e como plataforma, a gente vai começar a testar algumas dessas hipóteses daqui para frente. Inclusive sendo pioneira no mundo.

Esse é o legado que vocês querem deixar para esse mercado?
FLORIAN – Para mim o legado seria o de pioneirismo. Quero desbravar caminhos que possam ser seguidos por muitos outros empreendedores e empreendedoras.

MATE – Penso que pode existir um case de sucesso, criar uma empresa de alto impacto, e fazer disso algo compartilhado em que todo mundo que participa do ecossistema acaba ganhando. Existe uma beleza do capitalismo bem feito e buscamos isso. Ter sucesso por meio de um trabalho árduo e jogando um jogo 100% nas regras.