Edição nº 1100 14.12 Ver ediçõs anteriores

O estelionato das propostas eleitorais

O estelionato das propostas eleitorais

O novo temor na praça é o risco de um estelionato eleitoral. Investidores, banqueiros, empresários, todos temem o vendaval de informações desencontradas sobre o tipo de “plano econômico” que cada candidato pretende lançar caso assuma o Planalto. À esquerda e à direita, as propostas sofrem mutações constantes, se adaptam, mudam de cor e tendência ao sabor do ouvinte. E essa instabilidade é o que traz mais receio ao mercado. Na escala do líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, a ideia de resgate da CPMF surgiu e sumiu em um piscar de olhos após a reação negativa. Mas, na prática, ficou aquela pontinha de dúvida.

Será? No outro extremo, com Fernando Haddad, das hostes petistas, crescendo e se credenciando ao segundo turno, o medo da vez passou a ser o de um novo calote. Não se sabe se da dívida, da poupança, o que valha. Ele efetivamente não falou nada disso. Mas como a versão, nesses tempos belicosos, está contando mais que os fatos, de novo o clima foi de polvorosa. Haddad ensaiou um movimento de reaproximação das forças produtivas. Modelou o discurso para garantir o cumprimento de contratos, de projetos e das regras em vigor. Faltou firmeza.

Não convenceu. Bolsonaro, por sua vez, gravou vídeo e informou via interlocutores de que levará a cabo as reformas, ponto nevrálgico do ânimo de investidores. Ambos passaram a tratar com maior atenção o tema vital da Previdência e a criar sugestões de ajustes nesse sentido. Não há, seja em um caso ou no outro, depósito de confiança plena no que eles dizem. Por via das dúvidas, o capital estrangeiro está recolhendo posições. Há poucos dias foi registrada a maior saída de recursos de curto prazo dos últimos quatro anos. Se, por um lado, é previsível tal movimento às vésperas de eleições, por outro, reforça a impressão de incerteza para o futuro próximo.

Na linha das contas externas, o gordo colchão de reservas e o movimento, ainda positivo, do comércio exterior estão protegendo o Brasil contra as intempéries políticas e acomodando as especulações que já tomaram conta de vizinhos como a Argentina, por exemplo. Não é, decerto, o suficiente para que o País siga em céu de brigadeiro e receba, indefinidamente, o apoio e credibilidade lá de fora. Existe, na verdade, uma espécie de trégua. Um intervalo nas apostas. Caso o futuro mandatário não destrave logo a infraestrutura vital para a retomada, adotando as medidas necessárias mesmo que amargas, logo sentirá a resistência do mercado.

(Nota publicada na Edição 1089 da Revista Dinheiro)


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