Economia

O escudo é a economia

Em meio a denúncias que poderiam levar ao seu impeachment, o presidente dos EUA, Donald Trump, tenta capitalizar acordos comerciais e os bons números do PIB

Crédito: Mandel Ngan (AFP)

Fé nos números: para contrapor escândalos que o cercaram, o presidente Donald Trump exaltou resultados do PIB e deu ênfase nas vitórias obtidas na área comercial, como do Nafta (Crédito: Mandel Ngan (AFP))

Em sua trajetória no mundo corporativo, o empresário Donald Trump ficou conhecido por promover o conflito como estratégia de negociação, em que a controvérsia é levada ao limite para forçar o outro lado a sentar à mesa com propostas mais favoráveis. À frente da Casa Branca, o bilionário reproduz o estilo à risca, abusando da autoridade e da retórica, como se a gestão pública americana integrasse o plano de uma empresa, da qual ele é o CEO. Na vitória ou na derrota, o que mais importa é fazer barulho e deixar a sua imagem em foco.

É assim que Trump capitaliza uma vitória num acordo comercial. É assim também que ele se defende de acusações que poderiam levar a um eventual impeachment, por acusações de fraudes na campanha. “Eu não sei como você pode remover do cargo alguém que fez um ótimo trabalho”, afirmou o presidente em entrevista ao canal FOX, em 23 de agosto. “Se eu sofresse um impeachment, o mercado iria despencar e todos ficariam pobres. Pois sem este pensamento [apontando para a própria cabeça], vocês veriam números também inacreditáveis. Só que ao inverso.”

Novo nafta: setor aumotivo é vitrine das revisões feitas no acordo com o México. Na foto, fábrica da BMW, em San Luis Potosi, no vizinho latino

Os números a que ele se refere são os que confirmam a solidez da economia americana (veja tabela “A locomotiva do Tio Sam”), na esteira dos estímulos colocados ao longo dos últimos anos e potencializados pelo corte de impostos promovidos por Trump. Há mais de um ano, o crescimento trimestral do PIB tem ficado acima dos 2%, até alcançar um pico de 4,2% no período entre maio e junho – o número foi confirmado na quarta-feira 29, com a publicação do dado revisado do segundo trimestre. O país vive um cenário de pleno emprego, com a desocupação em 3,9%, o nível mais baixo em 15 anos. Além disso, a inflação, hoje o maior risco para a estabilidade do crescimento, está ainda controlada, próximo de 3%, pouco acima do alvo de 2% do banco central americano (Fed, em inglês). A economia virou um trunfo para as empreitadas políticas de Trump.

Sem trégua: nem a morte do senador John McCain acalmou os ânimos. Trump seguiu o pedido do político de não comparecer às homenagens e contentou-se a mandar pêsames pelo Twitter (Crédito:AFP Photo / Robyn Beck)

O método de negociação do empresário é replicado com clareza nas revisões de grandes tratados comerciais e nas ameaças de tarifas sobre produtos importados. O caso mais recente é do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês), firmado em 1994, entre EUA, México e Canadá. Na segunda-feira 27, o presidente anunciou ter conseguido um acordo, ainda não totalmente claro, com o parceiro latino para revisar os termos do tratado. Em princípio, parecem revisões pontuais. Para o presidente, mais vale é colher os dividendos. “Os Estados Unidos finalmente viraram a página de décadas de acordos comerciais injustos”, afirmou. O tema deve ser usado como argumento nas eleições legislativas de novembro, em que o Partido Republicano buscará manter a maioria no Congresso.

Não por acaso, uma das principais alterações deve ser num dos setores de maior apelo ao público americano: o automotivo. A ideia é elevar de 62,5% para 75% o percentual dos componentes que tem de ser comprados no bloco. Eles também devem ser feitos por ao menos 40% de mão de obra que ganhe ao menos US$ 16, o que favorece os empregos nos Estados Unidos. No mais claro estilo Trump, ficou de fora o Canadá, numa tentativa de forçar que o parceiro do norte se submete a revisões propostas pelos americanos. “Trump está trabalhando diretamente a partir de sua cartilha de negócios”, afirma Paul Ashworth, economista da consultoria Capital Economics. “Primeiro, isolando o Canadá, e agora com o anúncio de que pretende rescindir em seis meses o Nafta atual, permitindo já as tarifas sobre automóveis canadenses”.

As incertezas abrangem bem mais do que os países vizinhos. Há riscos até para o Brasil. “Cria-se, sem dúvida, mais um problema de confiança no mercado”, diz Lia Valls, economista da Fundação Getulio Vargas. O alvo principal seria o setor de autopeças, caso haja um incremento proposto na regra de origem. O México é hoje o terceiro maior consumidor de componentes automotivos brasileiros, com compras de cerca de US$ 500 milhões, ou 11% do total das exportações. O maior alvo desse jogo empresarial de ameaças, no entanto, não é nem o Canadá ou Brasil, e sim a China. No dia 23 de agosto, US$ 16 bilhões de produtos chineses, que incluem lâmpadas, peças LED e tratores, passaram a ser sobretarifados em 25%. Outros US$ 34 bilhões já haviam sido alvo de barreiras comerciais em julho. Os efeitos das medidas para o país asiático ainda não foram calculados.

Ex-escudeiro: o advogado Michael Cohen confirmou ter comprado o silêncio de amantes de Donald Trump em nome do seu cliente. Suspeita é de crime eleitoral (Crédito:AFP Photo / Eduardo Munoz Alvarez)

A retórica protecionista é só um dos elementos usados pelo presidente para se fortalecer internamente. São os bons números da economia que garantem o maior eco da sua gestão. A previsão é que o PIB cresça 2,9% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Economistas, porém, vêm alertando para o risco dos estímulos adicionais adotados por Trump num momento de forte aquecimento. Se a inflação supreender, o banco central será forçado a elevar com mais intensidade e rapidez os juros, provocando uma brusca freada na atividade.

“O ano que vem deve mostrar resultados mais modestos e Trump deve perder parte de seu trunfo”, afirma Gregory Daco, economista da consultoria Oxford Economics. O cenário seria agravado caso ele mantenha a bravata comercial. Com o Canadá fora da zona livre de negociação, a consultoria estima uma queda de 0,05% no PIB. A administração Trump até parece ter começado a aliviar sua estratégia protecionista. Anunciou, na quarta-feira 29, que empresas americanas podem pedir a isenção das sobretaxas sobre aço importado, caso demonstrem baixa quantidade ou qualidade do produto entre os fabricantes dos EUA. Hoje, o aço brasileiro recebe 25% de sobrepreço para entrar no país.

Complô Russo?: Paul Manafort, ex-gerente de campanha de Trump, é acusado de ser uma das ligações do presidente com os russos. Manafort foi condenado por evasão de dívisas (Crédito:AFP Photo / Mandel Ngan)

IMPEACHMENT Sem o escudo de uma economia vigorosa, Trump ficaria mais sujeito às acusações de fraudes cometidas por seus assessores mais próximos, confirmadas recentemente. O ex-advogado do presidente, Michael Cohen, admitiu que, em 2016, pagou a duas ex-amantes do magnata, entre elas a ex-atriz pornô Stormy Daniels, para que os casos não viessem à tona. A suspeita é que a origem dos recursos seja o caixa de campanha do presidente. Trump nega as acusações. Um inquérito federal, conduzido pelo promotor federal Robert Mueller, investiga ainda possíveis ligações entre Paul Manafort, ex-gerente da campanha de Trump, com membros do governo russo e se isso também teve influência no resultado da votação. Manafort foi condenado, em um processo independente, por fraude e evasão de divisas, no dia 21 de agosto.

Opinião pública: a ex-atriz pornô, Stormy Daniels, teria recebido US$ 130 mil para não tornar seu caso público e não manchar a imagem de Trump nas eleições de 2016 (Crédito:Tara Ziemba/Getty Images/AFP)

De acordo com a constituição americana, um presidente pode sofrer o processo de remoção do cargo caso cometa “traição, suborno ou outros crimes e delitos graves” (veja quadro abaixo). O pagamento em si e relações com estrangeiros não são um crime, mas poderiam configurar fraude eleitoral, um dos delitos considerados graves, por influenciar a opinião pública e, por consequência, as eleições de 2016. O tema ainda é tratado com cautela entre os Democratas, mas com as eleições legislativas se aproximando e uma possível nova configuração no Congresso, o partido da oposição pode ganhar a maioria, cenário em que as chances da retirada de Trump ficariam ainda mais fortes. Nem a morte do colega de partido, o senador do estado do Arizona, John McCain, inspirou uma mudança de tom dos dois lados.

Importante nome entre Republicanos por ser um contraponto à política agressiva de Trump, McCain expressou, antes de morrer, não querer a presença do mandatário em homenagens póstumas. O presidente seguiu seu desejo e foi criticado por exibir somente demonstrações secas de condolências, via Twitter. Sem trégua, Trump decidiu gritar ainda mais alto. Sobrou até para o Google. “Quase todas as histórias e notícias [mostrados no buscador] são ruins.” A estratégia parece seguir firme na exaltação dos bons números. “Quando assumi, [o PIB] estava em 1% e estava caindo”, afirmou o presidente na quinta-feira 23. “Se Hilary [Clinton] e os Democratas tivessem vencido em 2016, estaríamos em queda.” Até quando o argumento será válido?