Negócios

O E-commerce acelera

Antes um nicho no comércio eletrônico, a venda de carros pela internet e por aplicativos ganha tração e movimenta bilhões de reais no País

O E-commerce acelera

Quando a brasileira Webmotors foi fundada em 1995, a internet ainda engatinhava no Brasil e no mundo, a companhia decidiu apostar na atmosfera digital para facilitar a compra e venda de veículos. Mais de 23 anos se passaram desde então e, ao contrário de muitas iniciativas comerciais que implodiram com a bolha do pontocom, a empresa fundada por Sylvio Alves Netto se consolidou como uma senhora startup no País. A gigante brasileira do e-commerce automotivo aposta em segurança e tecnologia para se manter relevante em um negócio que já atraiu a atenção dos titãs do comércio eletrônico, como Mercado Livre e OLX.

Com uma média de 25 milhões de acessos mensais e mais de 480 mil veículos disponíveis para venda, a Webmotors tem números que impressionam, mas que não lhe garantem o lugar mais alto no pódio do e-commerce automotivo. Pelo menos, no número de anúncios. A liderança é da rival OLX — que, no Brasil, é fruto uma parceria entre os grupos sul-africano Naspers e norueguês Schibsted —, com quatro vezes mais ofertas em sua plataforma. Diferentemente do que se possa pensar, contudo, esse número parece pouco importar nos corredores da empresa sediada em São Paulo. “Eles (OLX e Mercado Livre) não cobram do vendedor. Isso gera uma total falta de controle”, diz Claudia Woods, CEO da Webmotors.

Claudia Woods, CEO da Webmotors: “Temos uma plataforma para intermediar toda a negociação e garantir segurança a quem compra e a quem vende”

De acordo com a executiva, como não há qualquer custo para o anunciante, muitos anúncios exibidos nas plataformas rivais são duplicados. “Eu poderia subir cinco vezes o mesmo anúncio”. Para evitar que isso aconteça, a Webmotors cobra taxas de seus anunciantes. Em troca, oferece serviços que prometem maior segurança na hora de negociar um veículo pela internet. “Temos um processo de checagem de fraude e uma plataforma para intermediar toda a negociação como forma de garantir mais segurança ao comprador e ao vendedor.” Uma dessas ferramentas é a plataforma de pagamentos Autopago. Lançada em outubro, ela cobra uma alíquota de 1,5% sobre o valor da venda do carro. Em troca, a Webmotors oferece mais segurança na negociação. O site faz a verificação da documentação das partes, emite um boleto para o pagamento do veículo e mantém o dinheiro em juízo, até que o automóvel seja vistoriado pela empresa e todo o trâmite cartorário seja resolvido.

GESTÃO DE VENDA Apesar de não revelar números, a companhia informa que obteve um crescimento de 64% em seu EBITDA em 2018. Atualmente, a operação da Webmotors é dividida entre o banco Santander, que detém 70% do negócio, e a empresa australiana Carsales.com. Em 2013, o grupo com sede na Oceania pagou US$ 180 milhões por uma fatia minoritária da startup brasileira. Melhor ainda poderá ser em 2019. Se segurança e tecnologia pautaram os últimos anos da empresa, a palavra-chave para este ano é consolidação. “Há uma curva de adoção para essas novas ferramentas”, destaca Woods. “Queremos consolidar esses produtos de gestão no mercado”, afirma a executiva. O que também pode ser consolidado é uma expectativa de crescimento de 60% nos negócios.

Giselle Tachinardi, diretora de veículos da OLX: “Temos 2 milhões de anúncios de automóveis. É a nossa principal categoria”

Esse plano leva em conta os bons números que o setor deve registrar com o fechamento de 2018. Uma pesquisa realizada pela E-Consulting apontou que as transações de compra e venda de veículos e de peças automotivas pela internet poderiam crescer 14,3% entre os meses de janeiro e dezembro do ano passado. Isso significa que, em 2018, o e-commerce automotivo deve ter faturamento próximo a R$ 15,2 bilhões no País. A cifra representa um expressivo crescimento em relação a 2017, quando a mesma indústria faturou R$ 13,3 bilhões. Se os números aumentam, a competição também fica bem mais acirrada.

Apesar de ser o pioneiro e o mais relevante classificado online focado somente em veículos, a Webmotors não está sozinha na pista. Controlada em partes iguais por Naspers e Schibsted, a OLX vem acelerando seus negócios no Brasil desde 2010. Dos mais de 10 milhões de anúncios da plataforma, cerca de 2 milhões são categorizados como automóveis. Como não se trata de uma plataforma exclusiva ao segmento, o número ganha relevância. “É a nossa principal categoria”, diz Giselle Tachinardi, diretora de veículos da empresa, que diz ter registrado alta de 240% na receita obtida com os anúncios automotivos publicados na plataforma em 2017. Questionada, a OLX não revela seu faturamento, mas diz que “continua crescendo a uma média de 100% ao ano.”

Todos no digital: em menos de um ano, a Renault, do CEO Luiz Pedrucci (à esq.) vendeu mais de 13 mil unidades do Kwid pela plataforma virtual criada em parceria com a SAP. Já o Mercado Livre, comandado por Stelleo Tolda (à dir.) teve quase 220 mil anúncios de carros e motos, em dezembro

A aposta para fazer seus concorrentes comerem poeira se dá numa estratégia diferente de sua principal rival no Brasil. Não há cobrança de comissão das vendas dos produtos ofertados. Em vez disso, o serviço que nasceu em Amsterdã, na Holanda, em 2006, obtém receita ao cobrar pela impulsão de anúncios dentro do marketplace. “Tentamos ser uma plataforma, no máximo em que podemos, gratuita”, diz Tachinardi. Para não afastar os anunciantes, apenas os vendedores profissionais pagam taxas pelos anúncios. Nessa categoria estão enquadradas pessoas ou empresas que comercializam mais de um veículo por mês, o que corresponde a 30% dos automóveis ofertados na OLX.

A empresa injetou R$ 200 milhões em sua operação brasileira — 21% a mais do que em 2017. Um dos destinos do dinheiro foi a criação do AutoShift, uma plataforma dedicada à venda de carros novos e usados e que conta apenas com anunciantes profissionais. Na mesma linha da OLX está o Mercado Livre. Com faturamento de quase US$ 1,4 bilhão em 2017, a maior plataforma de vendas pela internet da América Latina tem números mais modestos no e-commerce automotivo em relação ao seu concorrente. Em 19 de dezembro, o marketplace comandado por Stelleo Tolda listava 218 mil anúncios de carros e motocicletas. Procurada pela reportagem para comentar a sua atuação no segmento, a companhia não retornou os pedidos de entrevista.

Loja virtual: desde 2016, a francesa Citroën vende os modelos C3 e Aircross na web, por meio da plataforma St@rt

NOVOS PLAYERS Não são apenas as grandes varejistas digitais que estão de olho no mercado automotivo. Quem produz os carros também não quer ficar para trás. É o caso da Citroën. Desde 2016, a companhia francesa opera digitalmente com a plataforma St@rt para vender os modelos C3 e Aircross. Outra francesa que também aposta na venda pela internet é a Renault. Em janeiro passado, a montadora firmou parceria com a desenvolvedora de softwares SAP para dar início ao K-Commerce, um programa de comércio eletrônico especializado na venda do modelo Kwid.

Pela plataforma, o consumidor escolhe o modelo do automóvel e, se desejar, personaliza com acessórios. Depois, realiza o pagamento via boleto bancário e determina o local onde o carro será retirado. A entrega é feita em até oito dias úteis nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Em pouco menos de um ano, mais de 13 mil automóveis foram comercializados virtualmente. Um índice e tanto, já que se trata de quase um terço da frota do modelo que saiu das lojas em 2018.