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Após a prisão de seu fundador, a Pague Menos enfrenta um dilema

A prisão de Deusmar Queirós, fundador da rede de farmácias, pode postergar, mais uma vez, a abertura de capital da companhia

Crédito: Daniel Wainstein / Valor

Sob risco: o prospecto preliminar do IPO, de 2012, quando Deusmar Queirós era o CEO da rede, já citava o impacto de eventuais condenações (Crédito: Daniel Wainstein / Valor )

Desde 2012, Francisco Deusmar Queirós, fundador da Pague Menos, vem protelando o plano de levar a companhia à Bolsa de Valores. Nesse intervalo, não foram poucas as vezes em que ele reforçou essa intenção para, tempos depois, postergar a abertura de capital da terceira maior rede de farmácias populares do País, dona de um faturamento de R$ 6,3 bilhões. Agora, um novo fator, fora do seu controle, pode contribuir para adiar a oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da empresa – a expectativa do mercado é que o movimento acontecesse até 2019. Com 57% das ações da operação, o empresário cearense foi preso em Fortaleza em 8 de setembro por crimes contra o sistema financeiro nacional. Condenado em segunda instância a 9 anos e 2 meses de prisão em regime fechado, ele se entregou as autoridades, foi liberado três dias depois, mas teve o habeas corpus revogado pelo STJ. Até segunda ordem, Deusmar aguarda o julgamento de recursos em liberdade.

O problema com a Justiça é antigo. De acordo com o processo, entre 2000 e 2006, Deusmar operou na Bolsa por meio de duas corretoras , a Renda Corretora e Mercadorias e a Pax Corretora de Valores e Câmbio – que não tinham autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Outros três sócios das empresas foram condenados pela atividade conhecida como “garimpagem de ações”. Na prática, eles compravam papéis de pessoas físicas fora da Bolsa a um preço inferior para revendê-las pelo preço normal de mercado. Segundo a denúncia, o quarteto lucrou ao menos R$ 2,8 milhões. Procurado, Deusmar não retornou os contatos da DINHEIRO.

Diante do episódio, o empresário renunciou ao cargo de presidente do Conselho de Administração da Pague Menos e foi substituído por seu filho, Mário Queirós, que até então atuava como diretor-presidente da companhia. “O processo não possui qualquer relação com a rede”, diz Marcelo Leal, um dos advogados de defesa do patriarca e fundador. O diretor financeiro da Pague Menos, Luiz Renato Novais, faz questão de enfatizar que a prisão não afeta os negócios, pelo fato de que a condução da operação já está nas mãos de Mário Queirós e de outros diretores desde janeiro de 2016. Ele também não vê riscos para uma eventual abertura de capital. Mas aponta outros fatores para segurar, novamente, esse processo. “Ainda vai levar um tempo para chegarmos ao ponto de crescimento ideal para o lançamento do IPO”, diz Novais. “Tudo vai depender do cenário macroeconômico e do resultado das eleições.”

Apesar de ressaltar que o caso não traz nenhum prejuízo, o prospecto preliminar do IPO, enviado à CVM em 2012, dizia exatamente o contrário. O relatório cita que eventuais decisões judiciais desfavoráveis contra seus administradores poderiam abalar a empresa. “Dependendo do desenvolvimento desses processos criminais, nossa reputação perante clientes, fornecedores e investidores poderá ser afetada adversamente”, diz o documento.

Essa visão é compartilhada por fontes consultadas pela DINHEIRO. “O Deusmar criou um estoque de credibilidade ao longo dos anos, mas em uma situação como essa, é claro que esse crédito tende a cair”, diz Silvio Laban, especialista em varejo do Insper. No momento, desvincular a imagem do fundador parece ser a melhor estratégia, levando-se em conta que existem investidores mais conservadores no mercado. “Ter a liderança associada com algo ilícito pode ser um fator a mais para o adiamento do IPO”, afirma Jorge Vieira, professor da ESPM. Os próximos capítulos indicarão se os planos serão concretizados. Mas, ao que tudo indica, a abertura do capital da Pague Menos deve ficar de lado. Mais uma vez.