Negócios

O dilema da carne suína

A ONG Mercy For Animals denuncia caso de maus tratos a animais na Aurora Alimentos e lança campanha contra os métodos de produção da indústria brasileira de porcos

Um funcionário de uma granja raspa os dentes de um leitão, que grita sem parar. Ao seu lado, uma porca observa o procedimento, também aos gritos. Para quem não está familiarizado com os métodos de produção de carne suína, a cena é chocante. As imagens constam em um vídeo, obtido com exclusividade pela DINHEIRO, gravado pela ONG Mercy for Animals, que advoga em favor do bem estar animal – inclusive incentivando o veganismo. Ele foi produzido por um funcionário da organização, que se infiltrou entre os trabalhadores de uma cooperada da Aurora Alimentos, uma das maiores cooperativas agrícolas do Brasil, com R$ 8,5 bilhões de faturamento e 72 mil famílias associadas, na cidade de Xanxerê (SC). Em outra tomada, é possível ver as chamadas celas de gestação, onde as fêmeas são confinadas. O espaço é tão pequeno que não permite, sequer, que elas se virem para o lado. Algumas mordem as barras de ferro insistentemente. “É um sofrimento terrível”, afirma Lucas Alvarenga, vice-presidente da Mercy for Animals no Brasil. “Essas práticas não estão alinhadas com a tendência mundial, que é de acabar com as celas de gestação.”

Na terça-feira 28, a ONG apresentará uma denúncia contra esse tipo de prática. Ao mesmo tempo, lançará uma petição solicitando ao Grupo Pão de Açúcar (GPA), maior varejista brasileiro, que se comprometa a não comprar mais carne de porco de fornecedores que utilizem as tais células. “Focamos no GPA em virtude do tamanho e da importância da empresa, mas o ideal é que todos os varejistas tenham a mesma atitude”, diz Alvarenga. Banir esse tipo de criação de porcos de suas compras é algo que grandes empresas alimentícias e cadeias de restaurantes, como Nestlé, McDonald’s e Burger King já fizeram em escala global, mas não foram acompanhadas pelas redes de varejo nacionais.

A ação da ONG acontece em um momento delicado para a indústria brasileira de proteína animal. Na semana passada, a Rússia anunciou uma restrição temporária à compra de carne suína e bovina do Brasil, em virtude da suposta presença de estimulantes de crescimento, como ractopamina, nos produtos. O país é o principal destino internacional da carne de porco brasileira, respondendo por quase 40% das exportações nacionais, que superaram os R$ 4,7 bilhões no ano passado. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) afirma que não há estimulantes na carne exportada. No setor de bovinos, as práticas de criação já são mais adequadas no Brasil. O setor de aves também passa por uma modernização. De qualquer forma, é uma mostra de como a pressão internacional pode afetar o setor. E, ao que tudo indica, restrições do tipo poderão acontecer no caso das celas de gestação.

O uso dessas celas é polêmico. Elas começaram a ser introduzidas na indústria de suínos na década de 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial. “As porcas grávidas, na disputa por alimentos, acabam brigando e machucando umas às outras”, afirma o professor Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal. “O que, na época, não se levou em consideração são as consequências desse confinamento ao animal.” Segundo informações do Mapa, porcos são animais gregários, ou seja, tendem a formar grupos de convívio. Eles organizam seu habitat de forma natural, separando áreas de alimentação, descanso e defecação.

A não observância dessas características cria problemas de comportamento que, posteriomente, são equacionados pelos produtores com ainda mais violência, como corte de rabo, restrição de movimentos, entre outros. O professor explica que o contexto, na década de 1950, era o de produzir alimentos no pós-guerra. A questão do bem estar animal nem era levada em consideração. O assunto começou a ganhar importância a partir de 1964, quando a britânica Ruth Harrison publicou o livro “Animal Machines”, que mostrava a dura realidade da criação intensiva de animais. A partir de então, começou a surgir um forte movimento global demandando um tratamento mais adequado aos animais de abate. “Estamos entrando em um momento de conflito, no qual as ONGs pressionam cada vez mais, e os produtores tentam defender seus modelos de produção”, afirma o professor.

Crueldade: as celas de gestação usadas por granja cooperada da Aurora, que foram registradas em vídeo gravado pela ONG Mercy for Animals, do vice-presidente Lucas Alvarenga

Esse parece ser o caso desse novo embate entre a Mercy for Animals e os suinocultores. Em nota, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa os granjeiros, diz que “não é correto afirmar que o Brasil está atrasado em relação ao tema ” Segundo a ABPA, as maiores empresas do setor já assumiram o compromisso de extinguir a prática, dentro de um prazo pré-estabelecido. De fato, BRF, Aurora e JBS, os três maiores do País, já disseram que vão abolir as celas, até 2026. O frigorífico Frimesa estabeleceu o mesmo prazo. A ABPA afirma, ainda, que não existe legislação em nenhum país produtor sobre esta prática. “Esta é uma questão que parte da imposição de determinados grupos empresariais”, diz a nota.

Não é bem assim. A prática já foi banida em, pelo menos, dez Estados americanos, no Canadá, na Nova Zelândia e é condenada, também, pela União Europeia. Maior produtor de carne suína do mundo, o grupo americano Smithfield eliminará as celas de gestação em suas operações nos Estados Unidos até o final deste ano. Nas operações internacionais, o prazo é até 2022. O Brasil possui cerca de 1,7 milhão de matrizes – como são chamadas, no jargão da indústria, as porcas reprodutoras. Um levantamento da Mercy for Animals aponta que 84% delas são criadas em celas de gestação. “Sabemos dos compromissos firmados pelas empresas. Mas, no caso da Aurora, entendemos que pouco foi feito”, diz Alvarenga, vice-presidente da ONG.

Há um ponto importante nessa discussão que são os motivos que levam os produtores a adotarem práticas tão dolorosas aos animais. Segundo o professor Paranhos da Costa, da Unesp, os dentes dos leitões são cerrados, por exemplo, para evitar que eles machuquem as mães durante a amamentação. “No entanto, já é comprovado que isso só acontece quando não há leite. E a falta de leite ou é resultado da má alimentação, ou da falta de capacidade da porca em dar conta do tamanho da prole, o que não deveria acontecer”, diz ele.

Também já existem tecnologias para evitar as brigas entre porcas gestantes, como sistemas automáticos de alimentação, em que os animais são separados somente na hora da comida. Ou mesmo celas abertas, em que as porcas entram no espaço confinado apenas quando querem. “É importante ressaltar que se trata de uma mudança no sistema produtivo e que leva algum tempo para as empresas se adaptarem”, diz o professor. “Mas já temos métodos mais avançados.” O governo brasileiro, inclusive, tem incentivado a mudança. Segundo Lizié Buss, chefe de divisão da coordenação de boas práticas e bem-estar animal do Mapa, desde 2014, há um trabalho para ampliar a adoção da gestação coletiva de matrizes suínas. Em 2015, o Mapa firmou um protocolo de intenções com a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos para fomentar boas práticas agropecuárias e o bem-estar animal. Nos últimos anos, mais de mil produtores foram capacitados em fóruns promovidos pelo ministério.

São iniciativas importantes para que o Brasil não sofra novas sanções. Mas o risco não é só de perder exportações. O País é o quarto maior produtor de suínos global, com um abate de 46 milhões de cabeças. Mais de 80% da produção é destinada ao mercado interno. É consenso na indústria que a questão do bem estar animal deve ganhar relevância. Essa preocupação é evidenciada pelo crescente número de empresas que estão banindo, não só as celas de gestação de suínos, mas também o uso de gaiolas na avicultura.

Isso inclui o GPA, que será o alvo da petição da Mercy for Animals. Em nota, a rede varejista afirmou que conta com uma política de bem-estar, alinhada com o Código Sanitário da Organização Mundial da Saúde Animal. Sobre a questão dos porcos, a empresa ressalta que os principais fornecedores já estão comprometidos a extinguir as gaiolas. O gruponão informou se vai acatar a petição da ONG. O fato é que o cenário atual é bem diferente do encontrado na década de 1950. E nenhuma indústria pode se dar ao luxo de manter práticas antigas, ainda mais quando elas são questionáveis. Procurada, a Aurora não se pronunciou, mas endossou o posicionamento da ABPA. Já o frigorífico JBS preferiu não se posicionar. A BRF não respondeu à solicitação da DINHEIRO.