Negócios

O dia de cão do Carrefour

Horas depois de anunciar investimento de R$ 2 bilhões, a rede enfrenta uma crise de imagem por conta da agressão e morte de um cachorro

Crédito: Valor Econômico

SEMANA AGITADA: um ano após assumir o Carrefour Brasil, o francês Noël Prioux tem de enfrentar movimentos de boicote na internet (Crédito: Valor Econômico)

SEM FILAS: loja do Carrefour no Jardim Pamplona Shopping foi a primeira da rede a contar com autoatendimento para dar fluidez às filas (Crédito:Walter Craveiro)

Era tarde da segunda-feira 3. Os principais executivos do Carrefour Brasil se reuniam no restaurante de culinária uruguaia Las Leñas, localizado no rooftop do Jardim Pamplona Shopping, pomposo empreendimento do Carrefour Property em São Paulo. O clima de festa tomava conta do ambiente. A empresa contabilizou um crescimento consistente em 2018. De janeiro a setembro, a rede alcançou receita de R$ 40,5 bilhões, 6,5% a mais que o mesmo período do ano anterior. O lucro líquido ajustado avançou 40%, para R$ 1,12 bilhão. Para celebrar os bons resultados, a varejista reuniu a imprensa e anunciou metas para 2019. No pacote, um investimento de R$ 2 bilhões para a expansão do grupo, com a abertura de 20 lojas do Atacadão, além de novas unidades das bandeiras Express e Market, cujos formatos estão passando por uma fase de reestruturação. Também houve projeções para o curto prazo. “Se o Natal gerar alta de 4% a 5% nas vendas, será muito bom”, disse, com sorriso no rosto, o francês Noël Prioux, CEO do Carrefour Brasil desde outubro de 2017.

INOVAÇÃO: “Retire de Carro”, implementado em dez hipermercados, permite que o cliente retire suas compras sem precisar entrar na loja (Crédito:Walter Craveiro)

Mas o sorriso durou pouco. No mesmo dia, horas depois do evento, um vídeo gravado em 28 de novembro mostrava um cão de rua sendo espancado e, segundo denúncias, também envenenado por um dos vigilantes terceirizados de um hipermercado Carrefour em Osasco, na Grande São Paulo.

Na época, o Departamento de Fauna e Bem Estar Animal da Prefeitura de Osasco foi acionado e prestou socorros, mas encontrou o animal com escoriações múltiplas e em um estado de sangramento avançado. Apesar do pronto atendimento, o ataque resultou na morte do animal. O caso ganhou repercussão nas redes sociais e gerou um movimento de boicote ao Carrefour.

Em nota, o Carrefour reconheceu a gravidade do ocorrido e disse que é o maior interessado para que todos os fatos sejam esclarecidos. “Desde o início da apuração, o funcionário da empresa terceirizada foi afastado. Qualquer que seja a conclusão do inquérito, estamos inteiramente comprometidos em dar uma resposta a todos”, afirmou a empresa, que estuda criar uma nova política organizacional para a proteção e defesa dos animais em parcerias com organizações não governamentais (ONGs) e entidades dedicadas ao bem estar animal. “Com as redes sociais, a repercussão e a abrangência são muito maiores. As pessoas são mais sensíveis em relação a animais, crianças e ao meio ambiente”, diz Patricia Teixeira, especialista da consultoria de gerenciamento de crises We Plan Before.

MANCHINHA: o cão foi espancado e morto por um funcionário terceirizado do Carrefour em Osasco (SP), o que gerou protestos nas redes sociais e boicotes de consumidores (Crédito:Divulgação)

A despeito da crise de imagem, a empresa não deve arrefecer os esforços para colocar em prática o seu plano de transformação para 2022. Líder no varejo alimentar brasileiro, o Carrefour adquiriu a e-Midia, startup focada em conteúdo digital – que controla os portais Cyber Cook, Vila Mulher e Mais Equilíbrio –, em uma negociação informada em novembro, cujo valor não foi divulgado. A ideia, com isso, é estimular hábitos de alimentação mais saudáveis por meio de uma oferta multicanal. “Queremos aprender mais do consumidor para que possamos oferecer mais também”, afirma Prioux.

Para avançar no plano de transformação digital, um dos focos da varejista é conseguir firmar mais parcerias com startups para levar inovação aos pontos de venda. “As startups te permitem ganhar tempo. Não podemos fazer tudo sozinhos”, diz o CEO.

DRIVE THRU Neste mês, o Carrefour começa a testar o sistema “Scan and Go”, que permite o escaneamento e o pagamento dos produtos através do aplicativo móvel da empresa. O modelo será testado em algumas unidades do Carrefour Express, bandeira de conveniência do grupo. Enquanto isso, dez hipermercados já operam com um modelo pioneiro no mercado: o “Retire de Carro”. Nesse método, parecido com um drive-thru, o consumidor consegue retirar suas compras em uma estrutura construída no estacionamento das lojas. “Nem sempre ou quase nunca o Carrefour é o primeiro a lançar uma nova tendência de mercado”, diz Fernando Cardoso, head de food service da AGR Consultores. “A empresa não prima pela inovação de conceitos, mas consegue executar melhor e ter mais profundidade no ponto de venda.” Resta saber como Prioux, que tem 35 anos na empresa, conseguirá recuperar a reputação do Carrefour no Brasil, um mercado estratégico para a companhia.