O desastre na política externa

O desastre na política externa

Não são poucos, nem baratos, os erros que vêm sendo cometidos pelo Governo, rotineiramente, na área de comércio exterior – frutos de entendimentos equivocados nos quais o parceiro entra com sorrisos e tapinhas nas costas enquanto o Brasil entrega o que tem de vantagem nesse campo. Foi assim com a desistência verde-amarela da condição de país em desenvolvimento na OMC (que lhe permitia certos benefícios nas negociações), em troca do apoio dos EUA a uma candidatura na OCDE, e mais uma vez se repetiu nas tratativas que Bolsonaro entabulou com o premier israelense Benjamin Netanyahu dias atrás. Para agradar parcialmente ao colega, o mandatário brasileiro anunciou a criação de um escritório comercial naquela que é considerada a Terra Santa para ao menos três religiões – judaica, mulçumana e católica.

Foi decerto menos que a decisão, anunciada ainda durante a campanha eleitoral de Bolsonaro, de transferir a embaixada de Tel Aviv para lá, o que provocaria confusões de natureza diplomática sem precedentes. Mesmo assim, o gesto de abrir uma base de operações em Jerusalém – o que significa, na prática, um início de reconhecimento da cidade como capital de Israel – conseguiu a proeza de desagradar a todos, com risco de prejuízos efetivos. Netanyahu não ficou plenamente satisfeito, já que esperava mais, e os povos árabes partiram para os protestos abertos e insinuações de eventuais retaliações comerciais no futuro.

Vale lembrar que, atualmente, a balança comercial do Brasil com Israel gira na casa dos US$ 300 milhões de dólares/ano, enquanto com a liga árabe esses negócios ultrapassam a cifra de US$ 10 bilhões/ano. Na ponta do lápis, a decisão de provocar esse respeitável cliente representou um tiro no pé. Dezenas de associações comerciais representativas dos palestinos redigiram uma carta de reclamações. O embaixador foi chamado de volta para dar explicações, iniciativa formalmente compreendida como de descontentamento, e os árabes ainda avisaram que vão estudar a possibilidade de trocar importações de mercadorias do Brasil pela de produtos da Índia. Nessa conta estão inseridas encomendas de carne bovina, frango, soja e milho.

Analistas já dão como certo, em breve, o impacto negativo no comércio de exportadores brasileiros para aquela região. E tudo por um capricho ideológico do presidente Bolsonaro. A Liga conta com 22 nações ao todo e vários fornecedores, entre eles Turquia, EUA e Argentina, brigam ferozmente para arrancar um naco da fatia de mercado controlada por fabricantes nacionais. Abrir esse flanco de atritos foi o pior dos mundos em se tratando de política externa, uma improvisação tática, mal calculada, com prejuízos previsíveis. É muita inexperiência combinada a decisões doutrinárias inconsequentes.

(Nota publicada na Edição 1115 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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