Edição nº 1138 16.09 Ver ediçõs anteriores

O custo do caos

O custo do caos

Será impossível fazer no curto prazo a contabilidade das perdas causadas por aquele que foi talvez o mais traumático apagão logístico operacional vivido no País em sua história. Mas alguns números assustadores demonstram que a conta é bilionária e vai muito além das concessões oferecidas pelo Governo, contaminando indiscriminadamente inúmeros setores. Aos benefícios de isenção fiscal, que somam R$ 13,2 bilhões até o final do ano, acrescentam-se prejuízos alarmantes em toda a cadeia produtiva. Somente o agronegócio, de acordo com a Confederação Nacional de Agricultura, calcula um descarte de mais de R$ 6,6 bilhões em alimentos.

Especificamente a atividade leiteira jogou pelo ralo algo como R$ 1,2 bilhão. A indústria têxtil fala em um buraco de R$ 1,9 bilhão registrado durante os dias de greve dos caminhoneiros, com 70% das empresas suspendendo a sua produção. No setor aéreo, a aviação comercial amargou prejuízos diários de R$ 50 milhões entre cancelamentos de voos e pousos técnicos para abastecer. Foram perto de 300 voos cancelados. Seria por demais exaustivo listar quantos e em que medida os elos da cadeia produtiva foram afetados nesses tenebrosos dias de paralisação. Mais fácil ater-se ao impacto que tal blecaute das atividades pode vir a gerar sobre o PIB nacional. Porque ele virá e de maneira contundente.

Antes mesmo de sua apuração, o Produto Interno Bruto teve as estimativas revistas. Para baixo. Governo e mercado agora falam em algo em torno de 2% depois de iniciar o ano calculando pelo menos 3%. A economia não avançou no ritmo esperado. Está longe do estancamento sofrido nos anos de recessão entregues por Dilma Rousseff. Mas da mesma forma está ainda aquém do necessário para o equilíbrio das receitas. Em outras palavras: a chama do desenvolvimento não se apagou. Está menor. Pode ter impacto sério dessa temporada de caos, embora siga uma trajetória de recuperação consistente. Tudo vai depender das expectativas dos empresários e do mercado. A confiança ficou decerto afetada.

O temor da eleição, dada à indefinição de candidaturas, também contribui. O Brasil segue em cadência de espera por um cenário mais claro. Não ajuda nada, em meio a esse clima, eventuais interferências nas políticas de preço de companhias públicas, como a que se aventou fazer na Petrobras. Por receio dessas manipulações políticas, a estatal chegou a amargar mais de R$ 126 bilhões de desvalorização nas ações nos últimos dias. Recuperou em parte quando os agentes notaram que não haveria as chamadas contabilidades criativas. A questão é de onde sairá agora o dinheiro para cobrir o rombo de caixa deixado com o expurgo dos impostos nos combustíveis. O Governo garante que não aumentará impostos. A conta não fecha. Quem pagará?

(Nota publicada na Edição 1072 da Revista Dinheiro)


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