Economia

O custo da paranóia

Presidente Bolsonaro se arma de teorias da conspiração para montar a narrativa do injustiçado, mas devaneios podem custar R$ 10 bilhões.

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OLHANDO PELA JANELA Posição paranóica de Jair Bolsonaro sinaliza problemas de saúde mental, mas pode ser apenas uma tática para criar o cenário que justifique suas tendências nada democráticas. (Crédito: Divulgação)

O dicionário Houaiss define paranoia como um termo para problemas psíquicos que tomam a forma de uma insanidade sistematizada. Ela, segundo o a termologia, engloba problemas crônicos de delírios de relação, ciúmes e perseguição. Já a psiquiatria entende que, quando fora do controle, esse distúrbio tem um alto poder destrutivo, podendo ser danoso à pessoa e aos que os rodeiam. Mas e quando um alto grau de paranoia se dá no mais alto chefe da República brasileira? O presidente Jair Bolsonaro atende todos os pré-requisitos para uma situação de demência. E sinais disso não faltam. Não foram poucas vezes em que ele disse que a urna eletrônica é fraudulenta, que a recusa do uso da cloroquina é lobby de laboratórios de vacina, que a China inventou o coronavírus. Sem provas ou evidências que comprovem qualquer uma dessas afirmações, as supostas paranoias de Bolsonaro custam caro. Só nesses três devaneios, as perdas do governo federal podem superar R$ 10 bilhões. Isso sem contar os incontáveis riscos de saúde pública e de segurança democrática que vão além das contas públicas.

A mais recente empreitada da saga “Bolsonaro contra o mundo” se dá contra a urna eletrônica. Desde que era deputado o presidente trava uma luta contra o sistema eleitoral eletrônico mas agora, com a capacidade de influência que a chefia da República permite, ele consegue propagar um medo generalizado e exigir que o voto impresso volte já nas próximas eleições, sob a condição de não aceitar uma eventual derrota caso a urna seja eletrônica. Em termos financeiros, uma revisão da forma como votamos teria um custo de R$ 2 bilhões, no mínimo. Evandro Carlos Marchionni, advogado que foi coordenador da secretaria de tecnologia da informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 1990 e 2005, afirma que o retorno ao voto impresso seria um retrocesso e, sim, passível de fraude ao ser realizado em pouco mais de 18 meses. “Não há cabimento para este tipo de demanda vindo do Executivo”, afirmou.

Para ele, dos 25 anos de atuação do sistema eleitoral eletrônico, este é o momento de maior vulnerabilidade, mas não pela segurança de seus dados. “É a primeira vez que o presidente da República defende o voto impresso”, disse. Historicamente, a Câmara sempre teve problemas a urna eletrônica. Por duas ocasiões (2006 e 2013) os deputados federais aprovaram a impressão dos votos, mas a decisão foi derrubada no Supremo Tribunal Federal (STF). “Agora, pela primeira vez, temos dois Poderes contra a urna eletrônica. É um risco grande”. Para tentar ganhar apoio entre os congressistas, Bolsonaro usa todas suas táticas. Já pediu à Polícia Federal as investigações de fraude desde o início do sistema e, de quebra, ainda conseguiu apoios improváveis, como o do PDT de Ciro Gomes. Historicamente Leonel Brizola, fundador do partido, era contra o sistema eletrônico. Na avaliação de Marchionni, avançando o retorno do voto impresso, as condições eleitorais do Brasil se tornam ainda mais inseguras. “Não é só o custo de tornar a urna eletrônica obsoleta, é o custo de transformar toda uma operação estruturada em outra em menos de dois anos”, disse, estimando que o custo pode variar entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões dependendo da forma como for conduzida a transformação.

TODOS CONTRA MIM Na boca de Bolsonaro, a afirmação o mundo todo está contra mim ganha um contorno literal. Para ele, foi a China que inventou o coronavírus e lançou ao mundo, e o uso da cloroquina como remédio para prevenir e combater a Covid-19 é rechaçada em função do lobby dos grandes laboratórios e fabricantes de vacinas. Esse papo de conspiração, que pode ser tolerado em uma mesa de bar, ganha um contorno perigoso quando vem do Palácio da Alvorada. Nessa jornada pelo tratamento precoce, o governo gastou, segundo o Portal da Transparência, cerca de R$ 120 milhões entre cloroquina, hidroxicloroquina, Tamiflu, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida, itens usados nesse kit Covid. Também foram gastos outros R$ 23 milhões com publicidade, R$ 5 milhões com distribuição. Estima-se que o gasto total tenha ultrapassado os R$ 250 milhões. A infectologista Ruth Mendonça, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) afirma que o gasto com tratamento de pessoas com efeitos colaterais também é na casa das centenas de milhões. “Esse gasto é diluído entre planos de saúde, SUS e pessoas que se tratam em casa”, disse.

E se não há perda direta de dinheiro ao criticar a China e as fabricantes de vacinas, o custo dessa tensão diplomática também virá, mas de outra forma. Um estudo recente da Organização Mundial da Saúde colocou o Brasil entre os piores países para negociação de vacinas, e o motivo é a falta de tato do governo brasileiro. O resultado disso é que o Brasil pagará mais caro, levará mais tempo e demorará mais para vacinar toda população. O Brasil também fica de fora de doações importantes de países que já vacinaram toda a população, o que poderia gerar uma economia bilionária com vacinas.

E se o caminho parece sem volta, a psicanalista Sueli Cruz Ventura, estudiosa da relação entre poder e paranoia, tem mais um tempero nessa salada da psique. No entendimento dela, denominar Bolsonaro como paranóico é raso. “Tivemos vários presidentes assim. Jânio Quadros e Getúlio Vargas eram paranóicos, esse caso é diferente”, disse. Para a psicanalista há um limite entre ser paranóico e fingir ser. “O paranóico não escolhe a hora de falar de suas conspirações e não define quais são elas de acordo com que será melhor para o futuro. Isso é outra coisa.”