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O custo ao PIB do 7 de setembro

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A essa altura do campeonato já está mais do que claro para todos os empreendedores brasileiros o tamanho do prejuízo — em qualquer direção — decorrente dos impensáveis atos antidemocráticos do mandatário da República. O mundo acompanhou com atenção, e evidente receio, as mobilizações incitadas pelo governo contra os demais poderes e, ato contínuo, multinacionais, investidores de mercado e organismos multilaterais passaram a falar em freio nas inversões e apostas de projetos no País. Ao menos até que essa instabilidade política seja dissipada. A crise tem nome e não pairam dúvidas nesse sentido: Jair Messias Bolsonaro, que comanda o País direto do Planalto, vem sendo tratado como um incorrigível artífice do caos. Contaminando da economia às relações externas. No “day after” dos protestos, que ficaram bem aquém do prometido — diga-se de passagem — o governo insistiu em gerar factoides, passando a falar em Conselho da República, normalmente convocado para situações específicas de Estado de Sítio, de Defesa ou visando qualquer tipo de intervenção federal. Ninguém lhe deu ouvidos. Bolsonaro perde base de apoio, aliados e cria o ambiente propício para a discussão do seu impeachment. Inúmeros partidos estão agora motivados nesse sentido. No caldo de tensões, perde o Brasil. A escalada hostil afugentou o capital e paralisou os negócios. O PIB já teve um recuo negativo no último trimestre, contrariando a expectativa do ministro Paulo Guedes do crescimento em V. Mesmo os resultados do agronegócio, carro-chefe da pauta brasileira, murcharam com uma queda da ordem de 2%. É o clássico “game of chicken”, no qual o desfecho pode ser ainda mais trágico, se as provocações não cessarem. As ansiedades que giram em torno da volta ao normal à economia terão de ser contidas, não em virtude da pandemia, ainda persistente, mas fundamentalmente devido a anemia, inoperância e agitação geradas pelo Executivo. Não colaboram as frustrantes iniciativas fiscais, muito menos o aumento verificado nos gastos públicos com a agenda populista e, ainda mais grave, a retomada da sanha inflacionária. De uma forma geral, o crescimento das incertezas também está a pressionar a taxa de juros futura. O solavanco enviesado de uma tentativa de golpe já aumentou o prêmio de risco do Brasil e, no cenário macro, tanto as exportações como as importações devem acusar impactos sensíveis. As insurgências antidemocráticas estão sendo acompanhadas com atenção por diversos atores da economia dado o grau de consequências que podem advir daí. Analistas estão especialmente preocupados com o papel regional do Brasil junto a seus parceiros e de como uma atitude extremista poderá influenciar em futuras parcerias e entendimentos com os players internacionais. O momento marca dificuldades concretas para a retomada do crescimento sustentável no mercado interno. A falta de um plano de reestruturação, o desemprego elevado e a crescente insatisfação popular produzem um caldo de insegurança que deixa o País refém da desconfiança generalizada. Nas palavras de técnicos do próprio Ministério da Economia, que se dizem desconfortáveis com a cruzada de provocações empreendida pelo Planalto, o ambiente econômico está bastante contaminado por esses arroubos e a condução caótica de pautas estruturais não prenunciam bons ventos lá adiante.

Carlos José Marques, diretor editorial