Economia

“O crescimento da indústria é forte e pode superar o aumento do PIB”, aponta FIESP

A balança comercial caiu em 2019, mas o PIB cresceu. São sinais de um ano complicado para a economia brasileira, mascarada pela implementação da agenda liberar do governo Bolsonaro (leia-se Paulo Guedes) e por uma forte instabilidade na economia mundial.

Para se ter uma ideia, a balança comercial de 2019 fechou com um superávit (exportações menos importações) de US$ 46,7 bilhões, resultado que aponta uma queda de 19,6% em relação ao ano de 2018, quando o superávit foi de US$ 58 bilhões. No entanto, os últimos resultados registrados sobre Produto Bruto Interno (PIB) da Indústria apresentaram números mais animadores. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), houve um crescimento de 0,8% no 3º trimestre de 2019 comparado ao segundo trimestre. O resultado foi puxado pela construção civil (1,3%) e a indústria extrativa (12%).

Para entender o impacto destes indicadores, entrevistamos André Rebelo, economista e assessor de assuntos estratégicos da FIESP, que apresenta um mapa estratégico do crescimento econômico com ênfase na indústria e no comércio exterior.

Para alguns especialistas em Comércio Exterior, o ano de 2019 representou um retrocesso na balança comercial brasileira. De que forma isso repercute no comércio exterior brasileiro em 2020?

Eu discordo, 2019 não foi um ano de retrocesso. Houve um bom desempenho na balança comercial, com aumento na venda de soja para China. Tivemos um movimento estrutural associado ao custo Brasil, após um longo período de câmbio valorizado que prejudicou a indústria.

O gasto público também foi significativo, com aumento da carga tributária. Mas, a lei do teto de gastos e a reforma da previdência mudaram o jogo com juros baixos. Acredito que 2020 é o ano de recuperar o tempo perdido, gerando competitividade no produto nacional e com uma boa estrutura fiscal.  Este será um novo período na economia, que não acontecia desde o plano real. Temos juros baixos, investimentos engavetados, novas formas de financiamento, uma taxa de juros de 4,5% e o câmbio desvalorizado abrindo espaço para exportação.

Os produtores brasileiros devem começar a substituir produtos importados por nacionais.

O ranking Doing Business Brasil, do Banco Mundial, que analisa o impacto das regulamentações sobre as atividades empresariais no mundo, colocou o Brasil na posição 124 entre 190 economias. Isso realça as dificuldades de logística e infraestrutura para evoluir comercialmente?

O índice reflete um ambiente hostil na exportação dos últimos anos. Mas temos avanços no ambiente de negócios, nas questões trabalhistas. Com a Lei de Liberdade Econômica e a terceirização regularizada teremos um ambiente propício para a produção. Mas também vejo retrocessos no Supremo, como transformar em crime o não recolhimento em dia do ICSM.

No contexto global estamos em um mundo mais protecionista. Uma trégua entre EUA e China seria um estímulo muito forte para os preços, por exemplo.  Para superar a posição 124, o Brasil precisa investir em logística, melhorias nos portos e taxas.

A pauta de exportação em 2020 continua focada em commodities?

Os setores que estavam em alta em 2019, como agronegócio e mineração, permanecem na liderança.  A China abre uma nova oportunidade de exportar produtos industrializados. Da mesma forma nos EUA, a industrialização de máquinas e produtos de metal ganham espaço.

Teremos um incremento nas exportações para os países vizinhos como Argentina. A nossa balança comercial continua superavitada, o que deve gerar um crescimento econômico. As importações brasileiras crescem com insumos, automóveis e eletrônicos.

Em 2019, o governo Bolsonaro tentou estreitar laços comerciais com diversas nações. Quais são os resultados que essa estratégia vai trazer em 2020?

Sobre as viagens que Bolsonaro fez à China, os Emirados Árabes e o Japão, teremos um bom impacto. Na China, teremos oportunidade em feiras de importação, no Japão encontraremos um destino para produtos primários. Já os Emirados Árabes serão um grande mercado para alimento, grãos e indústria.

Em relação ao Mercosul e União Europeia vejo resultados a longo prazo. Precisaremos avaliar também o comportamento da Argentina. Os efeitos deste acordo só devem ser sentidos em dez anos, contudo nos próximos três anos veremos redução de algumas alíquotas.

Segundo estudos da FIESP, o Brasil tem um espaço estratégico na China com a demanda de grãos e carne. O país asiático é o nosso carro-chefe das commodities e teremos a diversificação do petróleo com oportunidades a médio prazo. A Guerra Comercial entre China e EUA pode ter alguns efeitos na nossa economia. Em 2019 lucramos R$ 9 bilhões com soja. Caso ocorra uma trégua uma parte do nosso mercado será devolvido para os EUA.

De qualquer forma, não teremos grandes mudanças nos nossos principais parceiros comerciais, que hoje são: China, Estados Unidos, Países Baixos, Argentina e Chile. Em 2020 teremos os EUA como destino importante para produtos industrializados, China para commodities e exportações mistas para Europa.

A Indústria teve um crescimento de 0,8% no terceiro trimestre de 2019, puxado pela construção civil e o setor extrativo.  2020 reforça estes setores?

A FIESP está otimista com o setor que teve um bom resultado em sete anos.  Temos juro baixo, câmbio alto, espaço para produção nacional. O crescimento da indústria em 2020 será superior ao do PIB.

Teremos um bom período para a construção civil, com retomada forte no Sudeste. Os custos de financiamento habitacional estão contribuindo com este cenário. Também vemos um crescimento no consumo de bens com o crédito para pessoa física se expandindo. O varejo tem alta especialmente nos eletrodomésticos, eletroeletrônicos e automóveis. Há impactos na venda de vestuário e no setor de supermercados.