Finanças

O caso das bolsas com os governos

Na crise, o investidores estão reagindo bem ao aumento dos estímulos governamentais. O mundo viverá uma nova era de gastos estatais para incentivar economias combalidas, em substituição à defesa da austeridade? Ou será apenas um amor passageiro?

Crédito: Alessandro Shinoda

Quando ficou claro que a pandemia do novo coronavírus impactaria fortemente os mercados globais, o Federal Reserve agiu rápido. O Banco Central dos EUA nem esperou uma reunião já marcada para para anunciar o segundo corte extraordinário de juros no mês. Era 15 de março. A reação das bolsas no dia seguinte foi negativa. O índice Dow Jones caiu 12,9%. O Ibovespa, 13,9%. Nos dois países foi necessário acionar o circuit breaker. Por outro lado, quando os anúncios trataram de estímulos governamentais, as bolsas reagiram com euforia. No pregão seguinte ao anúncio de um pacote trilionário do governo dos EUA para dar liquidez aos mercados, o Dow Jones subiu 9,4% e o Ibovespa, 13,9%.

Essas reações opostas dos investidores reacendem uma discussão entre os economistas que vai além de que cortes de taxas de juros — hoje em mínimas históricas. Ficou a dúvida: o mundo estaria superando uma fase de políticas de austeridade nas contas públicas e voltando a exigir intervenções governamentais? Ou a paixão dos mercados pela intervenção estatal vai passar junto com a pandemia?

Por aqui, a reversão é mais explícita. A equipe ecônomica de Paulo Guedes tinha como agenda principal o ajuste das contas públicas, além de abrir espaço para que o investimento privado assumisse o protagonismo. Tudo virou de ponta-cabeça. Em março, os investimentos federais dispararam (como mostra o gráfico ao lado) e o BNDES precisou rever a sua estratégia. Em vez de vender sua carteira, promete assumir novas participações, principalmente em companhias aéreas.

DE VOLTA: Em baixa depois dos anos 1970, o pensamento do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) em defesa dos investimentos estatais ensaia um retorno.

A discussão divide os economistas liberais dos keynesianos. Em outra definição, os monetaristas dos desenvolvimentistas. Para os defensores da linha de Guedes, será preciso, passada a tempestade, reforçar até com mais intensidade o ajuste fiscal. “O que está sendo feito em todo o mundo terá um custo. Vai virar dívida, que precisará ser equacionada no futuro”, afirma Silvio Campos Neto, economista-sênior da consultoria Tendências. “Mas haverá pressões especialmente do mundo político para voltar a agendas do passado e que causaram problemas.” Segundo ele, existe um salvo-conduto de curto prazo dado pelos mercados para os governos gastarem. Quando a emergência passar, investidores, analistas e agências de rating olharão com lupa as contas públicas.

SELIC Para os defensores de políticas desenvolvimentistas, o momento é de reversão do pensamento econômico. Assim como a agenda de austeridade teria demorado para chegar ao País, a percepção de seus limites também estaria atrasada. Um exemplo de que cortar custos e baixar juros não seria mais suficiente estaria sendo dado pela sempre cautelosa fiscalmente Alemanha. A chanceler Angela Merkel anunciou em janeiro, antes da crise atual, um pacote de investimentos de E 86 bilhões na infraestrutura ferroviária, como forma de superar a estagnação que o país enfrentou em 2019.

O Brasil, que já fez a sua lição de casa na forte baixa da Selic, poderia estar chegando a um momento similar. “Antes mesmo da crise atual, já tínhamos 26 milhões de desempregados, desalentados e subutilizados. Fazer ajuste fiscal e acenar para a fada da confiança não vai resolver a recessão que virá pela frente”, diz Antonio Corrêa de Lacerda, presidente do Conselho Federal de Economia. “Vamos precisar de ação do Estado. A retomada vai ser difícil até todos os elos da economia voltarem a produzir e a consumir.”

EM REVERSÃO: A agenda de ajustes fiscais da equipe do ministro Paulo Guedes foi deixada de lado para dar vez a intervenções na economia. (Crédito:Jorge William)

Num cenário como esse, como ficará a dívida brasileira? As estimativas são de que os esforços que baixaram a dívida bruta para 76% do PIB serão revertidos neste ano, e esse indicador poderá fechar 2020 em até 90%. “Uma dívida pública mais alta vai ser o novo normal no mundo”, diz José Luis Oreiro, economista da Universidade de Brasília (UnB). “Não tem nenhum problema se a dívida brasileira subir de 76% para 100%, desde que for um aumento similar ao do resto do mundo. Não existe uma evidência empírica de que existe um abismo fiscal a partir de 80%, conforme o dogma defendido nos últimos tempos.” Já, para Campos Neto, da Tendências, o Brasil precisará atacar essa dívida. “Seremos comparados com outros emergentes, que têm dívida média de 50%”, afirma.

A crise causada pela Covid-19 é algo inédito, com efeitos e duração pouco previsíveis. Por isso, é difícil antecipar as mudanças de percepção que causará nos mercados. A Grande Depressão dos anos 1930 levou a substituição da hegemonia do liberalismo clássico pelo pensamento do britânico John Maynard Keynes – principalmente no programa New Deal americano, de forte investimento estatal. Já os choques do petróleo dos anos 1970 causaram uma nova reversão que continou pelas décadas seguintes, com a ascensão das ideias monetaristas de Milton Friedman e de seus seguidores da Escola de Chicago. A Covid-19 será capaz de causar outra grande revolução dessa magnitude?