O cartão vermelho da economia

O cartão vermelho da economia

A pasta da economia está tendo de fazer uma rearrumação geral para pegar no tranco. Depois do “passa fora” do presidente Bolsonaro, que exibiu o cartão vermelho para as ideias ortodoxas do time, o czar Paulo Guedes chamou a turma para uma conversa direta, aberta e – novidade nesses tempos de isolamento – presencial. Afinal, o assunto é sério. Como deixar de lado os planos liberais para viabilizar um Estado enxuto e passar a pensar com a cabeça populista que move o capitão? O vexame atrás de vexame que esse grupo amarga não encontra paralelo recente. O ministro Paulo Guedes tentou disfarçar. Disse que não era com ele. Deu razão para a bronca pública. Mas sabe que os golpes não vão parar por aí. O grupo mais próximo de interlocutores do inquilino do Planalto prepara a cama do “Posto Ipiranga” para ele sumir do mapa das decisões. Nos últimos tempos, o antes superministro foi tantas vezes rebaixado que já se encontra na condição de “não ministro”, um mero conselheiro a tentar dar forma às veleidades do mandatário. Guedes ainda resiste e persiste porque gosta do cargo. Mas não manda mais. As negociações das pautas, mesmo econômicas, como a da Reforma Administrativa, estão a cargo de outro bloco de assessores federais. O arquirrival Rogério Marinho, titular da pasta do Desenvolvimento Regional, é capaz de deboches abertos a quem antes prestava subordinação. Em videoconferência recente para um grupo de investidores e consultores foi claro ao dizer que o presidente deseja uma agenda popular, descartando qualquer papel de Guedes nesse sentido. “Ele não negociará diretamente isso, o que é um avanço”, disse a quem o escutava, sacramentando a seguir: “É importante ter profissionais”. Em outras palavras, tratou o hoje adversário como um amador. Bolsonaro dá motivos para tanto. Tornou hábito a humilhação pública daquele que antes considerava insubstituível. A equipe segue em parte desmotivada. Depois da debandada de tantos técnicos – mais recentemente de Paulo Uebel e de Salim Mattar –, novas cabeças ficaram a prêmio. O secretário de Fazenda, Waldery Rodrigues, teve de escutar um pito direto do presidente e o próprio chefe, Paulo Guedes, parece esperar a sua renúncia. Quantos mais irão embora e exatamente como irá operar a pasta antes repleta de ideias saneadoras, de privatizações a desonerações da folha de pagamentos da iniciativa privada, hoje engavetadas ou relegadas ao segundo plano? Guedes se agarra à ideia, deveras enterrada, da CPMF para um ajuste fiscal condizente. Nem no Congresso ele tem interlocutor para vergar a banca de parlamentares que é predominantemente contra. Deve sofrer nova derrota. O populismo entrou na ordem do dia. Com ele o resgate da inflação, fiscais de preços, um revival de movimentos dos anos 80 que o Guedes em pessoa abomina. Por que então insistir na cruzada?

Carlos José Marques, diretor editorial

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