Edição nº 1150 09.12 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Antonio Filosa, presidente da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) para a América Latina

O carro nunca mais será o mesmo

Leo Drumond / NITRO

O carro nunca mais será o mesmo

Homem forte da FCA na América Latina, o italiano Antonio Filosa comanda o maior ciclo de investimentos que a empresa já fez no Brasil – serão R$ 16 bilhões até 2024. Firme na liderança do mercado nacional, ele fala dos desafios do setor, das inovações que estão por vir e se diz otimista em relação à fusão com a PSA

Klester Cavalcanti
Edição 18/11/2019 - nº 1147

Há pouco mais de duas semanas, uma notícia sacudiu o setor automobilístico global. A Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e a PSA Peugeot Citroën anunciaram a conclusão de um acordo para a fusão das duas companhias. Quando finalizado, o negócio fará surgir um gigante com valor de mercado estimado em US$ 50 bilhões (mais de R$ 200 bilhões). Um dos responsáveis por comandar essa potência será o engenheiro Antonio Filosa, presidente da FCA para a América Latina. Aos 46 anos, Filosa é italiano da região de Nápoles, está no Grupo Fiat há mais de 20 anos e já comandou operações da empresa na Argentina, Espanha, Estados Unidos e Itália. Integrante do Group Executive Council (GEC), a instância máxima da FCA, ele é fluente em quatro idiomas – italiano, inglês, espanhol e português – e está à frente da companhia num excelente momento.

Sem dar muita bola à crise do setor, a FCA vendeu 5 milhões de veículos no ano passado em todo o mundo, com faturamento de € 115 bilhões (mais de R$ 550 bilhões), alta de 4% em relação a 2017. No Brasil, a empresa investirá, até 2024, R$ 16 bilhões, no maior ciclo de investimento da companhia no País. Feliz com os resultados da FCA, que é líder do mercado brasileiro e celebra alta de cerca de 15% nas vendas de janeiro a outubro deste ano em relação a 2018 (foram quase 410 mil carros emplacados), Filosa falou à DINHEIRO sobre o sucesso da marca no País e o futuro da indústria automobilística. A seguir, ele aborda temas como sustentabilidade, tecnologia, conectividade, gestão de pessoas e aplicativos de mobilidade. “Diferentemente do que se imagina, os aplicativos de transporte podem até aumentar a venda de automóveis”, diz.

DINHEIRO – O senhor é originário de Nápoles, uma das regiões mais emblemáticas da Itália. Que características napolitanas considera mais fortes em sua personalidade como gestor e como isso influi no seu trabalho?

ANTONIO FILOSA – Nápoles é uma região portuária há séculos. Sempre estivemos muito abertos a outros povos e culturas. Antes da unificação da Itália, a região foi governada por diversas civilizações, como os gregos, os árabes e os romanos. Tudo isso fez o povo napolitano ser muito multicultural, com uma bela diversidade étnica, bem parecido com o que temos no Brasil. E também somos um povo muito intenso e que gosta de conversar. Acredito que são estas duas características que tenho na minha personalidade e que me ajudam muito no trabalho: intensidade e estar sempre aberto ao diálogo.

DINHEIRO – O seu trabalho tem dado bons frutos. Mesmo com a crise que afetou o setor automobilístico nos últimos anos, a FCA tem tido ótimos resultados e vem se mantendo na liderança. A que o senhor atribui isso?

FILOSA – São diversos fatores. Um deles é o fato de termos um time muito competente e dedicado. Posso afirmar que eu não trocaria nenhum dos 20 mil funcionários que temos no Brasil. É um pessoal extremamente empenhado e que entendeu a filosofia da empresa, de buscar sempre o melhor. Eles estão entre os melhores do mundo na indústria automobilística. Esse capital humano é uma riqueza única. Além disso, há a estratégia industrial e comercial da nossa marca, investindo muito forte nas nossas unidades, como em Betim (MG) e Goiana (PE). Eu também gostaria de citar a integração com todos os nossos parceiros, como concessionárias e fornecedores. Nossos bons resultados refletem o trabalho de todas essas pessoas, atuando de forma harmoniosa e integrada.

“Nossa fábrica em Pernambuco é a mais moderna da FCA no mundo e vamos investir R$ 7,5 bilhões para modernizá-la ainda mais. Ali, fazemos o Fiat Toro, o Renegade e o Compass” (Crédito:Leo Lara)

DINHEIRO – O senhor citou a fábrica em Pernambuco, inaugurada há pouco mais de 4 anos e que custou R$ 11 bilhões – incluindo construção, instalação e equipamentos. Que outros investimentos a FCA pretende fazer no Brasil nos próximos anos?

FILOSA – São vários. Até 2024, vamos investir algo em torno de R$ 16 bilhões em nossas operações no Brasil. Na própria fábrica de Pernambuco, onde produzimos o Fiat Toro e os dois Jeep (Renegade e Compass), serão aplicados R$ 7,5 bilhões para modernizar ainda mais a planta e produzir um novo modelo Jeep, que será um SUV premium. E é bom lembrar que essa unidade em Pernambuco já é a mais moderna entre as mais de cem fábricas da FCA em todo o mundo, além de ter gerado cerca de 15 mil empregos na região, entre funcionários nossos e fornecedores. Muitas dessas pessoas trabalhavam na lavoura de cana-de-açúcar. Também temos muito orgulho dessa missão social que realizamos nas regiões onde instalamos nossas fábricas.

DINHEIRO – E sobre novos modelos de carros da FCA? O que o consumidor brasileiro pode esperar para o futuro próximo?

FILOSA – Nos próximos 4 anos, vamos lançar cerca de 25 produtos, entre reestilizações e modelos completamente novos. Como sabemos que o público brasileiro tem preferência pelos SUVs, vamos lançar, já em 2021, três novos produtos nesse segmento, dois com o logotipo da Fiat e um da Jeep. Esses projetos já estão em fase de desenvolvimento e confiamos que serão muito bem recebidos pelo mercado. E há estudos para incrementarmos esses modelos com novos conteúdos tecnológicos e de motorização, como turbo e eletrificação.

DINHEIRO – Por falar em eletrificação, é cada vez maior a tendência das montadoras de buscar a sustentabilidade ambiental, com baixa emissão de CO2, assim como veículos digitalmente integrados, com ampla conectividade.

FILOSA – Esse é o futuro do nosso setor. Penso que a indústria automobilística tem um desafio muito interessante pela frente. Na FCA, estabelecemos algumas missões tecnológicas. Uma delas tem a ver com isso que você falou, a questão da sustentabilidade. Precisamos trabalhar, cada vez mais, com responsabilidade ambiental, respeitando os marcos regulatórios. Vamos investir alto em projetos que busquem sistemas de propulsão com o mínimo de agressão ao meio ambiente, como a eletrificação e os híbridos, tendo como alvo a neutralidade na emissão de CO2. Queremos ser reconhecidos como uma empresa environmentally friendly (ambientalmente amigável).

DINHEIRO – E em relação à conectividade e mobilidade?

FILOSA – São outros caminhos igualmente relevantes. Com esses dois elementos, o carro nunca mais será o mesmo. Não existirá mais aquele objeto que servia apenas para levar as pessoas de um local ao outro. Os carros serão como módulos móveis, utilizados como veículos, claro, mas dentro dos quais você poderá realizar coisas impensáveis há alguns anos, como, por exemplo, comprar o ingresso do cinema, fazer a reserva do restaurante, efetuar pagamentos bancários. O seu carro fará tudo o que você hoje faz no smartphone. Além de ser um meio de transporte, o automóvel será uma fonte de serviços ao usuário. E também há os carros autônomos, que é um projeto mais a longo prazo. O fato é que o automóvel passará por uma grande transformação nos próximos anos.

DINHEIRO – Quanto a FCA pretende investir para tirar todos esses projetos do papel?

FILOSA – Não quero falar em valores exatos. Mas posso afirmar que são investimentos na casa dos bilhões de dólares.

“Com os aplicativos de mobilidade, a pessoa que usaria apenas o próprio carro passa a utilizar vários. Ou seja, esses apps podem até aumentar a venda de automóveis no mundo” (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O setor automobilístico tem enfrentado uma forte crise. Montadoras fecharam ou ameaçaram fechar fábricas. A FCA parece ter passado incólume às dificuldades, anunciando investimentos e novos lançamentos. Essa impressão está correta?

FILOSA – Também sentimos os efeitos da crise. Já percebemos uma forte contração dos mercados do Chile e da Argentina, países abastecidos com veículos que produzimos no Brasil. Se cai a demanda, também cai a produção. Mas estamos preparados para superar as dificuldades. Este ano, mesmo com a crise, vamos aumentar nossa produção em 10%, somando as fábricas de Minas Gerais e de Pernambuco. Vamos saltar de 510 mil veículos produzidos em 2018 para 560 mil este ano. Isso foi possível porque conseguimos acertar uma receita de produção e vendas, com produtos de altíssima aceitação das pessoas. O Jeep Renegade e o Compass são líderes nacionais de suas categorias. Outro fator fundamental para o nosso sucesso está dentro das nossas unidades. O mercado reflete o desejo do cliente, mas também temos os nossos resultados internos, obtidos por nossas equipes. Temos um foco muito grande na valorização do nosso time, investindo em capacitação dos funcionários. Esse capital humano também faz parte da nossa estratégia. Como resultado de todas essas ações, aumentamos nossa presença no Brasil e nos mantemos na liderança (de janeiro a outubro deste ano, a FCA vendeu quase 410 mil carros, alta de cerca de 15% em relação ao mesmo período de 2018).

DINHEIRO – A chegada dos aplicativos de transporte, como Uber, tem sido apontada por muitos executivos do setor como uma ameaça. O senhor acredita que as pessoas vão parar de comprar carros?

FILOSA – Eu enxergo de outra maneira. A pessoa pode optar por não ter um carro, mas ela vai usar um carro. Pode até ser um Uber. Mas ela vai precisar do automóvel para se deslocar. E aí, surge uma questão interessante. A pessoa que usaria apenas o próprio carro passa a utilizar vários. Afinal, quem usa Uber e outros aplicativos de mobilidade pega um veículo diferente a cada vez. Ou seja, diferentemente do que se imagina, os aplicativos de transporte podem até aumentar a venda de automóveis no mundo. Obviamente, a indústria automobilística será impactada por essa nova realidade, mas também será estimulada por outro tipo de demanda. Nossa missão é entender esse processo.

DINHEIRO – Há duas semanas, a FCA e a PSA Peugeot Citroën anunciaram a fusão das companhias, que criará a quarta maior montadora do mundo, com valor de mercado estimado em US$ 50 bilhões. Sendo alto executivo do grupo, como o senhor avalia o negócio?

FILOSA – Ainda é cedo para falar sobre o assunto.

DINHEIRO – Entendo. Mas, sendo o presidente da FCA na América Latina, o senhor terá de comandar o gigante que surgirá dessa fusão na região. O que o senhor espera desse novo desafio?

FILOSA – Só posso dizer que estou otimista.


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