Negócios

O caminho das pedras para os livros

Enquanto o mercado amarga uma queda de 27% em 10 anos, eventos literários como a Flip garantem um “selo de qualidade” junto aos leitores e mostram uma alternativa ao grande varejo

Crédito: Leo Martins / Agencia O Globo

Onde o povo está: leitores se divertem nas livrarias de Paraty (à esq.), antes de acompanhar as palestras dos autores, como Grada Kilomba (foto abaixo) (Crédito: Leo Martins / Agencia O Globo)

Realizada há 17 anos, sempre em julho, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) agita a cidade histórica no litoral do Rio de Janeiro. Neste ano, entre os dias 10 e 14 de julho, cerca de 25 mil leitores percorreram as ruas de pedras irregulares, ávidos por um contato mais pessoal com editores e autores. Porém, se a Flip é sempre uma festa, o mesmo não se pode dizer do mercado editorial. Nos últimos 10 anos, o faturamento do setor encolheu 27,3%. Os dados são da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) e realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

De acordo com o estudo, o setor de Obras Gerais, que inclui ficção e não-ficção, foi o que mais padeceu: queda de 48,6% no faturamento entre 2009 e 2018. Livros técnicos, científicos e profissionais registraram uma redução de 39,8%, acentuada em anos recentes. Só entre 2014 e 2018, auge da recessão econômica, o faturamento do setor caiu 46%. Já o segmento de livros didáticos, que depende de compras governamentais (46,3%), encolheu 9,8% desde 2009. O mercado de livros religiosos, que não depende de compras governamentais, diminuiu 17,1% na década observada. A pesquisa também identificou que o preço médio dos livros (corrigida a inflação) caiu 21% no mesmo período.

Grada Kilomba: portuguesa de origem angolana, ela foi a autora mais vendida da Flip, com o livro “Memórias da Plantação”, que vendeu 648 livros (Crédito:Walter Craveiro)

O melhor ano para o mercado foi 2011, quando o faturamento foi de R$ 7,2 bilhões, com a venda de quase 284 milhões de livros. Em 2018, a venda caiu para 202 milhões de obras. A prolongada recessão econômica, o aumento do desemprego e a mudança de hábitos de consumo são apontados como os grandes vilões da retração. O tombo foi intensificado pela crise nas duas maiores redes de livrarias do País – a Cultura e a Saraiva –, que pediram recuperação judicial no ano passado. “A queda foi provocada pela dificuldade que o Brasil está passando e pela perda dos pontos de venda dos dois maiores varejistas do setor. A livraria ainda é o principal canal para a venda de livros”, afirma Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira de Livros (CBL).

Na avaliação de Tavares, passado o susto inicial, as editoras reagiram e buscaram outros canais, como a venda direta e a criação dos clubes de assinatura. A TAG, maior clube de livros por assinatura do País, criado em Porto Alegre, em 2014, tem 50 mil assinantes e vende seus livros só pela internet. O clube oferece dois pacotes. Na TAG Curadoria, o usuário paga R$ 55,90 e na TAG Inéditos, R$ 45,90. Em ambos, o assinante recebe em casa, todo mês, um livro, uma revista e um brinde. O modelo é seguido pelos clubes Turista Literário e Leiturinha, entre outros. Já a Intrínseca, editora tradicional, se inspirou no formato e lançou o clube Intrínsecos. A Ubu, criada por editores da extinta Cosac Naify, fez o Circuito Ubu.

Esse movimento das editoras também permite que livrarias menores, com vendas diretas, ocupem o espaço deixado pelas grandes varejistas. É o caso da Livraria da Travessa, tradicional loja do Rio de Janeiro, que vai abrir este ano a primeira sucursal em São Paulo. E também da mineira Livraria Leitura, já presente em vários estados. “É importante que as livrarias menores cresçam, até por uma questão de qualidade de serviço e de curadoria”, afirma Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta, que enxerga grande potencial nos novos canais de venda. “A Magazine Luiza, que já vendia via market place, iniciou uma operação específica para livros. Isso pode gerar um impacto importante, já que eles são muito fortes em regiões sem livrarias”, diz. Apesar disso, Elek Machado faz uma ressalva: “A gente acredita que o livreiro foi, é e será sempre o nosso parceiro para todas as guerras”, destaca Machado.

EVENTOS Além da venda direta via internet, cresce a importância de feiras e eventos como as Bienais do Livro, em São Paulo e Rio de Janeiro, e a Flip. “Um autor que é convidado para a programação principal vende mais. Os livros vendidos em Paraty são uma pequena fração do impacto no mercado editorial inteiro”, afirma Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip. Munhoz destaca ainda que o festival é uma manifestação cultural que acontece no espaço público, nas ruas, nas praças. “A essência da Flip é o convívio. É a origem do que é cultura, que é a ideia de trocar experiências subjetivas sobre o mundo”, diz.

Editoras presentes à festa concordam. “A Flip ajuda bastante na divulgação de um autor e nas vendas, pois é um selo de qualidade junto aos leitores brasileiros”, afirma Isabel Diegues, fundadora e diretora da Cobogó, editora responsável pelo lançamento da obra “Memórias da plantação”, da escritora portuguesa Grada Kilomba, livro mais vendido na Flip este ano (648 exemplares). A Cogobó fez a primeira tiragem de 3 mil exemplares e, mesmo antes da Flip, a demanda das livrarias já era alta. “Com isso, já reimprimimos mais 3 mil”, afirma Isabel. “Uma das maiores estrelas deste ano é uma mulher portuguesa de origem angolana, feminista negra e publicada por uma pequena editora. Há 10 anos, a gente não conceberia isso.”

Presença popular: eventos em espaços abertos aproximam o público dos escritores (Crédito:Sara De Santis)

Para Heloiza Daou, gerente de marketinga da Intrínseca, participar da festa é obrigatório. Segundo ela, a editora sempre quis falar diretamente com o leitor, mesmo antes da crise das grandes livrarias. “A gente continua trabalhando com as livrarias, mas vê no clube do livro (Intrínsecos) uma maneira de aquecer o mercado. As pessoas leem com antecedência, comentam o livro e ele acontece quando chega à livraria.” O mesmo ocorre com a Ubu, que já nasceu digital, em 2016. “Antes de lançar a editora, já tínhamos um site. Hoje, 40% das nossas vendas são em feiras, eventos e no site”, diz Florencia Ferrari, diretora editorial da Ubu, que também tem seus livros em lojas de design e multimarcas. “Esses pontos vendem três vezes mais do que uma livraria comum”, declara.

A edição deste ano deixou claro que nem só de literatura vive a Flip. Embora o homenageado fosse Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, a maioria das mesas abordou temas políticos e sociais como imigração, racismo e questões de gênero. Por isso, a edição contou com um maior número de autores negros. A segunda mais vendida na Flip 2019 foi Ayobami Adebayo, com “Fique Comigo”, publicação da Harper Collins. A pegada mais política do evento também provocou ruídos. Na sexta-feira 12, a participação do jornalista Glenn Greenwald provocou uma manifestação de eleitores do presidente Bolsonaro, com grande repercussão. “A Flip vem trazer um conceito para a literatura de festa. Esse tipo de evento humaniza a figura do escritor”, afirma Marcelino Freire, idealizador da Casa para Todxs, que em 2019 reuniu um coletivo de pequenas editoras como Edit, Demônio Negro, Nós Editora, Macondo, Tatuana, Cepe e Relicário. “A Flip precisa derrubar as paredes, para não termos a sensação de que estamos em uma Casa Grande, isolada por patrocinadores.”