Negócios

O caçador de empresas (quase) falidas

Em tempos de sufoco para as empresas, Quist Investimentos capta fundo de R$ 100 milhões para recuperar COMPANHIAS endividadas

Crédito: David Mazzo

Douglas Duek: "Estamos uns 30 anos atrasados em relação ao mercado americano. Havia insegurança jurídica por conta de nossa legislação" (Crédito: David Mazzo)

Alguns indicadores do mercado apontam que a economia brasileira pode retomar seu crescimento em breve. Entre esses sinais está o aumento do interesse de investidores nacionais e estrangeiros em empresas brasileiras que estejam em dificuldades. Um bom exemplo desse movimento é a Quist Investimentos, especializada no segmento de participações em empresas (private equity), que anunciou a captação de R$ 100 milhões para investir em companhias de médio porte com alto grau de endividamento, que estejam em processo de recuperação ou pré-recuperação. A ideia é adquirir o controle delas e implantar um plano de reestruturação de médio ou longo prazo conforme a situação de cada uma.

Apesar de ser muito comum nos Estados Unidos, este tipo de recurso para salvar empresas, também chamado de Distressed Private Equity, ainda é pouco usado no Brasil. Mas, de acordo com o fundador da Quist, Douglas Duek, isso começa a mudar. “Estamos uns 30 anos atrasados em relação ao mercado americano. Havia insegurança jurídica por conta de nossa legislação que não era favorável aos investidores. Mas as leis foram aprimoradas e a tendência é o surgimento de mais fundos como esse que nós captamos. Aliás, isso já está acontecendo.”

Duek analisa que o momento é bom para esse tipo de operação porque a crise fez com que muitas empresas se endividassem acima da capacidade que elas têm de cumprimento dos compromissos assumidos. Esse fator gera oportunidades de aquisições de controle acionário a custos competitivos. Isso, somado à expectativa de retomada do crescimento econômico, torna o negócio atraente para investidores. “A baixa dos juros faz o mercado ficar mais fácil para quem quer empreender porque as aplicações financeiras passaram a render muito menos. Então, o investidor tira o dinheiro do banco e o coloca em algo produtivo que lhe traga retorno melhor. Reformas como a da Previdência também contribuem porque aumentam a confiança do investidor na economia brasileira”, explica Duek.

A advogada Liv Machado, que atua na área de recuperação judicial do escritório TozziniFreire Advogados, concorda que se trata de um bom momento para investir em empresas endividadas. Além da possibilidade de comprar com preços mais baixos começam a surgir novas regras e entendimentos que tornam a operação mais convidativa. “Há muitas oportunidades. Inclusive uma jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que admite a recuperação judicial do produtor rural. Nossa legislação atual protege o investidor e ficará mais atraente depois que o Projeto de Lei 10.220/2018 for aprovado”, afirma Liv.

Liv Machado: “A legislação atual protege o investidor e ficará mais atraente quando o PL 10.220/2018 for aprovado pelo Congresso” (Crédito:Luiz Doro/Adorofoto)

O projeto de lei em questão foi enviado ao Congresso no ano passado pelo então presidente Michel Temer. Ele visa modernizar a legislação referente às recuperações judicial e extrajudicial e à falência do empresário e da sociedade empresária, alterando as leis nº 11.101, de 2005, e nº 10.522, de 2002. Redução de alguns prazos previstos em lei como para realização de assembleia de credores (antes de 150 dias e, no projeto para 120 dias), possibilidade de substituição da assembleia por um termo de acordo assinado com credores, criação de varas regionais especializadas na matéria de insolvência e tratamento diferenciado ao credor que conceder crédito à empresa em dificuldade são alguns dos destaques do PL, que ainda não tem data para ser votado.

RECUPERAÇÃO Dados do Serasa Experian mostram que entre janeiro e setembro deste ano 1.030 empresas solicitaram recuperação judicial no Brasil. Deste total, 633 são de pequeno porte, 226 são médias e 171 grandes. No ano passado a quantidade foi um pouco maior, 1.072, sendo 645 pequenas, 253 médias e 165 grandes (confira números ao lado). Se operações como a da Quist se tornarem mais comuns no País é possível que outra estatística, a de empresas em situação falimentar, comece a diminuir. Nos primeiros nove meses de 2019, 1,1 mil empresas protocolaram pedido de falência.

Com essa captação, a Quist Investimentos pretende recuperar de cinco a sete empresas. Segundo o executivo, o fundo tem prospecto de sete anos. “Nos primeiros dois anos eu faço posição com a compra das empresas e o retorno aos investidores é prometido para ocorrer em sete anos”, afirma Duek. A promessa é retorno entre 25% e 30%. Há 12 anos no mercado, a Quist já investiu em cerca de 20 empresas e os fundos somados já captaram R$ 1,1 bilhão. A empresa também tem uma área de assessoria financeira, que presta serviços de reestruturação para terceiros. “Nessa área, já reestruturamos em torno de 150 empresas”.

O foco de atuação da Quist é amplo e envolve a possibilidade de investimentos em fazendas e empresas de agronegócio. As companhias que interessam são aquelas que possuem endividamento superior a 40% ou 50% do faturamento anual. De acordo com Duek, 70% do capital do fundo pertence a investidores americanos. Os 30% restantes foram completados com recursos da própria Quist e de investidores brasileiros. “Isso mostra que a operação é séria, caso contrário não correríamos o mesmo risco que eles. Mas não é só isso que aumenta a confiança. A participação da gestora local é importante por conhecer o funcionamento do mercado, a legislação existente. Isso tudo é pesado por quem é de fora”, diz.