Entrevista

Guilherme Paulus

O Brasil se vende muito mal no exterior

Gabriel Reis

O Brasil se vende muito mal no exterior

Um dos nomes mais respeitados do turismo no Brasil e considerado o responsável pela chegada da classe média aos aeroportos e principais destinos nacionais, Guilherme Paulus enxerga ainda turbulência no caminho para o crescimento do setor, passando por infraestrutura, custo Brasil e até questões políticas. Fundador do GJP Hotels & Resorts e da operadora CVC, maior agência de viagens de lazer do mundo, listada na bolsa desde 2013 e que hoje integra grupo que movimenta R$ 17 bilhões em reservas no País (ele vendeu a companhia em 2009 e hoje tem 3,5% das ações), Paulus acredita ser necessário enfrentar o tema segurança e vender melhor o cardápio turístico brasileiro no exterior – sem ter vergonha de dizer os pontos fracos. O empresário, que integra o Conselho Nacional do Turismo, mostra preocupação com a alta do dólar e a possível chegada do coronavírus ao Brasil, que certamente afetará a cadeia do setor. “O Brasil terá de viver do turismo interno.”

Sérgio Vieira
Edição 31/01/2020 - nº 1156


Dinheiro – O número de passageiros estrangeiros que visitam o Brasil anualmente tem ficado entre 6 milhões e 7 milhões, inferior ao que recebe a ilha espanhola Palma de Mallorca. Como mudar isso?
Guilherme Paulus – Temos apenas três companhias aéreas e que não cobrem muitos países. E as internacionais, quando voam para o Brasil, trazem, em sua maioria, brasileiros que visitam parentes. Turistas, muito pouco. Recentemente, liberamos vistos para americanos, australianos, canadenses e japoneses, o que aumentou um pouco esse fluxo.

Dinheiro – Na sua opinião, o que deveria ser feito no curto prazo para mudar esse cenário?
Deveríamos aproveitar melhor as embaixadas brasileiras, reunir as operadoras internacionais e trazer esse pessoal para que reconheça de novo o Brasil. A gente vê muito pouco os agentes receptivos em estandes de feiras vendendo o País no exterior. A extinta Varig chegou a ter escritórios de representação, porque tinha necessidade de ocupar os aviões. A Vasp também. Hoje isso não existe mais e acaba estagnando o mercado. O Brasil se vende muito mal no exterior. O Rio de Janeiro, por exemplo, pode aproveitar mais e não aceitar o que se fala sobre segurança. Se fosse isso, Israel e Líbano não receberiam turistas. Poderíamos criar zonas de segurança, como fez Bogotá, por exemplo, e dar condições de o turista conhecer Copacabana, Ipanema, Leblon. Temos de informar onde é seguro. Não podemos ter vergonha.

Segurança, então, não é um limitador para o turismo?
Não. Batedor de carteira tem no mundo todo. Não há um lugar que não tenha assalto. O que não podemos é esconder o problema.

Então a política de turismo no Brasil deveria ser diferente? Não deveria ter mais prioridade?
Ainda falta o que fazer. Há bons trabalhos, mas quando muda o gestor, muda tudo. O grande problema do Brasil é a falta de continuidade nas ações. A falta de planejamento no País é brutal. Mas há maiores prioridades que turismo, como saúde e educação. Precisamos consertar a base para pode pensar num turismo mais forte. E temos graves problemas de infraestrutura. A gente quer ser um país de primeiro mundo, mas não é. Temos problemas sociais enormes, como a questão do morador [em situação] de rua. É desagradável passar e ver gente dormindo na rua. Para aumentar o número de turistas, precisamos olhar para essas questões.

O senhor, com a CVC, contribuiu para que a classe média pudesse viajar mais pelo Brasil. No entanto, lugares como Porto Seguro, na Bahia, ainda enfrentam problemas de infraestrutura, mesmo sendo um dos destinos mais procurados. Não poderiam estar em melhores condições?
Claro que sim. Há desorganização, falta de padrão. Em Gramado, por exemplo, há padrão nas construções. Em Porto Seguro, cada um faz o que quer. Não há padrão nas lojas, há muitos vendedores no meio da rua. Precisa organizar. O que vemos é calçada esburacada, um cadeirante mal consegue passar.

Divulgação “[O coronavírus] Vai afetar. Não tem como. Como os chineses virão para cá? Os negócios param e o número de turistas estrangeiros vai diminuir” (Crédito:Divulgação)
Então por que tanta gente visita Porto Seguro?
Porque brasileiro adora sol e mar e é um turismo econômico. Além disso, é um destino perto. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro estão a uma hora, uma hora e meia de lá.

Qual foi a fórmula para conseguir convencer um trabalhador de classe média a fazer um carnê e pagar em 10 vezes uma viagem de férias para o Nordeste com a família?
Eu me espelhei no Samuel Klein [fundador das Casas Bahia]. E fomos os pioneiros nos shopping centers. Levamos o turismo diretamente à mesa dos trabalhadores das montadoras do ABC. Viajar é sonho. Quem não quer ir a Paris, Disney? A CVC ajudou o brasileiro a desenvolver o hábito de viagem nas férias. E o índice de inadimplência é baixíssimo, porque as pessoas se planejam.

Hoje o senhor saiu do turismo popular para o de luxo. Como foi essa mudança?
Havia uma demanda dos próprios clientes. Mercado de luxo era pequeno e começou a procura por hotéis butique. Em 2009 surgiu a oportunidade de comprar um castelo construído em Gramado e o transformei em hotel [Saint Andrews]. Investi R$ 10 milhões na decoração e nas adaptações. Começamos 2020 com 59% de taxa de ocupação. Em 2019, o índice foi de 18%.

No ano passado, segundo o Ministério do Turismo, 97 milhões de passageiros viajaram pelo Brasil, com um crescimento tímido em relação a 2018. O senhor considera um bom número?
Turistas, de fato, foram muito poucos. A maior parte é de executivos em viagens a negócios, que representam pelo menos 60%. O restante se divide entre os que viajam para casas de parentes e turistas de fato. A CVC transportou 6 milhões de pessoas, 60% internamente e 40% para o Exterior. Perto de uma população de 210 milhões de brasileiros, é pouco. Tem muita gente para viajar, mas faltam empresas aéreas para isso.

A legislação que permitiu companhias com 100% de capital estrangeiro a operar no Brasil pode mudar esse cenário?
Pode mudar. E com a redução dos impostos de combustíveis, podemos ver mudança sim. Nos Estados Unidos, as companhias aéreas internas têm subsídios, não há impostos em combustíveis.

O senhor acredita que deveria ser assim no Brasil?
Sim. Isenção total, que poderia gerar emprego e renda. Dessa forma, as pessoas se locomoveriam mais e as passagens ficariam mais baratas. Mas é importante contrapartida, cobrando das companhias aéreas mais voos. Nós temos que seguir o exemplo de quem faz a coisa bem-feita. A gente faz mais ou menos.

Nós conseguimos aproveitar os legados da Copa, em 2014, e da Olimpíada no Rio, em 2016?
O Brasil não aproveitou porque ninguém vendeu o Brasil lá fora. Veio quem quis vir. Participar de uma feira internacional e falar que vai ter Copa no Brasil é legal. Mas como o turista faz para chegar? Com quem compra as passagens?

Mas nessa época o senhor já participava do Conselho Nacional de Turismo. Isso não foi discutido?
Sim, mas a presidente Dilma Rousseff dizia que estava tudo bem e que tudo ia ficar pronto. Eu fiz um trabalho, na época, para o Ministério do Turismo sobre o andamento dos estádios da Copa. Dos 12, só dois mandaram relatórios: Bahia (Estádio Fonte Nova) e Rio Grande do Sul (Estádio Beira-Rio). Nem São Paulo mandou.

Plataformas como Airbnb causaram impacto no mercado hoteleiro?
Sempre teve esse tipo de serviço. É a volta dos aluguéis de casa de praia como antigamente. Mas ajudou a hotelaria a sair da zona de conforto e melhorar as condições. Você sai da sua casa e quer, no mínimo, ter a mesma estrutura. É importante entregar produto bom.

O que é necessário para aumentar o número de voos regionais no Brasil?
Falta incentivo e infraestrutura nos aeroportos. Precisa acabar com barracões. E o caminho é privatizar. Poder público, de uma forma geral, não sabe administrar.

“Precisa de mais um (aeroporto) para desafogar Congonhas e Guarulhos, que acabaram se tornando estações rodoviárias, sempre muito cheios, sem conforto” (Crédito:Fepesil)

São Paulo comporta mais aeroportos?
Precisa de mais um para desafogar Congonhas e Guarulhos, que acabaram se tornando estações rodoviárias, sempre muito cheios, sem conforto para os passageiros. Foz do Iguaçu, por exemplo, que tem um enorme atrativo como as Cataratas, tem um aeroporto muito pequeno. O aeroporto de Porto Seguro também deveria ser reformado. Cobra-se mais companhias aéreas, mas não há estrutura para isso. Não há slots em Congonhas ou Guarulhos. Em Campinas tem, mas deveria haver condições para o passageiro chegar mais rapidamente a Viracopos, como uma linha de metrô, e não enfrentar duas ou três horas para chegar. Também vale para os ônibus, que são excepcionais, mas nossas estradas são péssimas. A Rodovia Presidente Dutra deveria ter mais pistas. Passageiro, de um modo geral, não é bem cuidado. Falta mais respeito. E a população precisa cobrar mais.

Os episódios envolvendo o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, sobre investigações das candidaturas do PSL em Minas Gerais, afetam o setor?
Não acho que afete o setor. Mas é difícil dizer sobre qualquer decisão nesse caso. Vai da consciência de cada um. Na minha opinião, ele poderia se afastar até tudo ser esclarecido. Como ele tem a consciência tranquila, de que nada fez, então permanece no cargo. Afastar-se é uma decisão pessoal. E até que se prove o contrário, ele é inocente.

O Brasil começa a ter casos suspeitos de coronavírus. Isso deve prejudicar o turismo?
Vai afetar. Não tem como. O mercado chinês começa a fechar. Como os chineses virão para cá? E os americanos? Os negócios param e o número de turistas estrangeiros vai diminuir. Somando a isso a alta do dólar, o Brasil terá de viver do turismo interno, já que o medo também afasta o turista. O próprio episódio da mancha de petróleo no Nordeste, apesar de já ter sido resolvido, chegou a afetar. Na dúvida, o passageiro muda o trajeto.

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