Economia

O Brasil que o PIB quer

Na eleição das reformas, entidades empresariais enxergam um espaço maior para influenciar a agenda do País. O esforço de atenção aos presidenciáveis está cada vez mais profissional

Crédito: Aloisio Mauricio/Fotoarena

Todos devem ouvir: os principais candidatos à Presidência no primeiro debate televisionado. Para as entidades empresariais, não deve haver distinção ideológica no momento de apresentação da pauta setorial (Crédito: Aloisio Mauricio/Fotoarena)

Num café-da-manhã recente com empresários da construção, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) surpreendeu os presentes ao recitar, com domínio, a partir de uma folha de anotações, ideias acerca de temas do setor, como o chamado distrato, que prevê a desistência do comprador num contrato imobiliário. O candidato fora preparado pela equipe de sua campanha, o “posto Ipiranga”, como ficou conhecido o grupo liderado por seu guru econômico, Paulo Guedes. Ele mostrou empolgação com as demandas, reiterou o compromisso de colocar à disposição a “caneta presidencial” para implementar políticas voltadas à construção e sinalizou um novo encontro a ser realizado com o time de Guedes. O setor não se ilude. Sabe que não há garantias de que os pleitos sairão do papel caso o deputado vença, mas considera uma vitória os minutos que o político dedicou a estudar os tópicos e refletir sobre a pauta.

Meses antes do início oficial da campanha política, na quinta-feira 15, um grupo de empresários como os da construção já se dedicava ao pleito. Entidades setoriais convocaram suas bases a nomear assuntos prioritários para compor uma agenda de País. As pautas tentam influenciar os programas de governo dos candidatos, assim como as políticas futuras do vencedor. São documentos que costumam ser entregues pessoalmente aos aspirantes, em debates conjuntos ou visitas individuais às associações e sindicatos. A prática vem se consolidando no empresariado e ganha importância especial numa disputa em que está em jogo uma revisão mais profunda do País, com o pano de fundo das reformas. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, brinca o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, num misto de ceticismo e esperança sobre o efeito da iniciativa.

A prática é repetida pelo setor desde 2006 e ajudou a estimular a formulação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além do Minha Casa, Minha Vida. Para melhorar a aderência aos pleitos neste ano, a Coalizão pela Construção, formado por 26 entidades do setor, optou por um debate e não apenas a simples entrega do documento. Vinte perguntas foram enviadas aos participantes, que tiveram de responder seis delas no dia. Entre os principais nomes na corrida, apenas Bolsonaro não pôde comparecer – daí porque a visita num dia separado. Na agenda proposta pela construção, há temas comuns a outros setores, como segurança jurídica e reforma tributária, além de pleitos específicos, como uma lei de desapropriações, uma nova faixa do Minha Casa, Minha Vida e a capitalização da Caixa Econômica Federal. “A mensagem principal é: não precisamos de dinheiro público”, afirma Martins.

Debate da indústria: agenda da CNI possui 43 documentos e até redação de projetos de lei (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress)

A preocupação fiscal é repetida nas demandas levantadas por outros grupos empresariais. “Nenhum dos pleitos resulta em aumento de gastos públicos”, afirma Marina Mattar, diretora da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). A entidade contratou, pela primeira vez, uma consultoria externa para preparar o estudo aos candidatos. Os sete meses de trabalho estão resumidos em 73 demandas, desde as mais gerais, como a redução da burocracia, até as focadas, como a realização de leilões específicos de óleo e gás para a indústria. O planejamento se reflete em números, uma tentativa de aumentar o convencimento às campanhas. Caso fosse aprovada na íntegra, a pauta poderia render um incremento de US$ 37,6 bilhões no faturamento do setor somente na próxima gestão presidencial. “O próximo presidente vai ter de definir o que quer do País”, afirma Mattar. “Vai ser um desperdício não usar a riqueza brasileira.” O documento será apresentado em evento com os presidenciáveis no dia 28.

DINHEIRO analisou dez pautas elaboradas aos presidenciáveis. Se fosse possível chegar a uma proposta comum, ela seria composta de alguns itens centrais: reforma tributária, reforma da Previdência, maior investimentos em infraestrutura, apoio à inovação, redução do Estado e segurança jurídica. Quem mais se aproxima de uma pauta geral é a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade representa 1.250 sindicatos e mais de 700 mil indústrias pelo Brasil. É responsável por um dos principais debates com os presidenciáveis na fase inicial da campanha e por uma das compilações mais completas de agenda econômica. Nos 43 documentos, divididos em sete temas, o nível de detalhamento é tão profundo que inclui até sugestões de redação de projetos de lei. “É preciso estar preparado para ter um conjunto de agendas disponível no momento em que a janela aparecer quando o governo estiver operando”, afirma o diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Fernandes.

O documento ficou mais robusto a partir das eleições passadas. Cerca de 600 pessoas foram envolvidas nesta versão, que incluiu, a pedido dos associados, temas como segurança pública e o gasto das empresas com saúde. Ao avaliar as demandas do pleito anterior, Fernandes pondera que, com a reforma trabalhista, cerca de 75% das demandas apresentados foram atendidas. A entidade inclusive está convocando os assessores de alguns presidenciáveis que se mostraram reticentes à revisão da CLT, para tentar discutir o tema. Para este ano, a reforma tributária é considerada o maior e mais importante desafio.

Controversa: a manutenção da reforma trabalhista tem sido reforçada aos candidatos (Crédito:Lula Marques/AGPT)

Os empresários da indústria endossam a pauta comum, mas fazem questão de avançar nas agendas segmentadas. Os fabricantes de máquinas e equipamentos cobram, por exemplo, uma política setorial exclusiva e alertam para os riscos de uma abertura comercial unilateral, como indicam alguns candidatos. “Para o Brasil voltar a crescer, precisa de políticas de desenvolvimento, para eliminar as assimetrias em relação ao mundo”, afirma o presidente da Abimaq, João Carlos Marchesan. “Conforme melhorarem as assimetrias, é possível fazer as aberturas proporcionais.”

No comércio e no agronegócio, é possível também encontrar contribuições complementares de agenda, tanto abrangentes como específicas. No campo macroeconômico, por exemplo, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomercio-SP) defende a independência do Banco Central e metas de inflação decrescentes. No campo microeconômico, a entidade sugere o apoio do governo federal para criar agências como as do Poupatempo paulista e uma iniciativa similar para as empresas. Já o recado da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Única) traz um alerta para que os presidenciáveis não embarquem em políticas de congelamento de preços da gasolina que causaram prejuízos ao setor, bem como uma convocação para apoiar uma melhora da eficiência nos motores flex.

Nem todos enxergam a necessidade de formalizar um documento. Empresários das maiores redes varejistas do País, reunidos no Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV) chegaram a esboçar uma agenda, mas desistiram. Concluíram que o mais importante era ouvir e ter a oportunidade de conversar com os principais nomes da corrida eleitoral de 2018. Pela primeira vez, organizaram as reuniões com os presidenciáveis. “Uma eleição diluída e polarizada obriga a entender, ouvir todos, sem rótulos”, afirma Antonio Carlos Pipponzi, presidente do IDV e do Conselho de Administração da RD. “Não existe candidato perfeito. Temos de entender como cada um pensa, o grau de influência que se pode ter sobre cada um e discutir o quão flexíveis são em alguns pontos.”

Os planos apresentados pelas entidades empresariais são apenas uma frente de informação dos candidatos. O período de campanha é o que ajudará a entender melhor detalhes do País. Questionado sobre infraestrutura na sabatina promovida pela revista ISTOÉ, o tucano Geraldo Alckmin afirmou, por exemplo, que pretende percorrer toda a expansão da problemática rodovia BR-163, que liga o Rio Grande do Sul ao Pará. Sobre as agendas apresentadas pelas entidades empresariais, ele informou que cabe à equipe, liderada pelo economista Persio Arida, avaliar o que é possível encaixar no plano de governo. “Há muitas propostas que já estão contempladas, mas outras boas que trazem novidades e inovações”, afirmou à DINHEIRO. Ele destaca ainda a contribuição de interessados pela internet, por onde já chegaram mais de 1.000 propostas ao plano de governo. Não só pela campanha do tucano, é fácil perceber que o problema do Brasil nos próximos anos não será falta de agenda.


Planos genéricos

Os candidatos à Presidência apresentaram na última semana os planos de governo de suas campanhas. As propostas são formadas por temas genéricos, que devem ser mais bem elaborados futuramente. Há algumas pistas nos documentos iniciais. Marina Silva (Rede), por exemplo, defende privatizações e uma abertura comercial. Geraldo Alckmin (PSDB) propõe acabar com o déficit fiscal em dois anos e uma redução no número de ministérios. O plano do PT, que confirmou Lula como candidato, apresenta a intenção de isentar de Imposto de Renda os trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos, assim como promover uma reforma no sistema bancário. Ciro Gomes (PDT) cita temas como a redução em 15% das desonerações tributárias e a isenção de tributos na compra de máquinas e equipamentos. Já Alvaro Dias (Podemos) promete entregar um crescimento de 5% do PIB e zerar o déficit fiscal em 2019. Jair Bolsonaro (PSL) apresenta a ideia de um superministério da Economia e diz ser possível ter superávit em 2020. A campanha começou e cabe agora aos candidatos explicar melhorar as propostas.