Pablo Di Si

Entrevista

Pablo Di Si, presidente da Volkswagen Brasil e América do Sul

O Brasil precisa definir o que é prioridade

Claudio Gatti

O Brasil precisa definir o que é prioridade

Hugo Cilo
Edição 23/03/2018 - nº 1062

O executivo argentino Pablo Di Si, há seis meses no cargo de presidente da Volkswagen para o Brasil e América do Sul, recebeu da matriz alemã a missão de recolocar a empresa na liderança do mercado brasileiro. Durante a crise do setor, a montadora caiu para a terceira colocação no ranking nacional, atrás de GM e Fiat. A marca fechou o ano passado com 12,5% de participação de mercado, longe dos 18,1% da rival americana. Por isso, Di Si teve sinal verde para lançar 20 novos modelos no País, mergulhar no segmento de SUVs e investir R$ 7 bilhões em dois anos. A indefinição do governo em relação ao programa Rota-2030, um plano de incentivos ao setor, tem incomodado. “O programa Rota-2030 é estratégico para o Brasil”, afirmou o executivo à DINHEIRO. “Não podemos perder esse trem.” Leia, a seguir, sua entrevista:

DINHEIRO – Há muito anos, talvez décadas, o setor automotivo reivindica ajuda e incentivos do governo. Por que as montadoras não conseguem seguir em frente com as próprias pernas?

PABLO DI SI – Todo governo precisa definir quais são as indústrias estratégicas de seu país. Pode ser o agronegócio, a tecnologia ou qualquer outro. A pergunta que o governo brasileiro precisa responder é se a indústria automobilística é importante para o País. Se a resposta é sim, precisa lançar incentivos para desenvolver a cadeia. As montadoras pagam mais de R$ 50 bilhões em impostos por ano. Por outro lado, os benefícios e incentivos são de R$ 1,5 bilhão por ano. Em termos de investimentos, são mais de R$ 20 bilhões, somando todas as montadoras. Então, o Brasil precisa definir o que é prioridade. Se não tiver o Rota-2030, para onde vai o dinheiro dessa pesquisa e desenvolvimento? Vai para fora. Isso é muito ruim para o Brasil.

DINHEIRO – Mas o Rota-2030 não vai gerar mais privilégios para o setor, historicamente protegido pelo governo?

DI SI – O programa Rota 2030 é estratégico para o Brasil. Nós não podemos perder esse trem. Se a gente perder o ‘timing’, quem vai pagar o preço é o consumidor. Não serão desenvolvidos carros aqui. Teremos menos engenharia, menos pesquisa. Os carros continuarão sendo vendidos, mas serão carros defasados. O Inovar-Auto, lançado pelo governo anterior, deu um incentivo grande para pesquisa e desenvolvimento. Eu estava no Brasil entre os anos 2000 e 2013, e me lembro muito bem dos carros da época. Eram bem básicos. E com o Inovar-Auto muitas montadoras investiram pesado em pesquisa e tecnologia, com engenharia brasileira.

DINHEIRO – Mas outros países da América Latina não concedem incentivos às montadoras…

DI SI – Mas se não existem políticas de incentivo aqui, as montadoras podem levar a engenharia para a Alemanha ou para os Estados Unidos. Temos que saber que tipo de País queremos. Todas as indústrias precisam de algum tipo de subsídio. Ainda mais o Brasil, onde os Estados têm autonomia para dar benefícios específicos para as montadoras. O próprio governo federal concede incentivos específicos para quem se instalar no Nordeste. Três montadoras estão lá. E há um desconto de 75% no Imposto de Renda para todas as indústrias. Então, esses incentivos já existem no Brasil.

DINHEIRO – Por que o Brasil, apesar dos investimentos, está sempre atrás dos grandes mercados globais em tecnologias, como no caso dos carros elétricos e dos autônomos?

DI SI – Se o Brasil quer ter carro elétrico ou autônomo, tem de planejar a infraestrutura. Na Argentina, o governo reduziu o imposto de importação para zero para elétricos e híbridos. Nos postos de combustíveis da YPF, serão instalados 450 pontos de recarga de carro elétrico nos próximos dois anos. Então, tem de ser planejado. A Argentina tomou decisões lá trás e que se tornaram realidade. E a gente ainda está discutindo se o Rota-2030 será com imposto de 5%, 7% ou 9%. Para mim, tem de ser zero. O mais importante do Rota-2030 é conseguir manter no Brasil a inteligência, a pesquisa. O risco é que os próximos projetos sejam desenvolvidos em outros países. Eu acho que esse programa precisa ser definido neste trimestre. Nós já pedimos mais uma audiência com o presidente Michel Temer, por meio da Anfavea (associação que representa as montadoras). Ele sabe da relevância do tema, mas o ambiente político e fiscal é desfavorável.

DINHEIRO – Com a mudança de governo, a Volkswagen não previa mudanças nas políticas voltadas ao setor?

DI SI – Não. O que nós não podemos aceitar é o que está acontecendo agora. Nós anunciamos investimento de R$ 7 bilhões. Outras montadoras do País anunciaram R$ 3 bilhões, R$ 5 bilhões. Esses investimentos foram definidos com uma determinada regra de jogo, com o Inovar-Auto. Acreditávamos que ia continuar. Mas, agora, no meio do caminho, as regras do jogo estão mudando.

“Mesmo que o mercado volte aos patamares pré-crise, é fundamental não abrir mão das exportações”Exportação de Volkswagen Up! no Porto de Santos (Crédito:Pedro Danthas)

DINHEIRO – E se as regras mudarem de novo, com a escolha de um presidente populista e antimercado?

DI SI – Como presidente da Volkswagen, não emito opinião sobre assuntos políticos ou se um presidente é populista ou não. Vamos respeitar o processo democrático de todos os países e, quando o governo, seja qual for, definir as regras do jogo, nós jogamos. Sempre nos adaptamos e somos flexíveis. O que torcemos é que não exista mais tanta volatilidade. Isso é um ponto de atenção, não de preocupação.

DINHEIRO – A atual equipe econômica tem feito um bom trabalho?

DI SI – O time econômico do Brasil é um dos melhores que eu já vi. Os caras estão fazendo um trabalho fantástico, com Henrique Meirelles como o cabeça. Temos a menor inflação da história. As taxas de juros são as menores. As famílias estão conseguindo amortizar suas dívidas e o crédito está girando novamente. Os resultados falam por si. E não é só para a indústria automobilística. Quando converso com presidentes de bancos, eles me contam que há uma melhora generalizada: no varejo, nas indústrias, nas áreas de tecnologia e nas de telefonia celular. Então, esse descolamento da economia e da política é cada vez mais evidente.

DINHEIRO – Como a Volkswagen conseguiu se manter durante a crise?

DI SI – Basicamente, exportando mais. A Volkswagen é, historicamente, a maior exportadora do Brasil. E foi assim em 2017. Nós exportamos 163 mil carros. O importante não é tomar decisões de curto prazo. E já fiz isso no passado, de forma equivocada. Mesmo que o mercado brasileiro volte aos patamares pré-crise, é fundamental não abrir mão das exportações. Porque nenhum ciclo será positivo por vinte anos. Nós teremos outra queda de mercado em cinco, sete ou dez anos. Então, precisamos estar preparados para conduzir a empresa nesses períodos. Temos de olhar o médio prazo e o longo prazo. Tanto faz se o dólar está a R$ 3,20, R$ 1,80 ou R$ 4,00. Seja qual for o câmbio, temos de ser competitivos para exportar. Acho que 2018 será um ano muito positivo. O mercado argentino está crescendo a um ritmo de 23% sobre o ano passado. Colômbia, Chile e Peru continuam crescendo de forma sustentável. Temos tudo para ter um ano de arrebentar.

DINHEIRO – Como a Volkswagen vai recuperar o mercado perdido?

DI SI – Nosso objetivo é voltar à liderança em um ano. Temos que nos aproximar de nossos ‘stackeholders’, sejam fornecedores, sindicatos e empregados. Sabemos que precisamos nos tornar uma empresa mais ágil, mais leve, voltada mais para as pessoas. Essa é a mudança mais radical que estamos promovendo nos últimos tempos. Outro pilar é o plano de lançamentos. Serão 20 novos produtos. É a maior ofensiva da história da empresa no Brasil.

“O time econômico do Brasil é um dos melhores que eu já vi. Os caras estão fazendo um trabalho fantástico”Henrique Meirelles (à esq.), ministro da Fazenda, e Ilan Goldfajn, do Banco Central (Crédito:Antônio Cruz / Agência Brasil)

DINHEIRO – Como resolver as dificuldades dos fornecedores? Muitos deles quase quebraram na crise…

DI SI – Ainda estamos em um processo de reaproximação com nossos fornecedores. Primeiro, estamos promovendo muitos eventos de relacionamento. Estamos convidando todos para participar de nossos lançamentos, muitos deles dentro de nossas fábricas. Para o lançamento do Virtus, chamamos trinta grandes fornecedores, os CEOs e os executivos das empresas. E daí também chamamos o BNDES, que colocou na mesa todo o portfólio de financiamentos disponível. Não seria um trabalho nosso aproximar o BNDES dos fornecedores, mas é algo que faz parte do relacionamento. No fim do dia, se o fornecedor é mais eficiente, toda a cadeia será mais eficiente. Nós seremos mais eficientes. E o benefício será do cliente final.

DINHEIRO – Os fornecedores já estão preparados para e retomada?

DI SI – Hoje temos alguns problemas pontuais de falta de peças. Mas sabemos que é natural que, diante de uma queda tão violenta do mercado nos últimos anos, que os fornecedores levarão alguns meses para conseguir se adaptar. É natural. Não quer dizer que os fornecedores são ruins. Estamos crescendo 37% no primeiro bimestre. O mercado cresceu 19%. Quando olho para trás, vejo que tivemos muitos problemas na linha de produção do Polo. Muito menos problemas no Virtus. Então, vai melhorando. Até junho vai se estabilizar.

DINHEIRO – Esse processo de ajudar fornecedores inclui empréstimos com dinheiro da Volkswagen?

DI SI – Não, de forma alguma. Mas vamos ajudá-los, por outros caminhos. O Brasil passou por momentos muito difíceis nos últimos anos. Quando se observa uma queda expressiva no faturamento, e muitos fornecedores tiveram prejuízo, fica muito difícil para eles conseguir um empréstimo. Agora, com essa retomada do mercado, queremos ajudar os fornecedores a se preparar melhor, seja para comprar as máquinas com prazos maiores e taxa de juros menores, ou mesmo para reforçar seu capital de giro. Mas não será com dinheiro nosso.

DINHEIRO – Por que Volkswagen ficou fora o segmento de SUVs, o que mais cresceu nos últimos anos?

DI SI – Isso foi um erro. E vamos corrigir. O segmento de SUVs saiu de uma participação de 5% para 20%. Nós pecamos no passado e, agora, faremos a maior ofensiva de SUVs na história da marca. No mundo, lançaremos mais de 20 SUVs nos próximos anos. Na América do Sul serão cinco. Primeiro, o Tiguan. No começo do próximo ano será o T-Cross, que será produzido em nossa fábrica de Curitiba. Depois, o Tarek. Os outros dois serão definidos mais para frente.

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