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O Brasil no banho turco

Mercados balançam com turbulência internacional. Saiba o que pode acontecer com o dólar

O Brasil no banho turco

A importância da Turquia para a economia brasileira é bastante limitada. O país ocupa uma discreta trigésima posição entre os parceiros comerciais, com uma corrente de comércio de US$ 1,87 bilhão no acumulado de janeiro a julho deste ano. A relevância para o mercado financeiro não é muito maior. Há poucos investimentos brasileiros por lá e investidores turcos são igualmente raros por aqui. Mesmo assim, o fato de o governo de Ancara ter aberto mais uma frente de batalha na guerra comercial que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, trava com o resto do mundo (leia mais aqui) provocou um terremoto nos mercados financeiros dos países emergentes, Brasil entre eles. E a notícia ruim é que esse cenário não vai mudar tão cedo e tem possibilidades razoáveis de piorar um pouco mais antes de melhorar.

Trump vai à “guerra”: elevação de tom e sanções contra produtos da Turquia provocaram solavancos nos pregões (Crédito:AP Photo/Carolyn Kaster)

A piora das expectativas foi sentida com mais ênfase no mercado de câmbio. Ao longo da quarta-feira 16, o preço do dólar comercial chegou a R$ 3,92 e fechou, segundo o Banco Central (BC), a R$ 3,913, maior nível desde 6 de julho. No mês, a alta acumulada é de 4,22%. O pregão da B3 não passou incólume. No pior momento da quarta-feira, a queda ultrapassou 2,2% e o Índice Bovespa acabou amargando uma queda de 1,9%. Para os especialistas, a volatilidade não tem hora para acabar. “O que ficou evidente é que as principais economias mundiais estão com uma capacidade de coordenação bem menor e o ambiente para os negócios está mais inóspito”, diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da corretora Nova Futura. “E isso amplifica o sentimento de incerteza do mercado financeiro no Brasil.”

Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura: “As principais economias mundiais estão com uma capacidade de coordenação menor e o ambiente de negócios está mais inóspito” (Crédito:Gustavo Lourencao/ Valor/Folhapress)

Os solavancos do câmbio mostram bem como os agentes financeiros estão suscetíveis a notícias ruins. Segundo a economista Fernanda Consorte, estrategista de câmbio do banco Ourinvest, o susto na Turquia fez o dólar subir dez centavos. O câmbio saiu do patamar de R$ 3,80 em direção ao de R$ 3,90 na semana do dia 16. No entanto, diz ela, as cotações já se haviam elevado dez centavos na semana anterior, ainda antes da eclosão dos problemas na Ásia Menor, quando mudaram da faixa de preços de R$ 3,70 para a de R$ 3,80. “Claro que houve um contágio pela deterioração no cenário internacional, mas estamos em um período muito complicado no Brasil”, diz Consorte. “Boa parte da depreciação do real que observamos nos últimos dias foi causada por pesquisas eleitorais que desagradaram o mercado.”

Fernanda Consorte, estrategista de câmbio do banco Ourinvest: “Boa parte da depreciação do real que observamos nos últimos dias foi causada por pesquisas eleitorais que desagradaram o mercado.” (Crédito:Silvia Costanti / Valor)

O que os investidores querem ver são pesquisas de opinião que mostrem eleitores majoritariamente propensos a votar em um presidente alinhado com as demandas do mercado, em especial a austeridade fiscal e a reforma da previdência. “Só que os candidatos viáveis com essas bandeiras ainda não estão bem colocados na preferência dos eleitores”, diz Consorte. Para ela, a incerteza e a consequente volatilidade dos preços só deverão se atenuar com o início da propaganda eleitoral gratuita, previsto para o fim de agosto. “Haverá menos incerteza e o mercado vai poder fixar melhor os preços.”

Fernanda Fonseca, economista do APP Renda Fixa, plataforma digital de busca e comparação de investimentos, avalia que o movimento foi ampliado pela percepção de fragilidade da economia brasileira. “Os investidores internacionais estão cada vez mais propensos a retirar recursos dos países emergentes, e o Brasil não é uma exceção”, diz ela. No entanto, segundo Silveira, da Nova Futura, mesmo que a taxa de câmbio ultrapasse o nível psicologicamente importante de R$ 4,00, isso terá uma importância relativa menor. “O câmbio superou R$ 4,00 pela primeira vez em 2002, com o crescimento do então candidato Lula nas pesquisas eleitorais, e antes da divulgação da Carta aos Brasileiros”, diz ele. “Mas é bom lembrar que, corrigindo essa taxa pela inflação, aquele dólar estaria perto de R$ 7,00.”

Toda essa volatilidade representa oportunidades de ganho? A recomendação clássica é deixar as aplicações ligadas ao dólar apenas para profissionais, devido à imprevisibilidade do mercado. Nessas horas, sempre é bom lembrar a frase do ex-ministro Antonio Delfim Netto. “Há três fatores que levam a pessoa à loucura: o amor, a ambição desmedida e o mercado de câmbio.”