Finanças

O bitcoin salvará El Salvador?

Dolarizado há tempos, país adota a criptomoeda como meio circulante para estimular sua economia e provoca arrepios na comunidade financeira internacional.

Crédito: REUTERS/Jose Cabezas

SOMENTE DÓLARES cerca de 20% das divisas salvadorenhas vêm de remessas de emigrantes. (Crédito: REUTERS/Jose Cabezas )

Em um movimento ousado o governo de El Salvador colocou em prática na terça-feira (7) seu plano de adoção do bitcoin como moeda nacional. Há tempos, os 6,5 milhões de habitantes do menor país da América Central usam dólares no dia a dia. Agora, a meta do jovem presidente Nayib Bukele é que as transações sejam realizadas por meio da criptomoeda. Para isso, o governo começou a instalar caixas automáticos para que a população pudesse movimentar os bitcoins e criou uma carteira virtual, denominada Chivo Wallet. Nela, cada salvadorenho recebeu o equivalente a US$ 30, um valor importante tendo em vista o PIB per capita de US$ 8,7 mil por ano.

A medida é corajosa e representa mais um passo na evolução do bitcoin. Minerada desde 2008, a criptomoeda há tempos não está mais restrita a nichos tecnológicos e a transações na internet. Porém, sua adoção por El Salvador é o avanço mais radical. E não vem ocorrendo sem solavancos. No primeiro dia de vigência das medidas, as cotações da criptomoeda recuaram cerca de 15% devido a problemas na criptografia e nas transações. A entrada rápida de tanta gente no blockchain provocou instabilidades na rede, o que derrubou os preços do bitcoin e de muitas outras criptomoedas. Na véspera da legalização, El Salvador havia adquirido 200 bitcoins. A demanda foi tão forte que o governo teve de dobrar a meta no dia seguinte e comprar mais 400 unidades da criptomoeda, em um investimento total de US$ 28 milhões. Mesmo assim, os preços caíram.

O objetivo de Bukele é oferecer uma alternativa ao dólar e mudar os rumos da economia. El Salvador é um país pobre. Ainda há marcas da guerra civil que durou de 1980 a 1992 e levou milhares de pessoas a emigrar. Ainda hoje, 20% das receitas em moeda forte vêm das remessas internacionais de salvadorenhos que moram fora. Os principais produtos de exportação são tecidos e papel higiênico. Os negócios andam em marcha lenta desde a década passada, situação que piorou com a pandemia. Bukele é jovem, influenciador digital e foi eleito com um discurso modernizador e populista. Com maioria no Congresso, trocou os membros da Suprema Corte e aprovou a mudança sem problemas, na qual apostou todas as fichas do país e mais algumas. “Três minutos para fazer história”, escreveu em seu perfil no Twitter pouco antes que o sistema entrasse em funcionamento. “Claro que o processo de adoção do bitcoin terá uma curva de aprendizado. Todo caminho novo é assim.”

RAPAZ MODERNO O influenciador digital e presidente Nayib Bukele aposta todas as fichas na criptomoeda. (Crédito: Yuri CORTEZ/AFP)

A adoção das moedas digitais segue em alta desde 2020. Segundo a empresa de análise de dados para redes blockchain Chainalysis, alguns países como a Índia, Paquistão e até o Vietnã registraram um aumento de 881% no interesse por ativos digitais. Os profissionais da área avaliam que a medida pode estabelecer uma tendência. O executivo de novos negócios da exchange Mercado Bitcoin, Bruno Milanello, disse acreditar que mais países devem adotar as moedas digitais nos próximos meses. “Vamos aprender muito com El Salvador e com a chegada das moedas digitais dos bancos centrais”, disse.

RISCOS Se der certo, claro. A medida gera desconfiança por vários motivos Um deles é que 70% da população salvadorenha é desbancarizada. Um percentual semelhante é simplesmente contra a decisão. E a mudança provoca calafrios nas autoridades financeiras internacionais, que temem que o país se torne um paraíso virtual para quem quiser usar as criptomoedas para lavar dinheiro. A popularização do bitcoin tem levado à proliferação dos golpes, em locais bem distantes de El Salvador. O ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos criou a GAS Consultoria e Tecnologia na cidade fluminense de Cabo Frio. A empresa vendia pretensos investimentos em criptomoedas, prometendo um rendimento de 10% ao mês durante 24 meses, ao fim dos quais devolveria o dinheiro. Parecia bom demais para ser verdade e era mesmo. Santos foi preso no início de agosto quando a pirâmide financeira foi desmantelada pela Polícia Federal. Ainda não há um cálculo de quantas pessoas foram lesadas nem de quanto dinheiro foi desviado, mas quando os homens da lei chegaram à casa de Santos, avaliada em R$ 9 milhões, encontraram 13 malas de dinheiro com mais R$ 7 milhões.

Seria injusto dizer que os golpes só ocorreram porque os investimentos eram realizados com criptomoedas. Pirâmides financeiras podem ser articuladas com qualquer ativo, desde que haja a mistura correta de oportunismo e desonestidade de um lado e ganância de outro. Os golpes acontecem, segundo Milanello, por desconhecimento. “Golpistas se especializam em brechas para se aproveitar dos investidores”, disse. Mas, ao mesmo tempo que os golpes avançam, a cibersegurança também aumenta e a tecnologia do blockchain permite que se consiga um nível alto de informação pública, garantindo a rastreabilidade desses ativos. Uma esperança para quem espera que o bitcoin salve El Salvador.