Economia

O bastião do emprego

Seja por necessidade de renda, mudanças no comportamento do consumidor ou demissões nas grandes empresas, a geração de vagas passou a ser maior nas micro e pequenas. Isso é bom ou ruim para um país que precisa crescer logo?

Crédito: ISTOCK / Jardiel Carvalho

HÁ VAGAS A prestação de serviços de costura, entrega e barbearia passaram a empregar mais gente. Como os salários e benefícios tendem a ser menores, a renda dos brasileiros segue em queda. (Crédito: ISTOCK / Jardiel Carvalho)

No jargão militar, bastião é o espaço mais resistente dentro de uma estrutura de combate. Fixado em locais estratégicos, é um ponto acessível para soldados amigos e hostil aos inimigos. Assim se comportam as micro e pequenas empresas (MPEs) durante a pandemia no quesito empregabilidade. À revelia dos impactos financeiros da Covid-19, elas cresceram e se multiplicaram, tornando-se, nos últimos seis meses, o abrigo de mais de 1,1 milhão de desempregados, ou 68% da mão de obra absorvida entre agosto de 2020 e janeiro de 2021, segundo o Sebrae.

As condições marcoeconômicas que produziram esse dado, contudo, não fazem deste bastião um local seguro. Isso porque as vagas criadas pelas micro e pequenas nem sempre são as melhores ou mais estáveis. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, feita pelo IBGE em outubro de 2020, mostrou essa distorção. Para 85% dos que conseguiram empregos depois da da pandemia, a renda ficou menor que a de 2019. Em janeiro deste ano, as MPEs abriram 195,6 mil vagas, alta de 88% ante as 103,9 mil vagas criadas pelo segmento um ano antes. Em cada dez contratações naquele mês, sete foram feitas por PMEs. Elas geraram um saldo positivo de mais de 1 milhão de empregos nos últimos seis meses, enquanto nas médias e grandes empresas o avanço foi de 385,5 mil vagas.

Para o presidente do Sebrae, Carlos Melles, esses dados, que têm como base o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostram que o governo e o Congresso não podem deixar de lado as empresas de menor porte. “Em 2020, foram as micro e pequenas empresas que sustentaram o nível de emprego no País. Este ano não deve ser diferente”, disse. Entre as medidas consideradas importantes para a manutenção e fomento de emprego nessas empresas, ele cita a criação de um Refis para as MPEs e de uma moratória (parcelamento) dos tributos para os pequenos negócios. “Acreditamos que diante da perda de faturamento provocada pela nova onda de Covid-19, esses empreendedores vão precisar de um fôlego maior para seguir de pé”, afirmou Melles.

Em julho do ano passado, o governo criou o Programa Capital de Giro para Preservação de Empresas (CGPE), com até R$ 120 bilhões em crédito para os pequenos e microempresários. Segundo o Portal da Transparência, menos de R$ 32 bilhões foram repassados. O programa, que abrangia empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões, acabou por excluir grande parte das micro e pequenas. Entre as razaões para isso estava a burocracia criada pelo governo para beneficiar quem mais precisa. Segundo o próprio ministro Paulo Guedes, ele foram excluídos pela dificuldade em comprovar que fariam o pagamento ou por não ter imóveis para deixar como garantia.

Seja por necessidade ou oportunidade, o empreendedorismo tem ganhado novos contornos em tempos de pandemia para aproveitar também uma mudança no comportamento do consumidor. Segundo Sérgio Voltare, especialista em varejo e consultor do Sebrae Minas Gerais, os consumidores estão preferindo comércios locais. “É o contrário do que acontecia antes da pandemia, quando as grandes redes estavam engolindo as pequenas”, disse. O exemplo mais claro, segundo ele, são as farmácias de bairro e os mercadinhos. “Mas também vale para redes de alimentação, que agora dividem espaço com a dona de casa que vende marmita.”

Foi nessa onda que nasceu a marmitaria Alimentação e Saúde, uma empresa com seis funcionários. A dona do negócio, Isis Castanhari, perdeu o emprego em um grande restaurante durante a pandemia e se juntou a vizinhas para começar seu próprio negócio. “Passamos de dez refeições ao dia em julho para 120 neste ano”, disse. A empresa atua apenas na região central da capital paulista, com entregas feitas de bicicleta. Márcia Caetano, que recentemente abriu uma empresa de costura e já contratou três funcionárias, é outro exemplo.

E AS GRANDES? Segundo Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) as indústrias passam por um período de reestruturação e preparo para a retomada, mas sozinhas elas não poderão reativar a economia. “Precisamos urgentemente fazer as reformas estruturais, baixar impostos e melhorar a competitividade da nossa economia. Só assim vamos atrair investimentos e gerar os empregos”, disse. O professor de economia da Universidade de São Paulo Flávio Riga concorda. “As MPEs ajudam a manter a empregabilidade, mas o aumento de renda passa pela reestruturação das grandes.” Enquanto a reestruturação não acontece, na guerrilha contra a pandemia, as micro e pequenas seguem na linha de frente. E nenhum país vence uma batalha tão importante com um exército mal equipado.