Coluna

O barraco da Empiricus sacudiu o evento do Credit Suisse

O barraco da Empiricus sacudiu o evento do Credit Suisse

Está dando o que falar no mercado financeiro a cabeçada desferida pelo analista chefe e fundador da consultoria Empiricus, Felipe Miranda, em Tiago Reis, sócio da concorrente Suno Research, num dos intervalos da Latin America Investment Conference, realizado na terça feira, 31, no Hyatt Hotel, em São Paulo. O evento, promovido pela subsidiária brasileira do banco Credit Suisse, contou com a presença de cabeças coroadas como o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, o prefeito de São Paulo, João Dória e o presidente da República Michel Temer.

O lutador de MMA Minotauro foi a inspiração de Miranda?
O lutador de MMA Minotauro foi a inspiração de Miranda?

O barraco protagonizado por Miranda, que transformou o salão do cafezinho do Hyatt em octógono e atacou Reis com a fúria do velho Minotauro, o campeoníssimo lutador do MMA, em seus melhores dias, foi a materialização de uma velha pinimba entre os dois analistas, que se arrasta há algum tempo pelas redes sociais. O próprio Reis explicitou os motivos da disputa, na página da Suno no Facebook : “não é segredo que sempre tivemos visões diferentes, quanto às práticas de publicidade que existem no setor. Porém, até então as discussões aconteciam no campo das ideias, mas assim como todos os presentes, fomos surpreendidos pelo ato de agressão física.”

Conforme publicou o jornal O Estado de S. Paulo, Reis vinha questionando os ganhos mirabolantes prometidos pela Empiricus em seus relatórios. No fim do ano passado, por exemplo, ele criticou a Empiricus, que anunciava ser possível transformar um capital de apenas R$ 1.500 em R$ 227 mil, proeza que nem em seu auge, o conhecido empresário Luiz Fernando da Costa, mais conhecido como Fernandinho Beira-Mar, conseguia realizar.

De acordo com uma testemunha, aparentemente foi uma atitude premeditada de Miranda e não fruto de alguma altercação no momento. “Miranda se dirigiu diretamente na direção de Reis e desferiu a cabeçada”, diz. Atingido pelo rival, com o nariz sangrando, Reis foi prontamente socorrido pelo staff do banco anfitrião.

Além de condenável, o Minotauro rápido que baixou em Miranda pode ter lá seus inconvenientes para o agressor e seus colegas de consultoria. Já pensaram se a moda pega e os investidores que viram seu rico dinheirinho virar pó ao seguir algumas recomendações equivocadas da Empiricus resolvem punir com cabeçadas os analistas da empresa? São tantos os prejudicados, que o mais provável é que a turma corre o risco de virar paçoca, caso o exemplo de Miranda seja imitado.

Pense na turma que acreditou que a OGX Petróleo, a companhia de petróleo e gás do grupo EBX, que a megalomania de seu controlador, Eike Batista, prometia transformar numa mini-Petrobras. Na companhia de gente graúda como os bancos Itaú, Santander, Bank of America, Citi e BTG Pactual, entre outros, a Empiricus foi uma das mais ardorosas propagandistas dos papéis da OGX.

E também uma das mais resilientes nessa postura. Quando começou a débâcle da OGX na Bolsa e os grandalhões retiraram sua recomendação, a Empiricus continuou apostando na viabilidade da “mini-Petrobras”. De acordo com a Infomoney, em seu relatório do dia 28 de junho de 2011, quando as ações da OGX estavam cotadas a R$ 6,25, com uma queda de 73,26% sobre sua máxima histórica de R$ 23,37, registrada no pregão, a Empiricus mantinha inabalada sua posição. “Encontramos bastante atratividade no valuation da companhia”, dizia o relatório.

Segundo o Infomoney, a compra de ações da OGX se manteve na carteira recomendada pela Empiricus, ainda em julho de 2012, mesmo após a queda de 40% das cotações, em apenas uma semana. Em outro relatório, que vigorou até janeiro de 2013, a casa de análises afirmou que “ o valuation continuava atrativo e o fluxo de notícias negativas iria acabar”. Rodolfo Amstalden, colega e sócio de Miranda, justificava as recomendações, que seriam feitas para quem tem “estômago para a volatilidade.”

O problema é que muita gente possa até ter estômago para a volatilidade, mas não consiga lidar bem com suas perdas. Mas Deus é pai. Oxalá, as boas maneiras voltem a imperar e que todos, inclusive os que tiveram seus estômagos afetados por alguns palpites infelizes de seus gurus financeiros, mantenham a serenidade ao manifestar sua insatisfação.