Entrevista

Nelson Antônio de Souza, presidente da Desenvolve SP

O auxílio emergencial para as empresas é o capital de giro

Bruno Poletti

O auxílio emergencial para as empresas é o capital de giro

Para o ex-presidente da Caixa e do Banco do Nordeste, reside no capital estrangeiro uma solução de médio prazo para as empresas superarem o caos econômico trazido pela Covid-19.

Jaqueline Mendes
Edição 21/08/2020 - nº 1185

Foi um feito histórico. A agência de fomento do Estado de São Paulo, Desenvolve SP, conseguiu captar recursos no exterior sem garantia da União. A linha de crédito de US$ 50 milhões, obtida junto ao Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), vai contribuir para a liberação de financiamentos no valor total de R$ 1,1 bilhão durante a pandemia. Nesta entrevista à DINHEIRO, o presidente da Desenvolve SP, Nelson Antônio de Souza, afirmou que a operação com o CAF é a primeira de uma série que ele pretende firmar nos próximos dois anos. O plano é chegar a R$ 4 bilhões até 2021. A operação envolveu a contratação de um hedge cambial. Segundo o executivo que já presidiu a Caixa e o Banco do Nordeste, há interesse do capital estrangeiro no desenvolvimento das empresas brasileiras – em especial, as que atuam no estado de São Paulo.

DINHEIRO – Por que a Desenvolve SP precisou captar dinheiro no exterior, em parceria com o CAF?
NELSON DE SOUZA – As agências de desenvolvimento e as agências de fomento não têm como captar na poupança popular. Não é como um banco de varejo. Temos duas saídas. A primeira é a posse do controlador. Na situação em que a gente está, a posse do controlador não é tão simples, tendo em vista a brutal queda da arrecadação em torno dos municípios, estados e União, em qualquer país do mundo. A segunda saída são repasses de organismos nacionais ou bancos multilaterais, com um custo financeiro menor do que aqueles repassadores nacionais, como BNDES e FGTS.

A pandemia facilitou a captação internacional?
Essa foi a grande mudança no mercado durante a pandemia. Conseguimos trazer recursos de fora e emprestar para empresas que estavam precisando de liquidez com um custo menor do que as instituições nacionais. Somente no período da pandemia, emprestamos R$ 1,1 bilhão para mais de 2,2 mil empresas. Para se ter uma ideia, em apenas três meses, entre março, abril e maio, houve crescimento de 2.161% nos empréstimos da Desenvolve SP em comparação à media dos últimos 11 anos. É algo extraordinário.

E o risco cambial?
O grande benefício dessa operação foi canalizar recursos com o hedge cambial lá fora sem passar para o tomador final, com custo menor do que os nacionais. Estamos engatilhados para captar cerca de R$ 4 bilhões no primeiro trimestre de 2021. Essa captação com o CAF, por exemplo, foi a primeira vez que uma agência conseguiu isso sem o aval soberano. O objetivo não era só internalizar os recursos, mas ter um custo efetivo total menor que o mercado nacional. Foi um grande desafio, mas nós conseguimos. E temos negociado muitos recursos pela frente.

“A economia brasileira teve uma queda abrupta. Foi a que mais caiu no mundo durante esse primeiro ciclo da pandemia” (Crédito:Felipe Rau)

Esse dinheiro vai ser destinado a empresários de quais setores?
A primeira parcela já foi liberada, de US$ 20 milhões, em 12 de agosto. Agora, o objetivo é fomentar o desenvolvimento sustentável e transformar parte desse valor em capital de giro. Hoje as empresas precisam de liquidez, não de investimento. Por isso, nossa operação com o banco de desenvolvimento da América Latina mira a liquidez. Mas emprestamos também para projetos de inovação, produtividade empresarial, inclusão financeira, eficiência energética e energias renováveis. A crise é de liquidez, decorrente da pandemia.

Um dos efeitos da pandemia não foi o de provocar um excesso de liquidez no mercado financeiro global, com os bancos centrais liberando recursos na casa de trilhões?
Posso garantir que a pandemia diminuiu a liquidez do mundo inteiro. Não só diminuiu a liquidez, como aumentou o preço do crédito, tendo em vista as incertezas do pagamento, maior nível de provisão e maior nível de inadimplência. Logicamente, a combinação de inadimplência e maior incerteza gera uma maior taxa de juros. Por isso, a Desenvolve SP reduziu as taxas de juros. Caiu de 1,43% para algo entre 0, 97% e 1,20% ao mês para capital de giro. Essa é a principal missão da Desenvolve SP: conseguir adequar os recursos às necessidades das empresas num custo menor. Nesse momento de incerteza econômica, as empresas não só precisam apenas de capital de giro. Precisam também de orientação na gestão, porque elas não sabem quando essa pandemia vai acabar, como vai acabar, como é que vai sair dessa situação.

Qual a sua avaliação do impacto da pandemia, especialmente nas empresas paulistas?
Logicamente a demanda e a falta de liquidez das empresas, principalmente nas micro e pequenas de São Paulo, são proporcionais ao seu tamanho, ao PIB. Todos os bancos, todos os sistemas financeiros, precisam fazer com que esses recursos cheguem de maneira desburocratizada ao tomador final que são as micro e pequenas empresas.

Existem novas negociações com outros bancos internacionais em andamento?
Muitas. Temos hoje com o Banco Mundial, Banco dos Brics, Banco Interamericano de Desenvolvimento e com os maiores bancos multilaterais do mundo. Temos tratativas avançadas. Isso porque sabemos que as micro e pequenas empresas não suportam mais taxas de juros tão altas. Imagine uma empresa que previa, antes da pandemia, crescer um pouco mais do que em 2019. Daí veio a Covid-19 e tudo virou incerteza. Empresas de cultura, turismo, economia criativa e eventos reduziram o faturamento a zero. Sem capital para se manter, fecha as portas. Criamos um fundo garantidor de R$ 600 milhões. Fomos os primeiros a criar um fundo garantidor do próprio Estado. Isso foi fundamental para as micro e pequenas empresas.

Como fazer com que esses empréstimos cheguem aos setores que mais precisam de crédito?
Vamos colocar principalmente em áreas que vão gerar emprego e renda. Muita gente está segurando investimento para poder passar essa falta de liquidez e conseguir sobreviver. Então nós tivemos também esse cuidado de pegar nossa carteira, negociar com bancos multilaterais e mostrar que as micro e pequenas empresas de vários setores precisam de liquidez hoje, porque elas não tem faturamento.

Com a Selic em 2%, quando haverá crédito mais barato para as empresas?
Na realidade, a Selic com a taxa de 2% ao ano é uma referência, mas o preço final do custo do crédito está muito mais alto. Para se ter uma ideia, a menor taxa de juros está sendo de 0,97% a 1,2% ao mês. O que está em jogo não é só a taxa básica de juro. A Selic é uma variável pequena em relação à definição da taxa final. Há muita incerteza sobre o pagamento do crédito. Se a empresa não tem faturamento, como vai pagar? Tudo isso é provisionado. Por essa razão, demos de três a nove meses de carência, que é o período que ela vai precisar para se reposicionar no mercado, muitas vezes indo para o e-commerce. Outras mudam de atividade.

Quais foram os erros e acertos econômicos dos governos na gestão da pandemia?
Tanto o governo estadual quanto o federal fizeram coisas boas. Sobre o estadual posso falar com mais propriedade porque foi o primeiro a lançar as medidas especiais de crédito para micro e pequenas empresas. Logo na primeira semana, foram jogados R$ 650 milhões de aportes pela Desenvolve SP. Isso foi um grande acerto. No governo federal, citaria o auxílio emergencial como algo muito importante. Se o governo federal tivesse conseguido fazer chegar esse montante de recurso com menos burocracia teria sido ainda melhor.

“O auxílio emergencial tirou muita gente da pobreza. Sem ele, a economia teria mais dificuldade” (Crédito: Rivaldo Gomes)

Qual o impacto do fim do auxílio emergencial?
É ruim falar disso. Prefiro falar do aspecto positivo dele agora. Logicamente, tirou muita gente da pobreza. Se não tivesse isso, a economia teria mais dificuldade. O auxílio emergencial para as empresas é o capital de giro. Essa soma de esforços mitigaram muitas dificuldades do País.

Como avalia a atuação do Banco Central?
O Banco Central tem feito o papel dele. Ele tem se posicionado corretamente nos momentos adequados. Não sou apaixonado por nada, sou um cara bem técnico. Mas isso é o que penso.

Qual a sua expectativa sobre a economia brasileira para este ano?
A economia brasileira teve uma queda abrupta, a que mais caiu no mundo, durante esse primeiro ciclo da pandemia. Mas eu estou otimista. Acredito que com mais abertura dos protocolos nos municípios e nos Estados a atividade econômica vai voltar.

Em 2021?
Em 2020 vai dar tempo de uma recuperaçãozinha. Não adianta a gente pensar negativo. Em 2021 a economia volta porque teremos a vacina. Quem fez um bom protocolo da pandemia, hoje tem uma curva menor e uma recuperação melhor da economia. Essas linhas são inversamente proporcionais. Enquanto uma sobe, a outra desce.

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