Negócios

O aprendizado da CI&T

Lições da chegada da empresa brasileira de produtos digitais nos Estados Unidos em 2005 são usadas agora para atender demandas de projetos ágeis e eficientes.

Crédito: JAFO

ESTRATÉGIA Cesar Gon, cofundador e CEO da CI&T, atua para solidificar a empresa em novas operações abertas pelo mundo e aguarda a volta do trabalho presencial para usar o escritório recém-finalizado da matriz em Campinas. (Crédito: JAFO)

Após dez anos de atuação consolidada no setor de softwares de fundação de sites, a brasileira CI&T partiu em 2005 para um ambicioso projeto de abertura de sua primeira subsidiária nos Estados Unidos. Para isso, realizou o melhor estudo de mercado possível, em que foram definidos o perfil de cliente, a vertical de produto a ser oferecido e o perímetro de penetração. O foco, então, era montar portais de vendas para médias empresas de healthcare na Filadélfia. “Deu tudo errado. Não fechamos nenhum contrato”, disse à DINHEIRO aos risos Cesar Gon, cofundador e CEO da CI&T. A alegria do executivo ao contar esse capítulo trágico da empresa tem relação com o atual momento da companhia, que hoje possui em solo americano seu maior mercado. “Atualmente temos clientes nos Estados Unidos inteiro.” Em 2020, a empresa criada em Campinas virou multinacional — já está em oito países — faturou R$ 1 bilhão, resultado 44% superior ao do ano anterior. E já acumula R$ 1,4 bilhão em receita nos últimos 12 meses fechados em abril. “Estamos na metade de 2021 e já dá para dizer que teremos um crescimento de dois dígitos altos novamente neste ano fiscal”, afirmou Cesar Gon.

Para chegar a esse patamar, foi necessário, em 2005, fazer a leitura rápida dos erros e colocar em prática um modelo de negócio praticamente do zero — em apenas três semanas —, muito baseado em design de produtos digitais, ancorado na experiência dos consumidores, algo que estava emergente 15 anos atrás e nesta terceira década do século 21 é primordial para qualquer corporação. A agilidade, rapidez e adaptação dinâmica deram o tom também agora para atender a uma demanda que busca soluções em curto espaço de tempo. “Encaixamos bem nosso pragmatismo de atacar o que realmente é necessário”, disse o executivo que criou a CI&T com Fernando Matt e Bruno Guiçardi, que estudaram juntos ciências da computação na Unicamp na década de 1990. Durante a pandemia, a empresa abriu operação em três países — Austrália, Canadá e Portugal. Ela já atuava em outros cinco — Brasil, China, Estados Unidos, Japão e Reino Unido.

Divulgação

“Encaixamos bem nosso pragmatismo de atacar o que realmente é necessário”Cesar Gon, CEO da CI&T.

A exigência dos clientes por projetos rápidos e certeiros foi atendida. Em até 90 dias era apresentado planejamento em três frentes: definição da estratégia digital, escolha do design e criação do produto e a implantação da engenharia de software necessária. Com esse sistema a CI&T atrai grandes clientes globais como AB Inbev, Coca-Cola, Google, Johnson & Johnson e Nestlé. No Brasil, atende Bradesco, Itaú, Porto Seguro, Raia Drogasil, SulAmerica e Vivo.

A cervejaria AB Inbev escolheu a CI&T para colocar em funcionamento sua plataforma de negócios B2B (www.bees.com). É um marketplace que conecta a companhia a mais de 1 milhão de bares, restaurantes e pequenos varejistas em todo o mundo. Até o final de 2022, a expectativa é de que 52% da receita da AB Inbev seja gerada por meio desse canal, com mais de 2 milhões de usuários empresariais engajados. O trabalho da empresa de tecnologia brasileira é construir e gerir o portal de grande escala, em operação em mais de 100 países com realidades diferentes em termos de estrutura de mercado, preços, concorrência e requisitos regulatórios.

AQUISIÇÃO A CI&T ganhou musculatura com a aquisição da Dextra, também de criação de produtos digitais, por valor não revelado. A negociação foi divulgada pela empresa no fim de junho e precisa ser autorizada por autoridades de regulação. Juntam-se aos 70 clientes da CI&T os 50 contratos da Dextra. A companhia agora possui 5 mil colaboradores. Especula-se a preparação para um IPO. O assunto é tratado com cautela por Cesar Gon, que prefere comentar a maturação dos processos atuais. “Precisamos nos consolidar nessas novas geografias onde atuamos. No fundo, é preparar a escala em um mercado enorme que temos para explorar”, disse o CEO, ansioso para estrear o novo escritório da matriz em Campinas. Em um setor tecnológico extremamente dinâmico, em que o know how é perecível, é preciso se reinventar o tempo todo. E a CI&T traz na bagagem o aprendizado de seus 26 anos de história, sempre com o DNA da inovação.